A fé espiritual diante da crise climática

A crise ecológica, especialmente as mudanças climáticas, afeta a humanidade em uma escala que desafia identidades, valores, hábitos e formas de compreender o mundo. Religião e espiritualidade também são impactadas, inspirando a atualização de crenças, de práticas e dos sentidos de pertencimento.

Segundo dados do Pew Research Center – Global Religious Landscape e da World Religion Database, aproximadamente 83% dos humanos afirmam acreditar em deus1 ou em alguma realidade espiritual transcendente; na América Latina e Caribe, a taxa é de 90%. Se a fé orienta a vida de bilhões de pessoas, o que ela orienta como resposta à crise climática? 

Confira neste conteúdo especial sobre fé e emergência climática:

Budismo

“Se a mente dos seres humanos é impura, sua terra também será impura; mas, se a mente deles é pura, assim também é a sua terra. Não existem dois ambientes, puro ou impuro, em si mesmos. A diferença [entre eles] reside unicamente no bem ou no mal de nossa mente.” – Sutra budista.
(Tradução livre)

Surgido há cerca de 2.500 anos no nordeste da atual Índia, a partir dos ensinamentos de Siddhartha Gautama, o Buda, o budismo2 busca compreender e superar o dukkha (sofrimento humano) por meio do reconhecimento da impermanência do universo, da interdependência das vidas e do abandono do apego às coisas materiais e aos sentimentos densos.

O budismo não coloca os seres humanos como dominadores da criação, mas como uma entre as múltiplas categorias de seres sencientes existentes no universo. Todos estamos, então, inseridos em uma rede de interdependência e somos afetados pela Lei da Ação e Reação (karma), sendo continuamente envolvidos no ciclo de renascimentos (saṃsāra) até que zeremos as ações negativas, que geram reações negativas e a esse ciclo nos mantêm presos.

Os textos budistas não abordam diretamente problemas como mudanças climáticas ou degradação ambiental, todavia, a ética da ahiṃsā (não-violência), da compaixão e da redução do sofrimento tem sido reinterpretada para responder aos desafios do Antropoceno. O modo de vida monástico, isto é, o enclausuramento saudável para viver a prática budista, caracterizado pela simplicidade material e pelo baixo consumo, é frequentemente apontado como exemplo ambientalmente sustentável. Os preceitos contra o ato de matar contribuíram, igualmente, em diferentes tradições budistas, para a proteção dos animais e para a difusão do vegetarianismo, especialmente no Leste Asiático. 

O principal eixo de alinhamento, portanto, entre o budismo e o movimento climático dá-se em crítica profunda à cultura materialista e ao consumismo. Se, para os ativistas climáticos, o consumo excessivo constitui uma das principais causas do desmatamento e da expansão do uso de combustíveis fósseis, para o budismo ele representa tentativa ilusória de superar o sofrimento humano por meio do atendimento de desejos nunca satisfeitos. Reforçando, justamente, as causas do sofrimento e forçando o indivíduo a manter-se no ciclo de reencarnações (saṃsāra) até que se zere tal ilusão.  

Essa aproximação tornou-se particularmente evidente no budismo ocidental contemporâneo, que reinterpreta conceitos religiosos tradicionais à luz da crise climática. Nessa perspectiva, as mudanças climáticas são compreendidas como resultado de karma coletivo, produzido por padrões sistêmicos de exploração e comportamento de hiperconsumo. Ou seja, o budismo identifica, axiologicamente, as causas das mudanças climáticas como efeitos coletivos advindos da ausência de responsabilidade individual. 

Nesse sentido, mais íntimo e individualizado, a tradição budista questiona certos aspectos do ativismo ambiental contemporâneo. A raiva é considerada um dos três “venenos mentais” fundamentais, enquanto a violência e a agressividade contrariam os princípios da não violência, da compaixão e da equanimidade; valores centrais da ética budista.O ativismo climático ocidental, em contraste, utiliza-se centralmente da confrontação e da busca por atenção política como estratégias de mobilização. Estudos acadêmicos sobre o tema indicam que os ocidentais, inclusive, enfrentam dificuldades de planejamento estratégicos quando instados a fazer ativismo de  forma pacífica. Assim, ativistas budistas frequentemente calculam o desafio de participar de ações políticas sem abandonar a equanimidade e o princípio da não violência. A motivação da ação climática, nessa perspectiva, deve nascer do cuidado com todos os seres sencientes, e não da hostilidade ou da identificação rígida com a identidade de “ativista”, entendida como uma forma de apego.

Faz-se notar que o budismo oferece contribuição singular para o enfrentamento das mudanças climáticas. A crise deixa de ser apenas um problema técnico ou econômico e passa a ser compreendida como expressão de padrões coletivos de ignorância, apego e sofrimento que atravessam a relação da humanidade com a natureza. 

O que o budismo recomenda como resposta?

“Quando tiramos a nossa atenção de nós mesmos [do próprio ego] e olhamos para a vida, vemos que a solução para a crise ambiental começa em nossa mente.”Declaração Budista sobre o Meio Ambiente.
(Tradução livre)

  1. Interdependência da vida
  • Humanos e natureza formam uma única vida.
  • Proteger os ecossistemas é proteger a si mesmo. 

  1. Não violência (ahiṃsā)
  • Reduzir o sofrimento de pessoas, animais e natureza.
  • Rejeitar formas de desenvolvimento que usem combustíveis fósseis. 
  • Unir ação climática e prática espiritual.
  • Agir com firmeza, sem violência de qualquer natureza.

  1. Transformação interior
  • Cultivar equanimidade diante da crise.
  • Agir movido pela compaixão, não pela raiva ou pela necessidade de chamar atenção para si mesmo. 
  • Reconhecer que o bem-estar não depende da acumulação material.

  1. Diálogo e incidência política
  • Sensibilizar comunidades, seu núcleo familiar e tomadores de decisão.
  • Defender políticas de proteção da vida e do clima.

Islamismo

“A destruição da terra e do mar apareceu por causa da corrupção no que as mãos humanas têm feito, [Alá] permitirá que experimentem do fruto dessas ações, a fim de que possam regressar do erro cometido.” – Corão 30:41.
(Tradução livre)

O islamismo3 pertence às três religiões abraâmicas monoteístas. Surgido no século VII, na forma como o conhecemos contemporaneamente, é a mais jovem entre elas. Embora seu núcleo histórico esteja localizado no Oriente Médio, no Norte da África e em partes da Ásia Central, está presente em todo o mundo. 20% da população muçulmana global vive hoje no Oriente Médio e no Norte da África, enquanto cerca de 60% residem na Ásia. 

Os muçulmanos praticantes compartilham a crença em deus, comumente nominado como “Alá”, conforme revelada ao profeta Maomé, e fundamentam sua fé em duas principais fontes sagradas: a.) o Alcorão, entendido como a revelação divina do arcanjo Gabriel ao profeta Maomé; e b.) a Sunna, composta por uma coleção de Hadiths, ou seja, relatos sobre as práticas e os ensinamentos morais do profeta. Os muçulmanos consideram Maomé um modelo e, portanto, buscam orientar suas ações tanto pelo Alcorão quanto pela Sunna, extraindo dessas fontes normas para a adoração divina e para a organização da vida cotidiana.

Os Cinco Pilares do Islã são: a.) a profissão de fé (Shahada); b.) a oração concentrada (Salat); a caridade aos necessitados (Zakat); o jejum durante o Ramadã (Sawm); e a peregrinação a Meca (Hajj). Assentados neles, o movimento do ambientalismo islâmico a partir da década de 1960, especialmente com as reflexões do filósofo Seyyed Hossein Nasr, compreende a crise climática não apenas como um problema ambiental, mas também como uma crise moral e espiritual decorrente do rompimento da relação harmoniosa entre a humanidade e a criação.

Os princípios mais frequentemente apontados são:

  1. Tawhid (Unicidade de Deus): toda a criação forma uma unidade interdependente, da qual seres humanos e natureza fazem parte inseparável.

  2. Mizan (Equilíbrio): Alá estabeleceu o equilíbrio em toda a criação, cabendo à humanidade evitar sua ruptura por meio da exploração excessiva dos recursos naturais.

  3. Khalifa (Tutela): os seres humanos são vice-gerentes, ou guardiões, da criação e responsáveis por protegê-la e administrá-la com justiça. Sob essa perspectiva, a mudança do clima representa um fracasso no cumprimento dessa responsabilidade.

  4. Maslahah (Bem comum): as decisões devem promover o interesse coletivo e proteger o bem-estar das gerações presentes e futuras, o que faz lembrar do preâmbulo do Acordo de Paris, reforçando o dever de prevenir danos ambientais.


Esses princípios inspiraram documentos como a
Declaração Islâmica sobre a Mudança Global do Clima (2015), que conclama governos, instituições e comunidades, inclusive no âmbito das negociações da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a adotar ações concretas diante da emergência climática, conciliando os ensinamentos islâmicos com as evidências científicas sobre o aquecimento global4.

Para o Islã, o cuidado com a Terra é parte integrante da responsabilidade espiritual dos seres humanos. O Alcorão e a Sunnah ensinam que Alá confiou à humanidade a função de khalifa, tornando-a responsável por preservar o equilíbrio do mundo natural e por responder moralmente pelo uso dos recursos que lhe foram confiados. A mudança do clima é compreendida, por conseguinte, como uma manifestação do fracasso humano em cumprir o dever de tutela sobre a criação.

O Alcorão incentiva a moderação e condena o desperdício e os excessos. Esses ensinamentos têm sido associados por estudiosos muçulmanos à necessidade de rever padrões insustentáveis de produção e consumo, especialmente aqueles que intensificam as emissões de gases de efeito estufa, aceleram o desmatamento e comprometem os recursos naturais. O consumo excessivo de carne é apontado como incompatível com os princípios éticos do Islã. Embora a carne halal seja permitida, diversos estudiosos argumentam que os atuais padrões de produção e consumo, especialmente em sociedades de média e alta renda, violam o dever de moderação (israf), rompem o equilíbrio da criação (mizan) e comprometem a responsabilidade humana de atuar como guardiã da Terra (khalifa).   

Os ensinamentos de Maomé reforçam essa compreensão ao estabelecer normas de compaixão e respeito por todas as criaturas. Diversos hadiths condenam a crueldade contra os animais, proíbem sua exploração desnecessária e incentivam o tratamento digno de todas as formas de vida. Uma das tradições proféticas mais conhecidas afirma que, “se a Hora Final chegar enquanto alguém tiver uma muda em suas mãos, deve plantá-la, se ainda puder”, simbolizando que o dever de praticar o bem e cuidar da criação permanece válido mesmo diante das circunstâncias mais adversas, estimulando uma ética de esperança e ação.

O Islã também compreende que a proteção ambiental está intimamente ligada à justiça social. O Alcorão conclama os fiéis a cooperarem em retidão e na promoção do bem comum, princípio que inspira iniciativas coletivas voltadas tanto para a preservação da criação quanto para a proteção das populações mais vulneráveis. Reforça-se essa ética ao ensinar que muçulmano é aquele cuja língua e cujas mãos promovem a segurança das pessoas, evidenciando que a paz, a não violência e a confiança mútua são valores centrais da convivência humana. Essa realidade é frequentemente ilustrada por situações vividas em países como Gaza (Palestina) e Sudão, onde os impactos da guerra se somam aos efeitos da degradação ambiental e da mudança do clima, agravando o sofrimento humano. 

Inspirado pelo mandamento corânico de “cooperar na retidão e na piedade, e não cooperar no pecado e na agressão” (Alcorão 5:2), compreende-se que proteger a Terra exige também proteger aqueles que nela vivem, honrando plenamente o papel dos seres humanos como khulafaʾ; sucessores e guardiões da criação de Alá.

O que o Islã recomenda como resposta?

“Em verdade, os desperdiçadores são irmãos dos demônios, [assim como] Satanás foi ingrato para com seu Senhor.” – Corão 17:27;

“Tudo o que excede o necessário é israf [extravagância].” – Ali ibn Abi Talib, 1987.
(Tradução e destaque dos especialistas do Instituto Talanoa)

  1. Exercer a responsabilidade de guardião (Khalifa)
  • Reconhecer que Alá confiou à humanidade a responsabilidade de proteger a criação.
  • Compreender a mudança do clima como uma falha no dever de cuidar da Terra.
  • Utilizar os recursos naturais com responsabilidade, justiça e visão de longo prazo. Abandonando gradualmente o uso de combustíveis fósseis e reduzindo o consumo de carne.

  1. Preservar o equilíbrio da criação (Mizan)
  • Evitar atividades que promovam a degradação ambiental, poluição e destruição dos ecossistemas.

  1. Praticar moderação e combater os excessos
  • Rejeitar o desperdício e o consumo excessivo de recursos naturais.
  • Reduzir padrões de consumo que intensificam a mudança do clima, incluindo o consumo excessivo de carne associado à pecuária intensiva.
  • Adotar estilos de vida mais sóbrios e solidários.

  1. Cuidar de todas as formas de vida
  • Tratar os animais com compaixão e respeito.
  • Reconhecer que todas as criaturas possuem valor por fazerem parte da criação.
  • Promover uma relação ética com a natureza baseada na misericórdia (rahma).

  1. Promover a paz, a justiça e a solidariedade
  • Compreender que proteger a Terra também significa proteger a vida e a dignidade humana.
  • Reconhecer que guerras e conflitos, como os vividos em Gaza e no Sudão, agravam a degradação ambiental e ampliam a vulnerabilidade climática.
  • Cooperar pela justiça, pela paz e pela proteção dos povos mais afetados pela crise climática.

  1. Agir coletivamente com esperança
  • Mobilizar comunidades e autoridades políticas para enfrentar a mudança do clima.
  • Cooperar “na retidão e na piedade”, respeitando pares e mesmo adversários. 
  • Agir com esperança em favor da criação, inspirando-se no ensinamento maomélico de “plantar uma árvore ainda que no fim da vida”.

Hinduísmo

“Minha mãe é a Terra e dela sou filho” – Atharva Veda, 12.1.12
(Tradução dos especialistas do Instituto Talanoa.)

O hinduísmo é conhecido como a prática religiosa mais antiga do mundo conhecido, datando de mais de 4.000 anos a.C. Por tal razão, é conhecida por Sanatan Dharma (doutrina eterna). A maioria dos seus fiéis está concentrada no que hoje conhecemos como Índia. Em razão mesmo de sua longuíssima existência, mais do que uma religião única, é uma tradição diversa5 que inclui inúmeras divindades, com destaque para a tríade formada por Brahma (criação), Vishnu (preservação) e Shiva (transformação), além de textos sagrados como os Vedas e o Bhagavad Gita. Similarmente a outras tradições religiosas de largo pulso, não existe autoridade religiosa central ou hierarquia responsável por definir formalmente doutrina oficial; é composta por ampla diversidade de escolas filosóficas e práticas espirituais, de modo que nenhuma pessoa ou instituição fala em nome de todos os hindus. 

Sumariamente, as diversas práticas estão baseadas nos conceitos principais de: a.) como karma (lei de causa e efeito) b.) samsara (ciclo de renascimentos ou reencarnações); e c.) moksha (libertação desse ciclo), bem como pelos conceitos centrais de dharma (dever) e ahimsa (não violência). 

