Plano Safra reduz volume de crédito para a agropecuária de baixa emissão de carbono

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Com um volume de crédito recorde para médios e grandes produtores rurais, o Plano Safra 2026/2027, lançado na terça-feira, destina um volume menor de recursos para investimentos em agropecuária de baixa emissão de carbono. Embora o Plano Safra empresarial conte, nesta edição, com R$ 525,1 bilhões para custeio, comercialização e investimento, apenas R$ 6,2 bilhões (1,2% do total) são destinados às linhas de crédito RenovAgro, para práticas sustentáveis no campo.

Nesta edição, as linhas RenovAgro representam 4,4% do total de crédito destinado a investimentos e 33,4% do crédito para investimento que conta com juros equalizados pelo governo, ou seja, quando o dinheiro do contribuinte cobre a diferença entre as taxas de juros cobradas no mercado e aquelas oferecidas aos produtores (entre 8,5% e 9,5% no RenovAgro). Está prevista também a redução de até um ponto percentual na taxa de juros de custeio, sendo até 0,5 ponto percentual para produtores com Cadastro Ambiental Rural (CAR) em situação regular e até 0,5 ponto percentual adicional para aqueles que adotem práticas agropecuárias sustentáveis.

Esperava-se que 100% do crédito com juros equalizados fosse destinado à redução das emissões de gases do efeito estufa do setor de economia brasileira que mais contribui para o aquecimento global. A agropecuária responde atualmente por 33% das emissões brasileiras, sem contar com as emissões oriundas do desmatamento e que estão relacionadas com a atividade.

A preocupação com as mudanças climáticas ficou praticamente restrita ao crédito destinado à agricultura familiar. Anunciado em cerimônia diferente e com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Plano Safra da Agricultura Familiar reduziu juros para a produção agroecológica e orgânica e produtos da sociobiodiversidade. Essa parcela do Plano Safra conta, nesta edição, com R$97,3 bilhões e cerca de R$400 milhões são destinados à inclusão produtiva e adaptação climática no semiárido.

GRÁFICO DA SEMANA

O fenômeno que provoca dias seguidos de calor, com o estacionamento de uma massa de ar quente, de alta pressão, sobre uma região não é uma novidade. Mas sua intensidade, sim, decorrência das mudanças climáticas provocadas pelo ser humano. O chamado bloqueio ômega é um padrão atmosférico em que uma área de alta pressão fica presa entre duas de baixa pressão. O nome ômega vem do formato do bloqueio, que lembra a letra grega, como mostra o Gráfico da Semana.

TÁ LÁ NO GRÁFICO

Nas Reuniões Subsidiárias de Bonn, em junho (SB64), a Turquia, na Presidência da COP31, apresentou sua principal meta da Agenda de Ação: elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia dos atuais 20% para 35% até 2035. Na semana seguinte a Bonn, a campanha global Electrify Now foi lançada, na Semana de Clima de Londres. O Instituto Talanoa faz parte da iniciativa.

No Brasil, segundo o Balanço Energético Nacional (BEN, 2026), a participação da eletricidade no consumo final de energia aumentou de 17,8% para 19,7% entre 2016 e 2025. É necessário acelerar esse ritmo. Com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo (88% de renovabilidade), o país tem uma grande oportunidade de liderar esse processo, mas existem grandes desafios no caminho.

O Tá Lá no Gráfico da Semana dá um panorama da eletrificação no Brasil e no mundo.

ABC DO CLIMA

RenovAgro: Abreviação de Programa para Financiamento a Sistemas de Produção Agropecuária Sustentáveis, é a denominação da linha de crédito do Plano Safra que financia a agropecuária de baixa emissão de carbono. O RenovAgro substituiu a linha “Plano ABC” (Agricultura de Baixo Carbono) a partir da edição de 2023/2024 do Plano Safra. Ainda que o Plano ABC+ continue existindo, como política pública orientadora do setor. Os recursos dessa linha financiam a recuperação de áreas degradadas e pastagem, a recuperação de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente (APP) nas propriedades rurais privadas, além de tecnologias sustentáveis, como o plantio direto e a Integração Lavoura, Pecuária e Floresta, por exemplo. Apesar de seu potencial para reduzir uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa do país e promover a adaptação à mudança do clima, essa linha de crédito continua ocupando uma parcela marginal do volume total de recursos do Plano Safra. Na edição 2026/2027, os recursos destinados à iniciativa foram ainda reduzidos.

Lançamento do Plano Nacional de Mineração 2050

O Plano Nacional de Mineração (PNM) 2050, lançado na última quinta-feira (2), tem como uma das metas avançar de 8,3% para 12,2% a participação do Brasil na produção global de minerais críticos e estratégicos, considerados essenciais para a transição energética. Minerais como lítio, níquel e grafita são usados tanto na produção de energia renovável como em baterias.

O avanço da mineração se dá, segundo o PNM, de forma alinhada à estratégia nacional de enfrentamento às mudanças climáticas, estabelecida no Plano Clima. 

O documento destaca a importância do desenvolvimento da indústria para além da lavra dos minérios. Um ponto de atenção é a sinalização do avanço da mineração em áreas protegidas, como nas unidades de conservação e em terras indígenas, ainda que mediante “critérios” a serem definidos.

