O recado da urgência da agenda de adaptação à próxima liderança da ONU

(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)

Em um terreno instável do multilateralismo, 2026 é o ano em que a ONU escolhe quem ocupará a Secretaria-Geral da organização no próximo quinquênio, ao mesmo tempo que carrega sobre si uma pergunta incômoda: que tipo de liderança terá à frente num mundo mais quente, mais desigual e menos cooperativo? A sucessão não marca apenas a possível escolha da primeira mulher no cargo, mas também de titular que vai operar sob o estresse combinado de uma crise climática crescente com um sistema multilateral questionado em sua relevância.

Atualmente, sete candidatos disputam a cadeira. Cinco são indicações de países latino-americanos: Michelle Bachelet (chilena indicada por Chile, Brasil e México), María Fernanda Espinosa (equatoriana, indicada por Antígua e Barbuda), Rafael Grossi (Argentina), Rebeca Grynspan (Costa Rica) e Carolyn Rodrigues-Birkett (Guiana). Dois nomes foram apresentados por países africanos: Macky Sall (ex-presidente do Senegal, indicado por Burundi) e Olara Otunnu (Uganda). A primeira rodada de straw polls (votações informais) do Conselho de Segurança ocorreu em 30 de julho, com Rebeca Grynspan aparecendo como favorita. A próxima consulta está prevista para a terceira semana de agosto.

Enquanto isso, do lado de fora das salas de reunião em Nova York, a realidade climática não espera arranjos diplomáticos. Ondas de calor na Europa, incêndios florestais de grande escala no Canadá e, nas últimas semanas, chuvas intensas, ventanias e tornados no Sul e Sudeste do Brasil – para citar alguns dos eventos extremos recentes pelo globo.

Esses episódios não são mais alertas antecipados sobre um futuro distante. Eles mostram que a discussão sobre adaptação deixou de ser apenas um tema técnico da Convenção do Clima, a UNFCCC, para se tornar um teste real de capacidade institucional: ou políticas públicas, sistemas de proteção, infraestrutura e economias se reorganizam ou a desigualdade e a insegurança social e econômica vão aumentar.

Durante seu mandato, o atual secretário-geral, António Guterres, fez da crise climática um dos eixos da sua gestão, reiterando que a adaptação é essencial porque salva vidas, protege comunidades e fortalece economias diante de choques. Em suas recentes intervenções durante a Semana de Ação Climática de Londres, também defendeu que a adaptação seja integrada ao planejamento nacional e à tomada de decisão em todos os níveis e cobrou que países desenvolvidos cumpram o compromisso de dobrar o financiamento para adaptação até 2025, com trajetória para triplicá-lo até 2030.

É nesse contexto que a Força-Tarefa Adaptação como Prioridade entrega sua carta, assinada por 84 organizações da sociedade civil de diferentes países aos candidatos e candidatas a secretário(a)-geral da ONU. O documento propõe cinco linhas principais de compromisso para quem pretende liderar a organização nos próximos anos: 

  • elevar a adaptação ao mais alto nível da agenda política internacional, com foco em implementar a arquitetura já existente na UNFCCC; 

  • integrar a adaptação de forma transversal às agendas globais de desenvolvimento, incluindo as áreas prioritárias do Objetivo Global de Adaptação (GGA), como água, alimentação e agricultura, saúde, ecossistemas, infraestrutura e assentamentos humanos, pobreza e meios de subsistência;

  • promover maior coerência entre a UNFCCC, o sistema ONU e a arquitetura financeira internacional; 

  • estimular compromissos que garantam financiamento de adaptação previsível, acessível e predominantemente público; 

  • defender processos mais inclusivos e transparentes, ampliando as oportunidades de participação da sociedade civil na ONU e na UNFCCC.

Em um mundo sob forte estresse climático e com o multilateralismo em colapso, colocar a adaptação no centro do mandato da ONU é uma condição base para que a organização não seja apenas uma espectadora na tarefa de proteger vidas e manter a paz, cumprindo o papel para o qual foi criada.

TÁ LÁ NO GRÁFICO

O Tá Lá no Gráfico desta semana elenca algumas iniciativas de preparação no Brasil e no mundo, e lista recomendações para o enfrentamento coletivo do que pode ser o El Niño mais forte do século.

Confira também nossa página com todos os conteúdos da Política por Inteiro sobre o El Niño.

GRÁFICO DA SEMANA

Uma mudança importante ocorreu na última década na matriz elétrica do maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. A participação do carvão como fonte na geração de eletricidade da China caiu para menos da metade, com a expansão das renováveis e o avanço da transição energética, mostra o Gráfico da Semana.

ABC DO CLIMA

Paz Climática: é o conceito que descreve a relação entre a estabilidade climática, a justiça ambiental e a construção de sociedades pacíficas. Compreendida também como “segurança climática”, parte do entendimento de que as mudanças climáticas não são apenas um problema ambiental, mas também um fator que pode agravar conflitos, deslocamentos populacionais, insegurança alimentar, disputas por recursos naturais e desigualdades sociais. Ao mesmo tempo, defende que políticas climáticas bem desenhadas podem fortalecer a paz ao promover cooperação, inclusão e desenvolvimento sustentável.