A doutrina não estabelece um culto coletivo semanal ou dia específico para a adoração pública. Embora muitos hindus frequentem templos regularmente para orações e oferendas, a prática religiosa é predominantemente doméstica. A maioria dos hindus relata manter altares domésticos com imagens de divindades, onde realizam suas orações e oferendas. A principal forma de culto no hinduísmo é a puja, termo que significa reverência, homenagem ou adoração. Nos templos, é conduzida por sacerdotes em rituais mais elaborados, pois acredita-se que as divindades estejam permanentemente presentes nas imagens sagradas. Como parte do ritual, os fiéis recebem o prasad (benção) e participam de gestos simbólicos de devoção, como consumir pequenas porções de alimentos consagrados, usar flores, inalar incensos e defumações, beber água sagrada e aplicar o tilak; a célebre marca feita com pós coloridos no centro da testa, acima dos olhos, que simboliza proteção, bênção e conexão espiritual.  

No hinduísmo, a vida ética é orientada por princípios morais que promovem a harmonia entre o indivíduo, a sociedade e a natureza. 

No que tange à crise climática, o hinduísmo compreende a natureza como uma extensão da própria existência humana. Segundo a tradição, o universo e o corpo humano são formados pelos mesmos cinco elementos fundamentais (espaço, ar, fogo, água e terra; os Pancha Mahabhutas), originados de prakriti, a energia primordial. Esses são interdependentes e estão ligados aos cinco sentidos. O nariz humano está ligado à terra; a língua, à água; os olhos com o fogo; a pele, por sua vez, ao ar; e as orelhas estão ligadas ao espaço, reforçando a ideia de constituição de única realidade contínua. 

Os Upanishads, antigas escrituras indianas, ensinam que esses elementos emanam de Brahma, a realidade suprema ou a inteligência suprema, unidade onipresente de toda a criação. Essa visão fundamenta uma ética de respeito ao meio ambiente, expressa sobretudo pelos conceitos de dharma e karma. Para muitos hindus, proteger a natureza é parte do dharma, enquanto as ações humanas em relação ao meio ambiente geram consequências espirituais, influenciando o ciclo de samsara.

Embora as mudanças climáticas não sejam mencionadas explicitamente nas escrituras hindus, as próprias escrituras védicas incluem orações que expressam respeito à natureza e pedem perdão antes de qualquer intervenção no ambiente. Textos como o Bhagavad Gita revelam compreensão de que a vida e a natureza seguem ciclos interdependentes. Se uma é tornada desequilibrada, a outra assim se tornará. Qualquer desequilíbrio nesses ciclos pode gerar consequências profundas para o mundo natural e para a humanidade, reforçando a importância de viver em harmonia com a natureza. Textos sagrados como o Atharva Veda conclamam os fiéis a tratar a Terra com reverência, evitando causar danos à “Mãe Terra”. Já os Puranas apresentam elementos naturais, como o rio Ganges, personificado na deusa Ma Ganga, como manifestações do divino, reforçando o caráter sagrado dos ecossistemas e o Ishavasyam, ou seja, o senso de divindade onipresente em tudo e em todas as formas de vida.

Para o Sanatan Dharma causar danos à natureza constitui um ato de adharma, a qual seja, uma ruptura do dever. A tradição ensina que toda a humanidade faz parte de uma mesma família e, por isso, tem o dever de cuidar da Terra da mesma forma que ela sustenta a vida. Diante da crise ambiental, o hinduísmo reforça o princípio da ahimsa (não violência), inspirando relação de coexistência harmoniosa entre seres humanos e natureza

O vegetarianismo liga-se, como consequência, à compreensão espiritual da interconexão entre todos os seres vivos e ao princípio da ahimsa (não violência), orientando a evitar causar sofrimento às criaturas. Faz-se saber que nem todos os hindus são vegetarianos. Muitas tradições, porém, valorizam a alimentação baseada em vegetais como expressão de compaixão, disciplina espiritual e respeito pela ordem cósmica. A ideia de que todos os seres participam do ciclo da vida e do princípio do karma reforça a percepção de que as ações humanas possuem consequências éticas, inclusive na relação com os animais e com a natureza. O vegetarianismo representaria, destarte, mais do que escolha alimentar, uma forma de cultivar harmonia com a criação e reduzir a violência contra a teia da vida.

Ao desrespeitar o princípio sagrado da ahimsa, entra em ativação outra lei eterna. A do karma. Essa representa a vínculo obrigatório universal de causa e efeito. Toda ação gera consequências que inevitavelmente retornam ao indivíduo e à coletividade. A exploração dos recursos naturais com vistas à manutenção de um estilo de vida soberbo, “adhármico” e pouco modesto enseja a contínua necessidade de queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e altas taxas de sofrimento animal que destroem a beleza unitária e equilibrada da criação e produzem efeitos negativos sobre o próprio ser humano e ao planeta, vista a interconectividade entre os ambos. A crise climática pode ser compreendida, então, como manifestação das consequências coletivas das escolhas humanas, reforçando a responsabilidade moral de agir em conformidade com o dharma e restaurar o equilíbrio entre a humanidade e a natureza.

A reencarnação traz ligação direta com a interconexão da vida, pois sua verdade serviria a afastar o apego aos bens materiais e aos símbolos terrenos de poder, como riqueza, status, cargos e prestígio social. A despeito do hinduísmo afirmar a dignidade da criação material, ele adverte constantemente contra o sofisma do materialismo e a busca desenfreada por acumulação. Ao contrário, recorda que a vida humana encontra seu sentido no serviço ao outro, na humildade constantemente buscada sob rígida autovigilância e no cuidado com a criação. Quando o indivíduo e, em larga escala de destruição, a sociedade, opta por orientar suas escolhas pelo consumo, pela competição oriunda de um ego disfuncional ou pela acumulação de riquezas materiais, provadas sempre transitórias, incentiva-se modelo que destrói simultaneamente o planeta e a própria humanidade.

Os comportamentos individuais e coletivos devem estar em harmonia com o dharma. A ruptura desse equilíbrio, motivada pelo lobha (ganância) e pela maya (ilusão podre) de que riqueza, posição social e posses tangíveis ou simbólicas são fontes permanentes de felicidade, afasta o ser humano da ordem natural sustentada pela tríade divina criação-preservação-transformação. Como consequência lógica, a espiritualidade hindu convida cada pessoa a permanecer vigilante diante do apego aos bens materiais, cultivando vida simples, moderada e responsável. Antes de agir em benefício próprio, é necessário considerar os impactos das próprias escolhas sobre o conjunto da criação, reconhecendo que o bem individual só pode ser plenamente alcançado quando está em sintonia com o bem comum e com o equilíbrio da Terra.

Os hindus possuem longa trajetória política, característica natural da Nação que nos deu Mahatma Gandhi, o qual, por sua vez trouxe ao mundo nova forma de fazer política; a satyagraha, ou a doutrina do protesto não violento. Principiologia que derrotou a chacina colonial britânica no antigo Raj e permitiu a conquista da independência da Índia, em 15 de agosto de 1947. Em 2009, líderes espirituais lançaram a Declaração Hindu sobre Mudanças Climáticas, posteriormente reafirmada durante a COP21, em Paris (2015), defendendo que a proteção do meio ambiente constitui um dever moral fundamentado nos ensinamentos hindus. Entre as principais organizações destaca-se o Projeto Bhumi (Mãe Terra), criado pelo Oxford Centre for Hindu Studies, o qual mobiliza comunidades hindus para a ação climática e promove práticas sustentáveis em templos e locais de peregrinação por meio do Green Temples Guide.

Merece destaque mais do que especial o Movimento Chipko, surgido na Índia como forma de resistência ao desmatamento, no qual moradores abraçam árvores para impedir seu corte, inspirado pelo princípio hindu da ahimsa (não violência). Tornou-se símbolo internacional da defesa pacífica do meio ambiente e influenciou movimentos socioambientais em diversas partes do mundo, incluindo as estratégias de resistência utilizadas por seringueiros liderados por Chico Mendes na Amazônia brasileira, conhecidas como Empates. Dessa profícua semente política, nasce, ainda, a figura de Marina Silva e a criação do conceito de Reservas Extrativistas (RESEX), as quais incentivam a conservação da floresta com o uso sustentável de seus recursos pelas comunidades tradicionais. Finalmente, todavia menos conhecido, o movimento espiritual Swadhyaya incentiva o cuidado com a natureza como expressão da devoção ao divino, enfatizando que a conservação ambiental é uma consequência natural da espiritualidade hindu. 

O que o Hinduísmo indica como resposta?

“Tudo o que existe neste universo é permeado por Brahma. Desfruta [aceita] apenas aquilo que te é destinado, com espírito de renúncia. Não cobices a riqueza.” – Īśā Upaniṣad, verso 1.
(Tradução e destaque dos especialistas do Instituto Talanoa.)

  1. Cumprir o dever de proteger a criação (Dharma)
  • Reconhecer que proteger a natureza é um dever moral e espiritual.
  • Agir com responsabilidade em relação aos recursos naturais, pensando nas gerações futuras.
  • Compreender que degradar o meio ambiente constitui um ato de adharma, rompendo a ordem natural e espiritual.

  1. Viver em harmonia com a natureza
  • Reconhecer a interdependência entre todos os seres vivos; o que inclui reduzir o consumo de carne.
  • Respeitar os ciclos naturais, compreendendo que o equilíbrio da natureza é condição para o equilíbrio da humanidade.
  • Considerar a Terra como uma manifestação do divino e parte inseparável da própria existência.

  1. Praticar a não violência (Ahimsa)
  • Evitar causar sofrimento de quaisquer sortes às pessoas, aos animais e aos ecossistemas.
  • Promover uma convivência pacífica e respeitosa com todas as formas de vida.
  • Reduzir práticas que provoquem degradação ambiental, poluição e destruição da biodiversidade.

  1. Cultivar simplicidade e autocontrole (Dama)
  • Combater o consumismo, o desperdício e a exploração excessiva dos recursos naturais.
  • Adotar estilos de vida mais simples, equilibrados e sustentáveis.

  1. Agir com responsabilidade pelas consequências das ações (Karma)
  • Reconhecer que toda ação produz consequências para o indivíduo, a sociedade e a natureza.
  • Entender que proteger o meio ambiente gera mérito espiritual, se feito de forma pacífica, e fortalece a harmonia entre todos os seres.
  • Assumir responsabilidade pelas gerações presentes e futuras.

  1. Mobilizar comunidades para proteger a natureza
  • Incentivar templos, líderes religiosos e comunidades a promover práticas ambientalmente sustentáveis.
  • Apoiar políticas de conservação, vegetarianismo, reflorestamento e proteção dos rios e das florestas.
  • Inspirar-se em exemplos como o Movimento Chipko e a Declaração Hindu sobre Mudanças Climáticas, que demonstram como a espiritualidade pode impulsionar a ação coletiva em defesa do clima.

Judaísmo6

O Senhor fez o ser humano e o colocou no Jardim do Éden para o cultivar e o guardar.” – Gênesis 2:15  

O judaísmo é reportado como a primeira religião monoteísta da história conhecida, com cerca de três mil anos de existência.

Sendo uma das três religiões abraâmicas, a palavra “judaísmo” deriva do grego Ioudaïsmós, relacionada ao antigo Reino de Judá. Segundo a tradição, Deus estabeleceu uma brit (aliança) com Abraão e seus descendentes, escolhendo o povo hebreu para viver em fidelidade à sua direção moral. Essa aliança foi oxigenada e aprofundada com Moisés, por meio da revelação da Torá no Monte Sinai; fundamento da vida religiosa e moral judaica.

A Torá, constitui o texto sagrado central do judaísmo. Ela reúne os cinco primeiros livros da Tanakh (o compilado histórico-moral), o qual contém três seções principais: a Torá, os Profetas e os Escritos. narrando desde a criação do mundo até a formação do povo de Israel e estabelecendo os mandamentos e princípios que orientam a vida religiosa, ética e comunitária. A transmissão da fé judaica ocorre, sobretudo, no âmbito familiar, onde são preservadas as tradições, as festividades e os ensinamentos religiosos. As sinagogas funcionam como locais de culto, estudo e reunião da comunidade, sendo conduzidas por rabinos, que exercem funções de orientação espiritual e interpretação da doutrina judaica, sem constituírem autoridade sacerdotal uníssona.

O judaísmo não constitui tradição homogênea e apresenta diferentes correntes de interpretação e prática religiosa. Entre as principais estão o judaísmo ortodoxo, que preserva rigorosamente a tradição e a autoridade da lei judaica (Halachá); o judaísmo ultraortodoxo (Haredi), caracterizado pela observância sobre-estrita das normas religiosas e pelo forte conservadorismo moral; o judaísmo conservador (Masorti), que busca conciliar a preservação da tradição frente às transformações da sociedade contemporânea; e o judaísmo progressista, representado principalmente pelas correntes Reformista e Reconstrucionista, cuja ênfase dá-se na aplicação contemporanizada da tradição judaica aos desafios contemporâneos, preservando seus princípios éticos fundamentais, como Tikkun Olam (“reparar o mundo”), Tzedek (justiça) e a responsabilidade social7.

Independentemente da corrente, o ser humano é chamado a exercer uma administração responsável da criação divina, reconhecendo que o planeta pertence a deus e foi confiado à humanidade para ser cultivado e preservado, e não explorado. Adão é colocado no Jardim do Éden “para o cultivar e o guardar”, estabelecendo um dever permanente de cuidado com a criação. Esse princípio é reforçado pelo conceito de Bal Tashchit (“não destruir”, ou “não violência”), desenvolvido pela tradição rabínica a partir da Torá como proibição contra o desperdício, a destruição desnecessária dos recursos naturais e do corpo humano. A degradação ambiental e as mudanças climáticas podem ser compreendidas, portanto, como uma violação da responsabilidade humana de proteger a obra de deus. A tradição judaica compreende que a perda da integridade moral conduz não apenas à degradação da natureza, mas ao enfraquecimento da sociedade e do próprio ser humano. 

As mudanças climáticas são compreendidas, por diversos líderes judeus, como problema mais do que científico, também, ético e religioso. A degradação ambiental representa violação da aliança entre o deus, a humanidade e a criação. Para o rabino Arthur Waskow, por exemplo, a continuidade da queima de combustíveis fósseis rompe esse pacto ao lançar dióxido de carbono na atmosfera e comprometer a “teia da vida” do planeta. Em sua interpretação, a dependência dos combustíveis fósseis reflete a mesma lógica de poder e dominação simbolizada pelo faraó do Êxodo, cuja obstinação resultou em sucessivas calamidades. Na atualidade, Waskow associava tal postura às grandes corporações dos setores de carvão, petróleo e gás, defendendo que a mobilização da sociedade é essencial para enfrentar a crise climática e promover uma relação mais justa e responsável com a criação.

A responsabilidade ética pregada para fora é traduzida em ações concretas por diversas organizações judaicas no seio de suas práticas. Entre as iniciativas destacadas estão o estabelecimento de metas para redução das emissões de gases de efeito estufa, melhorias na eficiência energética de sinagogas, construção de espaços sustentáveis, incentivo à agricultura sustentável, programas de educação ambiental e mobilização das comunidades para adotar práticas mais sustentáveis. Isto é, o ser humano deve cultivar a Terra para que ela produza vida, além de protegê-la para que continue íntegra e capaz de sustentar as gerações futuras.