O texto aponta que a definição de critérios baseados em atividades de baixo impacto, combinada ao monitoramento contínuo e à avaliação periódica, contribui para orientar decisões técnicas e regulatórias mais consistentes. Argumenta ainda que esses critérios favorecem a realização de eventuais atividades minerárias de forma controlada, transparente e compatível com os objetivos de conservação, fortalecendo a governança ambiental e territorial e ampliando a previsibilidade e a efetividade da gestão das unidades de conservação.

Banco Mundial retira meta de financiamento climático 

O Banco Mundial anunciou que vai retirar a meta que destinava 45% de seu financiamento a projetos com “cobenefícios climáticos”. A decisão foi tomada após forte pressão dos Estados Unidos, seu maior acionista e país com poder de veto efetivo na instituição. 

A mudança ocorre apesar de o próprio banco já ter superado essa meta no último ano, quando destinou US$ 39,2 bilhões (48% de seu financiamento) a projetos com benefícios climáticos. A medida é um sinal preocupante para a arquitetura global de financiamento climático, agregando mais uma camada de incerteza sobre o papel de bancos multilaterais no cumprimento da Nova Meta Quantificada de Financiamento Climático (NCQG).  Países em desenvolvimento dependem em grande medida de bancos multilaterais para apoiar a implementação de suas metas climáticas. O recuo também acontece poucos meses após o governo Trump retirar o país da Convenção do Clima da ONU e pressionar bancos multilaterais a financiar mais projetos fósseis.

Transição energética perde fôlego pela primeira vez em mais de uma década

O mais recente Índice de Transição Energética (Energy Transition Index – ETI) revela um sinal de alerta. Pela primeira vez em mais de dez anos, a prontidão dos países para promover a transição energética apresentou retração. Embora os investimentos em tecnologias de baixo carbono continuem elevados, o relatório aponta que instabilidade política, gargalos de infraestrutura e desaceleração na inovação estão comprometendo a capacidade de acelerar a descarbonização. 

Na América Latina e Caribe, o desempenho agregado caiu 0,5%, impulsionado pela deterioração em infraestrutura elétrica, ambiente regulatório piorado e inovação em retração. Mesmo com a queda de 0,5% da taxa de renovabilidade em sua matriz elétrica, o Brasil continua liderando a região graças à elevada participação de fontes limpas em sua matriz elétrica, à consolidação do setor de biocombustíveis e à expansão da capacidade de geração solar e eólica.

Na infraestrutura, embora a capacidade global de geração de energia limpa continue crescendo em ritmo recorde, os investimentos em redes elétricas permanecem insuficientes. Atualmente, mais de 2.500 GW de projetos aguardam conexão aos sistemas de transmissão, evidenciando que a expansão e modernização das redes se tornou um dos principais gargalos da transição. 

Em um agregado planetário, a prontidão para a transição energética diminuiu em 43%, indicando que o atual momento de maior complexificação da inserção de energias renováveis nos sistemas elétricos dependerá de fortalecer políticas públicas, infraestrutura, qualificação profissional e redução de riscos para investimento.

Expansão de renováveis ainda não reduz emissões globais

Apesar da expansão acelerada da energia limpa, com investimentos globais atingindo a marca histórica de aproximadamente R$ 12,76 trilhões (valor equivalente ao PIB brasileiro), a substituição dos combustíveis fósseis continua ocorrendo de forma desigual e insuficiente para reduzir as emissões globais.

Em 2025, a geração de eletricidade a partir de fontes renováveis cresceu 9%, acima da média da década 2010-2020, e as fontes limpas superaram a geração oriunda de carvão. Entretanto, o consumo de combustíveis fósseis permaneceu elevado, impulsionado pelo aumento da demanda energética, levando as emissões globais de gases de efeito estufa a atingirem um novo recorde de 60,63 bilhões de toneladas de CO₂e.

Isto é, embora a intensidade de carbono da geração elétrica tenha diminuído, as reduções foram compensadas pelo crescimento do consumo energético, para resfriamento, majoritariamente, e pela persistência do uso de combustíveis fósseis. A conclusão é que ampliar a capacidade de geração limpa, por si só, não basta. Faz-se urgente reduzir ativamente o uso dos combustíveis fósseis, aumentar a eficiência energética e garantir que a adaptação de ambientes humanos às mudanças climáticas seja acelerada, com vistas à redução da demanda de energia.

Peru decreta estado de emergência frente ao El Niño

O governo peruano decretou nesta quinta-feira (2) estado de emergência em 796 municípios, número que corresponde a 40% do território nacional. A medida busca permitir ações emergenciais e preventivas frente às chuvas previstas para os próximos meses, diretamente associadas ao fenômeno do El Niño, segundo o próprio governo. De acordo com o Centro Nacional de Estimativa, Prevenção e Redução de Riscos e Desastres (CENEPRED), 9,6 milhões de peruanos encontram-se em estado de vulnerabilidade alta frente a deslizamentos e inundações. Trata-se do primeiro país a decretar estado de emergência frente ao El Niño em 2026. O decreto tem validade, a princípio, de 60 dias.

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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.

2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.

Acesse o Boletim Fundo Clima de Junho e conheça a análise em detalhes.

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).