O que o Plano de Ação para Eletrificação da União Europeia significa ao Brasil?

A Comissão Europeia apresentou, na última semana, seu Plano de Ação para Eletrificação, acompanhado de uma ampla reforma do Sistema Europeu de Comércio de Emissões (EU ETS). O objetivo é transformar a União Europeia (UE) no primeiro continente “eletroalimentado” (electro-powered continent), dobrando a participação da eletricidade para 46% da demanda final de energia até 2040, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e fortalecendo a competitividade industrial do bloco. A meta está em acordo com a melhor ciência disponível sobre o futuro dos sistemas energéticos para sustentar a meta de limitar o aquecimento do planeta a até 1,5º C em relação ao período pré-industrial.

Embora voltado à UE, o anúncio possui implicações relevantes para o Brasil. Em primeiro lugar, confirma a sinalização geopolítica vista também na China de que a próxima fase da transição energética global será pela aceleração da eletrificação da demanda, especialmente nos setores industriais, de transporte e de edificações. Isso amplia a importância de cadeias produtivas associadas à eletrotecnologia, como veículos elétricos, baterias, eletrodomésticos de aquecimento e resfriamento, equipamentos para redes elétricas e sistemas de armazenamento elétrico.

Essa transformação também tende a intensificar a demanda internacional por minerais críticos essenciais para essas tecnologias, como lítio, níquel, grafite, cobre e terras raras. Não é à toa que os Estados Unidos exigiram a redução da exportação desses minerais do Brasil para a China, como cláusula de barganha na negociação das tarifas comerciais. Para o Brasil, constitui-se oportunidade estratégica, desde que o país consiga avançar além da exportação de commodities minerais e consolidar uma política industrial voltada ao processamento, beneficiamento e manufatura de produtos de maior valor agregado.

Outro elemento relevante é que o plano europeu combina metas climáticas com uma estratégia explícita de competitividade industrial. Além da reforma do mercado de carbono, Bruxelas prevê mais de €100 bilhões para apoiar a descarbonização da indústria, acelerar investimentos em tecnologias limpas e fortalecer a produção doméstica de equipamentos elétricos. A mensagem é transparente: a transição energética tornou-se também uma política de competitividade e desenvolvimento econômico, de segurança energética e de política industrial.

Esse movimento reforça a necessidade de o Brasil conectar sua abundância de energia renovável, de expansão do uso de biocombustíveis e de sua base mineral, bem como do potencial industrial, em uma estratégia integrada. O país reúne condições para se tornar um fornecedor relevante não apenas de eletricidade limpa e minerais críticos, mas também de bens industriais associados à economia da eletrificação e da bioenergia. Aproveitar essa janela dependerá de políticas que incentivem inovação, agregação de valor, desenvolvimento tecnológico e integração às cadeias globais de manufatura limpa. Sem perder de vista os desafios da própria eletrificação no Brasil, onde a eletricidade responde por cerca de 20% da demanda final de energia, abaixo da média global de 21%.

Atravessa-se um momento de crescente convergência entre a economia verde e a economia do conhecimento, o que impõe novo paradigma para as estratégias nacionais de desenvolvimento. A transição energética e a descarbonização deixam de ser apenas agendas ambientais e passam a depender crescentemente da capacidade de se apropriar, desenvolver e difundir tecnologias digitais, bioenergéticas e de baixo carbono.

A política de descarbonização evoluiu da cooperação em torno dos custos de enfrentamento das mudanças climáticas para a competição pelos benefícios da ação climática, por exemplo,  por intermédio da implementação de fontes renováveis ​​mais baratas e a garantia de um posicionamento estratégico no comércio e na produção de tecnologias verdes. Nesse contexto, países em desenvolvimento precisam evitar a armadilha da combinação entre a industrialização tardia e a desindustrialização precoce, investindo na construção de capacidades nacionais em tecnologias habilitadoras simultaneamente ao aprofundamento do uso das que gozam de estágio avançado de desenvolvimento, como os biocombustíveis. Assim, e tão somente assim, reduzem-se vulnerabilidades associadas à dependência externa de tecnologia e de combustíveis fósseis e fortalece-se a segurança energética frente às instabilidades das cadeias globais de suprimentos fósseis. Para o Brasil, os sinais de Bruxelas, tomados em consideração com os de Pequim e os de Washington, significam que a agenda climática doméstica precisa caminhar como uma política de inovação, de transformação digital e de desenvolvimento industrial, sob o risco de ficar, uma vez mais, a reboque dos dissabores dos mercados desenvolvidos.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).