A Declaração The Jewish Environmental and Energy Imperative, assinada por 50 líderes judeus de diferentes correntes religiosas e orientações políticas, estabeleceu como meta reduzir as emissões de gases de efeito estufa da comunidade judaica em 83% até 2050, tomando como referência os níveis de 2005. Essa meta acompanhava o objetivo nacional anunciado pelo ex-presidente estadunidense Barack Obama durante a Conferência do Clima de Copenhague (COP15). 

O judaísmo possui relação histórica e espiritual profundamente vinculada à natureza, uma vez que se desenvolveu no contexto de uma sociedade agrária e preserva em muitas de suas festividades a celebração dos ciclos da terra e da colheita. Quiçá por tal razão, o ativismo climático judaico é apresentado como extensão do compromisso histórico da tradição com a justiça social. Em especial nas correntes Reformista e Reconstrucionista, a proteção do meio ambiente é entendida como manifestação da ética profética da Torá, que relaciona o cuidado da criação à promoção da justiça e da dignidade humana. Além do cuidado com a criação, o judaísmo enfatiza que a resposta à crise climática deve ser orientada pela justiça. A Torá ordena: “Justiça, justiça perseguirás” (Deuteronômio 16:20).

O que o Judaísmo propõe como resposta?

“Deus não criou o mundo para ser um caos; Deus o criou para ser habitado.” – Isaías 45:18.

  1. Exercer a responsabilidade de guardião da criação (Shomrei Adamah)
  • Reconhecer que a Terra pertence a Deus e foi confiada à humanidade para ser cultivada e preservada.
  • Administrar os recursos naturais com responsabilidade, pensando nas gerações presentes e futuras.
  • Compreender que proteger a criação é parte da aliança (Brit) entre Deus e a humanidade.

  1. Não destruir nem desperdiçar (Bal Tashchit)
  • Evitar o desperdício de alimentos, água, energia e demais recursos naturais.
    Reduzir práticas que provoquem degradação ambiental, poluição e destruição dos ecossistemas.
  • Adotar estilos de vida mais simples e responsáveis no uso dos bens da criação

  1. Promover justiça e proteger os vulneráveis (Tzedek)
  • Buscar respostas justas para a crise climática, priorizando os mais vulneráveis.
  • Reconhecer que cuidar da criação também significa promover a dignidade humana e o bem comum.
  • Assumir responsabilidades proporcionais pelos impactos ambientais.

  1. Reparar o mundo (Tikkun Olam)
  • Contribuir para restaurar a criação por meio de ações individuais e coletivas.
  • Promover sustentabilidade, paz e responsabilidade social como expressão da fé.
  • Transformar valores religiosos em práticas concretas de proteção ambiental.

  1. Preservar a vida (Pikuach Nefesh)
  • Priorizar a proteção da vida humana diante das ameaças ambientais.
  • Compreender que enfrentar as mudanças climáticas é também proteger a saúde e a segurança das pessoas.
  • Tomar decisões que preservem um planeta habitável para as futuras gerações.

  1. Fortalecer a responsabilidade comunitária (Kehillah)
  • Mobilizar famílias, sinagogas, comunidades judaicas e autoridades políticas e corporativas para o cuidado da criação.
  • Incentivar educação ambiental, eficiência energética e práticas sustentáveis nas instituições judaicas.
  • Promover a cooperação entre comunidades em favor da proteção do planeta.

Cristianismo

“Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam“ – Salmo 24:1.

O cristianismo é uma das três religiões abraâmicas do mundo contemporâneo. Sendo, portanto, tradição religiosa monoteísta centrada na pessoa de Jesus de Nazaré, cuja vida, ensinamentos, morte e ressurreição constituem o fundamento da fé. 

Para os cristãos, Jesus é visto como mais do que uma figura histórica, ele é a verdade feita carne, por meio da qual deus se revela e atua na história planetária. Além da doutrina espiritual-ética estruturada, o cristianismo também é uma tradição cultural e histórica. Ao longo de mais de dois milênios, a fé cristã deu origem a valores, instituições, formas de organização social, expressões artísticas, práticas religiosas e modos de vida que foram transmitidos entre gerações. A principal expressão dessa tradição é a Igreja, entendida como a comunidade dos fiéis responsável por preservar, interpretar e transmitir os ensinamentos cristãos. Nessa seara, conquanto compartilhem mesma base doutrinária, o cristianismo apresenta imensa diversidade interna, refletida nas inúmeras igrejas, denominações e tradições existentes. 

Os três principais ramos do cristianismo são: a.)  Igreja Católica Apostólica Romana; b.) as Igrejas Ortodoxas; e c.) as Igrejas Protestantes, as quais compartilham a fé em Jesus de Nazaré, mas diferem em aspectos doutrinários, litúrgicos e de organização eclesiástica. Ainda, há os Mórmons; os Espíritas Kardecistas; a Umbanda8; o Rosacrucianismo; as Testemunhas de Jeová; os Adventistas e inúmeras outras doutrinas oriundas das ricas enquanto simples passagens inseridas no livro central dessa tradição religiosa; a Bíblia. Apesar das diferenças litúrgicas e organizacionais, todas reconhecem Jesus de Nazaré como o elemento central que confere direcionamento ao cristianismo.

Aspecto essencial dessa tradição religiosa é a doutrina da redenção. O cristianismo ensina que a humanidade encontra-se afastada de deus em razão do ḥaṭāʾ (pecado; paixões carnais; inferiores ou da matéria) e necessita de reconciliação com seu criador. À época de sua vida, Jesus pregava que o caminho humano à felicidade é pavimentado pelo amor incondicional ao ser humano e a todas as criaturas; pelo auxílio à pobreza; pelo perdão dos algozes; pelo afeto aos deliquentes e pela compreensão fraterna dos que ainda estavam desviantes, incorrendo no ḥaṭāʾ. A mensagem da redenção da própria felicidade por intermédio da reforma íntima constitui um dos pilares da fé cristã.

De maneira sumária, o ḥaṭāʾ pode ser compreendido como qualquer pensamento, ação ou omissão que contrarie as recomendações divinas à verdade e à felicidade, expressas, entre outros ensinamentos, nos Dez Mandamentos9.

No Novo Testamento, Jesus de Nazaré resumiria esses mandamentos em dois princípios maiores, os quais sintetizam a vida cristã. Os quais são: amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo. Esses princípios fundamentam valores como a compaixão, a justiça, o perdão, a solidariedade e a dignidade da pessoa humana.

No que diz respeito à mudança do clima, a reflexão teológica cristã sobre a mudança do clima fundamenta-se em diversos princípios bíblicos. A criação é compreendida como uma obra boa e valiosa de Deus (Gênesis 1), confiada à humanidade para ser governada com responsabilidade, proteção e preservação, e não para exploração predatória. Ao longo dos evangelhos a aliança divina estende-se não apenas aos seres humanos, mas a toda a criação (Gênesis 9), enquanto textos como o Salmo 104 e Romanos 8 apresentam a natureza como participante do plano do Deus. A crise climática é frequentemente interpretada, nas bases acima descritas, como consequência do consumo excessivo, da exploração desmedida dos recursos naturais e da dependência dos combustíveis fósseis, configurando uma expressão contemporânea do pecado humano.

A teóloga Rebecca Copeland argumenta que a Bíblia não trata apenas da salvação humana, mas de toda a criação, convidando os cristãos a reconhecerem o valor intrínseco dos animais, das plantas e dos ecossistemas. Em sua interpretação, passagens como o convite de Jesus para “olhar as aves do céu” (Mt 6:26) e a afirmação de que Deus amou o “cosmos” (Jo 3:16) revelam que a criação inteira participa do cuidado divino. Copeland sustenta que diversos textos bíblicos refletem experiências concretas de degradação ambiental e que a preocupação ecológica está profundamente ligada a temas tradicionais da fé cristã, como a fome, a pobreza, a saúde e a justiça. Segundo essa perspectiva, proteger a criação não constitui uma pauta secundária, mas uma expressão do amor ao próximo, da responsabilidade moral confiada à humanidade e da missão cristã de promover a reconciliação entre Deus, as pessoas e toda a criação.

Um estudo nacional realizado nos Estados Unidos com cerca de 1.600 líderes religiosos cristãos, entretanto, constatou que quase 90% reconhecem que as mudanças climáticas são causadas pela ação humana. Apesar desse elevado consenso, aproximadamente metade nunca abordou o tema com suas congregações. A pesquisa também revelou que número relevante de fiéis cristãos se equivocam, ao negar o consenso científico da origem humana das mudanças climáticas. Quando informados sobre o amplo consenso existente entre as lideranças cristãs, os participantes passaram a considerar a ação climática mais compatível com os valores de suas igrejas, demonstraram maior disposição para discutir o tema em suas comunidades e maior apoio a políticas de enfrentamento da crise climática. Os resultados indicam que líderes religiosos exercem papel relevante na formação da consciência ambiental de seus fiéis cristãos e podem impulsionar ações concretas em defesa da criação ao comunicar claramente suas convicções sobre a mudança do clima.

No âmbito institucional, uma das iniciativas cristãs mais influentes sobre a questão ambiental é a encíclica Laudato Si’: Sobre o Cuidado da Casa Comum (2015), de Papa Francisco (papado de 2013 a 2025). O documento afirma que a crise climática, a perda da biodiversidade, a poluição e a desigualdade social são dimensões de uma mesma crise socioambiental e propõe uma ecologia integral, baseada na conversão ecológica, na justiça climática, na redução do consumismo, na transição para modelos sustentáveis de desenvolvimento e na proteção dos mais vulneráveis, reconhecendo o cuidado da criação como parte integrante da missão cristã.

Diversas lideranças cristãs também têm desempenhado papel relevante na mobilização climática. O arcebispo anglicano Desmond Tutu defendeu que a mudança do clima constitui uma das maiores questões morais do nosso tempo, comparando a necessidade de superar os combustíveis fósseis ao movimento internacional contra o apartheid e conclamando governos, empresas e investidores a promoverem a descarbonização da economia. No campo protestante e evangélico, diferentes organizações vêm fortalecendo a chamada teologia da criação (Creation Care), segundo a qual cuidar do meio ambiente constitui um dever espiritual decorrente da responsabilidade confiada por Deus à humanidade. Redes como a Evangelical Environmental Network e diversas igrejas nacionais promovem ações de educação ambiental, eficiência energética, restauração de ecossistemas e defesa de políticas públicas compatíveis com a proteção da criação.

No Espiritismo Kardecista, embora a mudança do clima não ocupe posição central na codificação de Allan Kardec, resta explicitado no livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, que “a natureza é um conjunto harmonioso que Deus nos deu para nossa habitação e que cabe ao homem conservar e respeitar”. Em adendo, no livro “A Caminho da Luz”, Emmanuel (guia espiritual de Chico Xavier), descreve que: “a humanidade já sofreu grandes transformações em razão de sua conduta irresponsável para com a natureza, e os desastres ecológicos são reflexos diretos dessa negligência”. 

Para os espíritas, no que concerne à Lei de Conservação, presente em O Livro dos Espíritos (questões 702 e 703), afirma-se que os recursos naturais foram concedidos por Deus para a manutenção da vida e devem ser utilizados com equilíbrio, sem abuso ou desperdício. Adende-se a questão 705.

“705. Por que nem sempre a terra produz bastante para fornecer ao homem o necessário?

É que, ingrato, o homem [ser humano] a despreza! Ela, no entanto, é excelente mãe. Muitas vezes, também, ele acusa a Natureza do que só é resultado da sua imperícia ou da sua imprevidência. A terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ela emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário. Olha o árabe no deserto. Acha sempre de que viver, porque não cria para si necessidades factícias. Desde que haja desperdiçado a metade dos produtos em satisfazer a fantasias, que motivos tem o homem para se espantar de nada encontrar no dia seguinte e para se queixar de estar desprovido de tudo, quando chegam os dias de penúria? Em verdade vos digo, imprevidente não é a Natureza, é o homem, que não sabe regrar o seu viver.” – O Livro dos Espíritos, questão 705 (Allan Kardec, 1857).
(Destaque dos especialistas do Instituto Talanoa).

Sob essas múltiplas perspectivas, a degradação da natureza decorre do uso egoísta dos recursos da Terra, cabendo ao ser humano adotar hábitos de consumo frugal, evitar o desperdício, preservar todas as formas de vida por meio da redução do consumo de produtos de origem animal e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa por meio do trabalho comunitário. 

O que o Cristianismo propõe como resposta?

“O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. (…) A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. ”
Papa Francisco, 2015.

“O fato de que essa sujeira esteja sendo criada agora, quando a relação entre as emissões de carbono e o aquecimento global é tão evidente, reflete negligência e ganância.”
Arcebispo Prostestante Desmond Tutu, 2014.

1. Exercer a responsabilidade de cuidar da criação

  • Reconhecer que a Terra é uma criação de Deus, dotada de valor próprio, e que a humanidade recebeu a responsabilidade de cultivá-la e protegê-la.
  • Compreender o domínio humano sobre a natureza não como autorização para exploração predatória, mas como um chamado ao cuidado, à preservação e ao uso responsável dos recursos naturais.
  • Reconhecer que a degradação ambiental representa uma falha ética no dever humano de proteger a criação confiada por Deus.

     

2. Superar o consumismo e o desperdício (Simplicidade Cristã)

  • Reavaliar estilos de vida baseados no excesso, no consumo ilimitado e na exploração irresponsável dos bens naturais.
  • Reduzir o desperdício de alimentos, água, energia e recursos da Terra, reconhecendo que a abundância não deve ser transformada em acumulação egoísta.
  • Promover hábitos de vida mais simples, conscientes e compatíveis com o equilíbrio da criação.

     

3. Amar o próximo e proteger os vulneráveis (Caridade e Justiça Climática)

  • Reconhecer que a crise climática afeta de maneira desproporcional os mais pobres, as comunidades vulneráveis e as futuras gerações.
  • Compreender que cuidar do planeta é uma expressão concreta do mandamento de Jesus: “amar o próximo como a si mesmo”.
  • Defender políticas e práticas que promovam justiça ambiental, solidariedade e dignidade para todas as pessoas.

     

4. Promover a reconciliação entre Deus, a humanidade e a criação

  • Compreender que a salvação cristã não se limita ao indivíduo, mas envolve toda a criação, que aguarda restauração e renovação.
  • Transformar a fé em ações concretas de preservação ambiental, restauração dos ecossistemas e construção de sociedades sustentáveis.

     

5. Preservar a vida como expressão do amor divino (Defesa da Criação)

  • Reconhecer que toda forma de vida possui valor enquanto parte da obra criadora de Deus.
  • Proteger os ecossistemas, os animais e os recursos naturais como expressão de respeito pela criação divina.
  • Enfrentar a mudança do clima como uma responsabilidade moral diante das ameaças à vida humana e ao equilíbrio da natureza.

     

6. Fortalecer a ação comunitária e o testemunho cristão (Igreja e Comunidade)

  • Mobilizar igrejas, comunidades de fé e lideranças religiosas para promover a consciência ecológica e a responsabilidade ambiental.
  • Incentivar práticas sustentáveis nas instituições cristãs, como eficiência energética, redução de resíduos e proteção dos ecossistemas locais.
  • Utilizar a influência moral das comunidades cristãs para defender respostas coletivas à crise climática, unindo fé, ciência, justiça e cuidado com a Casa Comum.

Ateísmo e Agnosticismo

Em pesquisando sobre a fé religiosa e sua relação com a mudança do clima, incumbe-se prestar respeito aos que com ela não se alinham.

O ateísmo e o agnosticismo não constituem sistemas doutrinários unificados, mas perspectivas filosóficas distintas acerca da existência de divindades. O ateísmo caracteriza-se pela ausência ou rejeição da crença em deuses, enquanto o agnosticismo sustenta que a existência ou inexistência de uma divindade é desconhecida ou, possivelmente, impossível de ser provada pela baixa capacidade cerebral humana diante da complexidade sideral. Ambos abrangem uma ampla diversidade de correntes filosóficas, éticas e políticas, não havendo uma autoridade central ou um conjunto de crenças obrigatórias compartilhadas por todos os seus adeptos.

A ausência de fundamentos religiosos, contudo, não implica ausência de princípios éticos. Muitos ateus e agnósticos fundamentam suas posições morais em perspectivas humanistas, racionalistas, científicas ou utilitaristas, valorizando a dignidade humana, os direitos fundamentais, a justiça social, a responsabilidade intergeracional e a tomada de decisões baseada em evidências científicas. A proteção do meio ambiente é frequentemente compreendida como um dever ético decorrente da dependência humana dos ecossistemas e da necessidade de preservar as condições que sustentam a vida.

As mudanças climáticas são, em geral, tratadas por essas perspectivas como um problema científico, ético e político, cuja resposta deve basear-se no conhecimento produzido pela ciência e em princípios de responsabilidade coletiva. A aceitação do consenso científico sobre o aquecimento global antropogênico leva muitos grupos humanistas e organizações seculares a defender políticas de descarbonização, conservação da biodiversidade, transição energética para longe dos combustíveis fósseis, consumo sustentável e cooperação internacional para proteger as gerações presentes e futuras.

Há ampla convergência em torno da ideia de que a humanidade possui responsabilidade direta sobre os impactos que causa ao planeta e, portanto, deve utilizar o conhecimento científico, a inovação tecnológica e a cooperação social para enfrentar a crise climática de forma justa, eficaz e baseada em evidências. De maneira sumária, indivíduos ateus e agnósticos fundamentam suas posições éticas em princípios seculares e no conhecimento científico, as quais são: 

  1. Zerar o desmatamento e proteger os ecossistemas: A ciência indica que interromper o desmatamento até 2030, restaurar áreas degradadas e conservar ecossistemas naturais são ações essenciais para manter a meta de 1,5°C ao alcance. Além de sequestrar carbono, florestas preservadas regulam ciclos hidrológicos, protegem a biodiversidade e aumentam a resiliência das sociedades aos impactos climáticos.

  2. Abandonar os combustíveis fósseis: O consenso científico é que a principal causa do aquecimento global atual é a emissão de gases de efeito estufa provenientes da queima de carvão, petróleo e gás natural. Para estabilizar o clima, não basta reduzir emissões; é necessário uma transição rápida para sistemas energéticos baseados em fontes renováveis, eficiência energética e eletrificação limpa para chegar a emissões líquidas zero por volta de meados do século

  3. Adaptar-se aos impactos inevitáveis das mudanças climáticas: Parte dos impactos das mudanças climáticas já é inevitável devido ao aquecimento acumulado provocado pelas emissões passadas. Por isso, além de reduzir emissões, é necessário fortalecer a capacidade de adaptação das sociedades, dos ecossistemas e das economias aos efeitos já observados, como ondas de calor, secas, enchentes, elevação do nível do mar e eventos climáticos extremos. Entretanto, o IPCC alerta que os limites da adaptação serão cada vez mais restritos à medida que o aquecimento global aumenta, reforçando que a redução rápida das emissões continua sendo essencial para evitar impactos mais severos e irreversíveis. 

Como uma visão de mundo não religiosa responde à crise climática?

1. Valorizar a razão, a ciência e o conhecimento baseado em evidências

  • Reconhecer a ciência como principal instrumento para compreender as causas e consequências das mudanças climáticas.
  • Basear decisões individuais e coletivas nas melhores evidências disponíveis sobre o funcionamento do sistema terrestre.
  • Promover o pensamento crítico, a educação científica e a busca por soluções fundamentadas em conhecimento verificável.


2. Preservar as condições que sustentam a vida humana e os ecossistemas

  • Reconhecer que a humanidade depende dos sistemas naturais para sua sobrevivência e bem-estar.

  • Proteger a biodiversidade, os recursos hídricos, os solos e os ecossistemas que mantêm o equilíbrio ambiental.


3. Assumir responsabilidade intergeracional

  • Reconhecer que as escolhas feitas no presente determinam as condições de vida das futuras gerações.

  • Evitar transferir custos ambientais, sociais e econômicos para aqueles que ainda não nasceram.

  • Compreender que a proteção da natureza é uma responsabilidade ética decorrente da interdependência entre seres humanos e planeta.

  • Adotar práticas de produção, consumo e desenvolvimento compatíveis com os limites ecológicos da Terra.


4. Promover justiça climática e solidariedade humana

  • Reconhecer que os impactos das mudanças climáticas afetam de maneira desigual diferentes povos, comunidades e grupos sociais.

  • Defender políticas climáticas que protejam populações vulneráveis e reduzam desigualdades ambientais.

  • Assumir responsabilidades proporcionais às contribuições históricas e atuais para a degradação ambiental.


5. Reduzir impactos ambientais e transformar padrões de consumo

  • Diminuir o desperdício de recursos naturais, energia e materiais por meio de escolhas mais sustentáveis.

  • Promover a transição para sistemas econômicos baseados em eficiência, energias renováveis e menor impacto ambiental.

  • Reconhecer que estilos de vida responsáveis contribuem para preservar as condições que permitem a vida no planeta.


6. Fortalecer a cooperação coletiva e global

  • Reconhecer que a crise climática exige respostas coordenadas entre indivíduos, corporações, governos, e organizações internacionais.

  • Promover educação ambiental, inovação tecnológica e políticas públicas baseadas em evidências.

  • Construir soluções coletivas para proteger o planeta e garantir um futuro sustentável para a humanidade.

Várias tradições, uma responsabilidade diante da Casa Comum 

Embora apresentem fundamentos teológicos, filosóficos e culturais distintos, as diferentes tradições analisadas convergem em um ponto essencial. A crise climática revela ruptura na relação entre a humanidade e o mundo que a sustenta. Seja compreendendo a Terra como criação divina, manifestação do sagrado, rede de interdependência da vida ou sistema natural indispensável à sobrevivência  material humana, todas as perspectivas reconhecem que o atual modelo de exploração ilimitada dos recursos naturais produz sofrimento, desequilíbrio e ameaça às gerações presentes e futuras.

No budismo, a crise ecológica é interpretada como consequência do apego, da ignorância e de padrões coletivos de consumo que ampliam o sofrimento. No islamismo, ela representa uma falha no dever humano de atuar como khalifa, guardião responsável da criação confiada por Alá. No hinduísmo, a degradação ambiental expressa a ruptura do dharma e do equilíbrio entre todos os seres, submetendo a humanidade às consequências do karma de suas próprias escolhas. No judaísmo, o dano ambiental viola a responsabilidade de Shomrei Adamah, os guardiões da Terra, e rompe a aliança estabelecida entre Deus, humanidade e criação. No cristianismo, a destruição da natureza contradiz o chamado ao cuidado da criação e ao amor ao próximo, especialmente aos mais vulneráveis. Já nas perspectivas ateias ou agnósticas, a defesa ambiental emerge da razão pura, da responsabilidade intergeracional e do reconhecimento da dependência humana dos sistemas naturais.

