(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
Alguns assuntos relevantes da agenda climática atravessaram o primeiro semestre sem desfecho e seguem nesta segunda metade do ano sob expectativa em meio a um período eleitoral – historicamente desfavorável a grandes avanços em políticas públicas. Neste Boletim Semanal, lembramos cinco deles:
- Mapa do Caminho para redução da dependência de combustíveis fósseis no Brasil
Em dezembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ordenou que os ministérios de Minas e Energia (MME), Fazenda (MF), Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e a Casa Civil elaborassem, em 60 dias, proposta de resolução ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), estabelecendo diretrizes para elaboração do mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada, com vistas à redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis. O prazo venceu em fevereiro e nenhum conteúdo sobre essa proposta foi divulgado até o momento. As Câmaras de Participação Social – da qual a Talanoa faz parte, de Assessoramento Científico, e de Articulação Interfederativa do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) requisitaram à Casa Civil em maio informações. O ofício foi respondido nesta semana pela secretaria-executiva do próprio CIM. O documento informa que as “tratativas” estão sendo conduzidas pelo Governo Federal, com base no despacho presidencial de dezembro (citado acima), e que, nesta etapa, “esforços concentram-se na elaboração de propostas de diretrizes que orientarão a elaboração do Mapa do Caminho no âmbito do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), e não na elaboração do documento propriamente dito” (o Mapa do Caminho). A resposta traz ainda que “a minuta de resolução ainda demanda consolidação técnica e pactuação de alto nível entre os Ministérios” (MME, MF, MMA e Casa Civil). Ou seja, seguimos aqui sem ter ideia do caminho.
- Roadmaps, os Mapas do Caminho para zerar o desmatamento e para longe dos combustíveis fósseis: “mapa do caminho” se tornou uma das expressões mais comuns nas conversas sobre a agenda climática desde a COP30, em Belém, com dois roteiros emergindo para a Presidência brasileira da conferência dar forma neste ano. No primeiro semestre, foram colhidas contribuições dos países e atores relevantes como sociedade civil, academia, e iniciativa privada, para os dois mapas: Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030 e Mapa do Caminho Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis. Os resultados do trabalho de consolidação das sugestões (formalmente, submissões) serão divulgados no segundo semestre.
- Atualização da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC): o anteprojeto de revisão da Lei nº 12.187/2009 passou por consulta pública no ano passado e o trabalho de revisão pelo governo deveria ser concluído na primeira quinzena deste mês. É incerto se haverá condições para uma tramitação favorável no Congresso ainda nesta Legislatura.
- Redata e a garantia de fontes renováveis: A Medida Provisória do programa nacional para incentivo de datacenters no Brasil condicionava os benefícios ao uso de energia renovável para alimentar essas infraestruturas e caducou em fevereiro. O governo chegou a apresentar um projeto de lei com o mesmo conteúdo, que passou na Câmara, mas está parado no Senado. Há pressão para que a exclusividade das fontes renováveis seja retirada, o que traria prejuízos enormes do ponto de vista climático, visto que esses centros dados têm demandas energéticas altíssimas – além da grande necessidade de água para resfriamento.
- Marco regulatório sobre minerais críticos: A instituição da Política Nacional sobre Minerais Críticos e Estratégicos é uma das prioridades do Governo Federal – e também do setor privado e de diferentes grupos no Congresso. Com o tema no centro das discussões sobre transição energética e revolução tecnológica da inteligência artificial, as pressões para moldar o marco regulatório para o setor vêm de todos os lados. O primeiro semestre no Congresso terminou com uma indefinição sobre qual dos Projetos de Lei sobre o tema avançaria: o PL 2.780/2024, de autoria da Câmara (aprovado pelos deputados e aguardando votação no Senado), ou o PL 4443/2025, de autoria do Senado (tramitando ainda na Casa de origem, em caráter terminativo em comissão). Ambos são propostas de incentivo ao setor, sem uma estratégia que contemple as salvaguardas socioambientais e climáticas necessárias. No PL do Senado, há mais pontos críticos, como indicamos no último Boletim Semanal.