Painel El Niño, do Governo Federal, reforça alerta sobre onda de calor e incêndios

A edição de julho do Painel El Nino foi divulgada já com os dados atualizados pela NOAA, confirmando a permanência do fenômeno até, pelo menos, o início de 2027, com alta probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte, principalmente nos meses de outubro, novembro e dezembro. Diante desse cenário, o boletim reforça que, no Brasil, as temperaturas acima da média no segundo semestre podem aumentar os riscos de onda de calor e a ocorrência de incêndios florestais.

Ainda de acordo com o documento, as condições atuais beneficiam a colheita do milho e do algodão nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, assim como a colheita das culturas de inverno na Região Sudeste. Na Região Sul, as chuvas acima da média podem beneficiar o desenvolvimento das culturas de inverno, mas dificultar os tratos culturais e a colheita.

O Painel recomenda à população que conheça os potenciais riscos de desastres na sua cidade e no seu bairro e tome conhecimento do plano de contingência, bem como dos locais seguros e das rotas de fuga a serem utilizados.

Ainda na seara do Governo Federal, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE)  reforçou ações para garantir o suprimento de energia diante dos impactos do El Niño. Foi deliberado pelo colegiado a diminuição do volume de água liberado pelos reservatórios das usinas hidrelétricas, a fim de manter o nível de armazenamento e garantir segurança energética das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

A Política Por inteiro monitora as iniciativas do governo federal, estados e municípios, confira se a sua cidade está se preparando: Monitor El Niño.

Procedimentos para envio de alertas de desastres revisados

Nesta semana, a Portaria MIDR nº 2.458 revisou os procedimentos para o envio de alertas de desastres à população por meio da Interface de Divulgação de Alertas Públicos (Idap) e estabeleceu novas regras para a utilização do sistema Defesa Civil Alerta (DCA). A norma consolida a responsabilidade da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) pela gestão da plataforma, incluindo o cadastro e a capacitação dos usuários, além do acompanhamento da operação do sistema.

A portaria determina que os alertas devem ser emitidos prioritariamente pelos órgãos municipais de proteção e Defesa Civil, podendo ser enviados pelos Estados ou pela Sedec em situações específicas. Também instituiu cinco níveis de alerta: baixo, moderado, alto, severo e extremo, aplicáveis exclusivamente aos desastres classificados pela Cobrade (Classificação e Codificação Brasileira de Desastres).

Os avisos poderão ser disseminados por diferentes canais, como Google Alertas Públicos, SMS, TV por assinatura, Telegram, WhatsApp e Defesa Civil Alerta (DCA). No caso do DCA, sua utilização fica restrita aos alertas de nível severo e extremo, sendo obrigatória a inclusão de informações claras sobre os riscos e orientações de autoproteção. A norma também proíbe o envio de mensagens falsas, publicitárias ou de caráter político.

Além disso, para utilizar o sistema Defesa Civil Alerta, Estados e municípios deverão atender a requisitos de capacitação, monitoramento e planejamento operacional, incluindo a existência de plano de contingência atualizado e de estrutura técnica adequada para a operação do sistema.

A revisão da regulamentação ocorre em um momento de preparação institucional para os eventos extremos previstos para os próximos meses, em decorrência do El Niño. A medida busca fortalecer a capacidade de resposta da Defesa Civil, ao mesmo tempo em que reforça a governança e a segurança do sistema para prevenir usos indevidos, como o ataque cibernético que resultou no envio de um alerta falso em junho de 2026.

Crise climática e fé: o que as religiões têm a dizer?

Em um mundo marcado pelas mudanças climáticas, religiões e espiritualidades também são desafiadas a repensar crenças, práticas e formas de pertencimento diante de uma realidade que impõe questões sociais, éticas e existenciais.

Mais de 80% da população mundial afirma acreditar em Deus ou em alguma realidade espiritual transcendente. Diante disso, a Política Por Inteiro investigou as respostas que as diferentes tradições religiosas e espirituais oferecem para a emergência climática. Confira o texto completo.

Boas novas no desmatamento

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou, na sexta-feira (7/8), os dados do Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) referentes a julho de 2026, encerrando o período anual de apuração, que considera o desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026.

Na Amazônia, a taxa estimada para os últimos 12 meses foi de 2.874,38 km², uma redução de 36,8% em relação ao período anterior e a menor registrada desde 2016. Os números indicam que é possível que a taxa Prodes deste ano, a ser divulgada nos próximos meses, atinja o menor valor desde que começaram as medições, em 1988. No Cerrado, a queda foi mais modesta, de 7,8%, mantendo o desmatamento no bioma em níveis preocupantes.

Também foram divulgadas as taxas do Prodes para a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pampa, referentes ao período de agosto de 2024 a julho de 2025. Houve redução do desmatamento nos três biomas. Na Mata Atlântica e no Pampa, as taxas atingiram os menores valores de toda a série histórica.

Considerando todos os biomas monitorados pelo Prodes, a taxa de desmatamento em 2025 apresentou uma queda de 20,1% em relação a 2024, com a área total desmatada passando de 19.571 km² para 15.635 km².

Os resultados revelam que as políticas públicas de comando e controle e a tecnologia aliada à fiscalização vêm funcionando em biomas historicamente degradados, como Amazônia e Mata Atlântica. No entanto, o desmatamento no Cerrado ainda persiste, indicando que a pressão exercida, principalmente, pelo setor agropecuário requer estratégias mais amplas e coordenadas, capazes de conter a conversão de vegetação nativa na fronteira agrícola.

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Instituto Talanoa lança Monitor do El Niño

Ferramenta reúne medidas de preparação do Governo Federal e de Estados e municípios em todo o Brasil

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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.

2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).