Apesar das diferenças de linguagem e fundamentação, há uma notável convergência ética entre essas visões. A qual pode ser enumerada: 1.) a rejeição ao desperdício e ao consumismo excessivo; 2.) à exploração predatória; e 3.) à ideia de que a natureza existe apenas como instrumento para satisfação dos desejos humanos. Em seu lugar, todas apresentam valores como moderação, responsabilidade, compaixão, justiça, solidariedade e cuidado com as demais formas de vida. Outro elemento comum é a compreensão de que a resposta à crise climática não pode ser exclusivamente tecnológica ou econômica. Inovação, ciência e políticas públicas são indispensáveis, todavia as tradições reconhecem que a crise ambiental possui também uma dimensão moral. A transição para uma sociedade de baixo carbono exigirá, portanto, transformação de comportamentos, instituições e valores individuais, bem como coletivos.

Em última análise, independentemente da crença, ou mesmo na ausência dela, a proteção do clima, dos ecossistemas e animais não constitui mera necessidade política ou científica, mas expressão profunda da busca humana por paz, justiça, harmonia e continuidade da existência. Em um planeta baseado na fé, instrumento compartilhado do amor e união com o divino, a defesa da vida é o ponto de encontro e a responsabilidade coletiva diante da única casa que todos compartilhamos.

1 Ao longo desta publicação, optou-se pelo uso da forma “deus”, com inicial minúscula, em conformidade com as convenções ortográficas e gramaticais adotadas na redação técnica e acadêmica em língua portuguesa. Essa escolha possui caráter exclusivamente editorial e não representa qualquer juízo de valor ou desrespeito às crenças religiosas. Nas citações diretas, documentos oficiais e transcrições de textos sagrados, preserva-se a grafia original empregada por cada tradição religiosa, inclusive o uso de “Deus” com inicial maiúscula quando assim constar na fonte.

2 O budismo não constitui uma tradição homogênea, mas um conjunto amplo de escolas, linhagens e comunidades de prática. Entre suas principais tradições, encontram-se o Theravāda, o Mahāyāna e o Vajrayāna, das quais derivam ou se desenvolvem diversas correntes, como o Zen (Chan), a Terra Pura, a tradição Nichiren, o budismo Tibetano e outras expressões regionais. Como ocorre com outras tradições religiosas e filosóficas, sua riqueza doutrinária, ética e prática não se encontra codificada em um único texto. Diante dessa pluralidade, esta publicação buscou de forma minuciosa os princípios éticos e morais mais abrangentes e amplamente compartilhados entre as diferentes escolas, privilegiando seus elementos de convergência em detrimento dos pontos de distensão, os quais orientam a compreensão da relação entre os seres humanos, todos os seres sencientes, a natureza e os desafios impostos pela mudança do clima.

3 O islamismo não possui uma liderança unificada nem uma estrutura organizacional centralizada. Os muçulmanos pertencem a diferentes grupos étnicos e religiosos, que vivenciam e interpretam a fé islâmica de maneiras diversas. As duas principais correntes do islamismo são o sunismo e o xiismo. Além dessas duas tradições predominantes, existem correntes menores, como a Ahmadiyya e a Mahdavia, que não se enquadram no sunismo ou no xiismo. Ainda, fazemos conhecer o sufismo. Em alguns contextos, as identificações das doutrinas acima descritas como parte do islamismo é objeto de debate entre diferentes comunidades e autoridades religiosas. Prestando respeito à essa pluralidade, esta publicação buscou de forma minuciosa os princípios éticos e morais mais abrangentes e amplamente compartilhados entre os praticantes desta tradição religiosa perante à mudança do clima.

4 Cabe ressaltar, contudo, que parte da literatura acadêmica observa que algumas interpretações ambientalistas do Alcorão enfatizam determinados versículos em diálogo com conceitos contemporâneos de sustentabilidade, sem necessariamente refletir todas as correntes interpretativas do pensamento islâmico. Assim, embora exista um crescente consenso sobre a importância da proteção da criação, as fundamentações teológicas específicas podem variar entre as diferentes escolas e tradições do Islã.

5 Os especialistas do Instituto Talanoa consideram oportuno admoestar que o Jainismo é uma tradição religiosa indiana antiga, surgida no mesmo contexto cultural do Hinduísmo, compartilhando conceitos como karma, reencarnação (samsara), libertação espiritual (moksha) e a busca pelo autocontrole e pela purificação da alma. É tradição independente, com seus próprios mestres (Tirthankaras) e ensinamentos; importante denotar que o Jainismo desenvolveu uma visão particularmente rigorosa de não violência (ahimsa), defendendo o respeito absoluto por todas as formas de vida. Em interpretações hiper-restritivas, seus fiéis mantém a boca selada com vistas a evitar matar bactérias. A ênfase na interdependência dos seres vivos e na moderação do consumo influenciou também correntes do pensamento hindu, especialmente aquelas associadas à ética, à compaixão e à relação harmoniosa entre humanidade e natureza.

6 O judaísmo é uma tradição religiosa, cultural e histórica do povo judeu, enquanto o sionismo é um movimento político moderno surgido no final do século XIX que defende a autodeterminação nacional do povo judeu, inicialmente por meio da criação e, posteriormente, da manutenção de um Estado judeu. Os conceitos não são sinônimos. Há, entre os próprios judeus, rica variedade de posições políticas sobre o sionismo e sobre as políticas do Estado de Israel. Nesse sentido, o Instituto Talanoa defende que o conflito israelense-palestino deve ser compreendido em sua complexidade histórica e política, buscando uma paz baseada em cessar-fogo prolongado, uma autoridade palestina legítimada com capacidade de governo soberano, o direito de defesa legítima proporcional de Israel, o fim das ocupações ilegais em territórios palestinos e uma solução de dois Estados baseada nas fronteiras de 1967, garantindo segurança e autodeterminação para ambos os povos, bem como o acesso aberto a Jerusalém associado à ideia de compartilhamento ou com caráter internacional.

7 Embora o judaísmo disponha de sólidos fundamentos teológicos para o cuidado da criação, pesquisas recentes indicam que a percepção sobre as mudanças climáticas varia significativamente entre suas diferentes correntes. As maiores diferenças ocorrem entre as denominações: judeus não ortodoxos demonstram maior preocupação com a crise climática, enquanto membros de comunidades ortodoxas, especialmente haredi, apresentam níveis mais elevados de ceticismo ou menor engajamento. Pode-se concluir que o judaísmo contemporâneo ainda enfrenta o desafio de integrar de forma mais consistente sua tradição ética às respostas à crise climática.

8 Religião afro-brasileira surgida formalmente no início do século XX a qual combina elementos do cristianismo, de outras religiões afro-brasileiras, do espiritismo kardecista e de algumas tradições indígenas. Nela, Jesus de Nazaré é venerado como guia espiritual supremo, ao passo em que o culto envolve outras entidades espirituais, como caboclos, pretos-velhos e crianças. Há amplo debate teológico e acadêmico acerca da classificação da Umbanda em relação ao cristianismo. Malgrado reconhecida como religião sincrética alguns praticantes enfatizam sua identidade própria, enquanto outros destacam sua forte matriz cristã. Seu local de classificação formal no repositório das religiões mundiais não goza de  consenso contemporâneo.

9 Os Dez Mandamentos têm origem no judaísmo, onde são conhecidos como o Decálogo (Aseret haDibrot, “Dez Palavras” ou “Dez Enunciados”) e constituem parte central da Torá. O cristianismo herdou esses mandamentos da tradição judaica e os incorporou à sua doutrina moral. Faz-se saber que mesmo havendo pequenas diferenças na forma de numerá-los entre judeus, católicos, ortodoxos e protestantes, seu conteúdo essencialíssimo permanece comum.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).