GRÁFICO DA SEMANA
O Japão atualizou sua escala de alerta para o calor neste ano, incluindo a classificação “dia cruelmente quente” para quando as temperaturas ultrapassam os 40°C. Nesta semana, a nova categoria foi acionada pela primeira vez para as cidades de Gujo e Tajimi, na província de Gifu, e de Toyota, em Aichi, na região central do país. As autoridades japonesas relataram que ao menos 14 pessoas morreram no país por causa do calor e cerca de 11 mil foram hospitalizadas nos últimos dias.
O Gráfico da Semana mostra a escala japonesa para as ondas de calor.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
O Tá Lá no Gráfico desta semana elenca algumas iniciativas de preparação no Brasil e no mundo, e lista recomendações para o enfrentamento coletivo do que pode ser o El Niño mais forte do século.
Confira também nossa página com todos os conteúdos da Política por Inteiro sobre o El Niño.
ABC DO CLIMA
saúde mental climática: é um campo multidisciplinar que integra abordagens da ciência climática, da psiquiatria e da psicologia, para subsidiar políticas públicas e ações que contribuam para reduzir os efeitos negativos da mudança do clima na saúde mental. No Brasil, tramita no Congresso Nacional, um Projeto de Lei que institui Política Nacional de Saúde Mental Climática. Nele, o termo “saúde mental climática” é assim definido: “campo de políticas públicas voltado à compreensão, prevenção, mitigação e tratamento dos impactos emocionais associados aos riscos e desastres climáticos”. A proposta também traz a definição de trauma coletivo climático: “conjunto de sofrimentos e repercussões emocionais, individuais e comunitárias, decorrentes de perdas materiais, simbólicas, territoriais e relacionais causadas por desastres”.
Fontes: Nature Mental Health e PL 6.151/2025
Primeiras cheias no Sul
A chegada do El Niño no Brasil trouxe as primeiras cheias dos rios gaúchos acima dos níveis de inundação, especialmente no Taquari e no Uruguai. O rio Guaíba, por sua vez, está em elevação, mas ainda sem transbordamento. Em anos de El Niño anteriores, como em 2023, o Sul do país registrou volume de chuvas acima das médias históricas. Até sexta-feira (24), mais de 206 municípios haviam sido afetados pelas fortes chuvas. Segundo a Defesa Civil, a situação era de emergência em 17 e havia risco alto de inundação na região metropolitana de Porto Alegre, principalmente nas ilhas da cidade. Mais de mil pessoas estão desabrigadas.
Incêndios no sul da Europa
Depois do “domo de calor” que assolou a Europa em junho, agora os incêndios florestais se alastram em diversas localidades da Espanha, França e Itália. Na Espanha, os graves incêndios que ocorreram na região de Madri e Ávila fizeram com que o governo declarasse estado de emergência nestas regiões. O governo francês, por sua vez, acionou o mecanismo de proteção civil da União Europeia (UE), que possibilita apoio de outros países do bloco para combater os incêndios florestais do sudoeste da França.
O Plano de Ação para Eletrificação da União Europeia e o Brasil
A Comissão Europeia apresentou, na última semana, seu Plano de Ação para Eletrificação, acompanhado de uma ampla reforma do Sistema Europeu de Comércio de Emissões (EU ETS), que citamos no Boletim Semanal anterior. O objetivo é transformar a União Europeia (UE) no primeiro continente “eletroalimentado” (electro-powered continent), dobrando a participação da eletricidade para 46% da demanda final de energia até 2040, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e fortalecendo a competitividade industrial do bloco. Embora voltado à UE, o anúncio possui implicações relevantes para o Brasil. Leia nossa análise no Blog da Política por Inteiro.
Texto 4
Texto.
Texto 5
Texto.
Texto 6
Texto.
Texto
Texto.
1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.
2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO