(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
Num jogo extenuante, sob um calor de mais de 32°C na primavera francesa, o tenista brasileiro João Fonseca, de 19 anos, bateu o maior vencedor de Grand Slams da história (24), atual número 4 do ranking mundial, o sérvio Novak Djokovic. A virada épica, depois de estar perdendo por 2 sets a 0, foi selada com três pontos de saque seguidos. Os chamados aces são mais difíceis em quadras de saibro, consideradas “quadras lentas”, por causa da superfície de terra, que absorve o impacto da bola. Mas sob o sol forte, o chão de Roland Garros perdeu umidade. Com o ar mais quente e, portanto, rarefeito, os já potentes golpes de Fonseca, considerado um tenista de jogo agressivo, ficaram mais rápidos ainda.
Na batalha de quase 5 horas, o ex-número 1 Djokovic, aos 39 anos, sofreu mais com o calor do que Fonseca, um atleta em ascensão, 30º do ranking. Nos intervalos, os dois tentavam resfriar seus corpos.
Durante a semana, em outros jogos do tradicional torneio de Roland Garros, os atletas lutaram para superar adversários sob as condições extremas de calor. Na rodada anterior, quando Djokovic pediu mais gelo em uma das paradas, as bolas nos refrigeradores nas quadras estavam derretidas.
A nova realidade climática muda o jogo não apenas para quem está na quadra, mas para quem trabalha nos eventos ao ar livre, para as torcidas e toda a indústria esportiva. Como em todos os setores da sociedade, discutir e implementar medidas de adaptação é urgente para estarmos preparados ao novo normal.
Na Copa do Mundo da Fifa, que se inicia em duas semanas nos Estados Unidos, México e Canadá, pela primeira vez, todos os jogos deverão ter uma parada para hidratação – ou para resfriamento como o termo em inglês – aos 22 minutos de cada tempo. O verão do Hemisfério Norte deve esquentar literalmente as partidas.
Um estudo da organização World Weather Attribution aponta que as mudanças climáticas aumentaram significativamente o risco de calor extremo em diversos estádios que receberão jogos da Copa, principalmente aqueles localizados nas cidades mais quentes e úmidas do México e dos Estados Unidos.
Os cientistas usaram o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature), que combina temperatura, umidade, radiação solar e vento, para medir o estresse térmico no corpo humano. Pelos critérios do sindicato global de jogadores de futebol FIFPRO, valores acima de 26°C já representam risco relevante à saúde dos atletas e exigem pausas para resfriamento. Acima de 28°C, a recomendação é até adiar partidas.
A estimativa é que cerca de 26 jogos possam ocorrer em condições perigosas de calor. Além do risco de estresse térmico dos jogadores, o alerta se estende aos torcedores nas áreas externas dos estádios e em locais de deslocamento intenso.
Diante do aumento das temperaturas, grandes eventos esportivos realizados no verão devem incluir no planejamento medidas de adaptação climática e protocolos de resposta aos eventuais impactos, como infraestrutura de resfriamento e horários alternativos. Os esportes, que tanto nos inspiram com suas histórias de superação, podem dar grandes exemplos de como seguir o jogo, com segurança, em um mundo mais quente.
GRÁFICO DA SEMANA
Os três últimos anos foram os mais quentes da história. E nos próximos cinco, devemos ter novos recordes de calor, segundo relatório divulgado nesta semana pela Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês). Há 91% de chances de que a temperatura média global fique 1,5°C acima da média do período pré-industrial em pelo menos um ano até 2030. Esses outros destaques da Atualização Anual do Clima nesta Década estão no Gráfico da Semana.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
A proposta preliminar de cobertura setorial do mercado regulado de carbono brasileiro foi apresentada pela Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono (SEMC), do Ministério da Fazenda, nesta semana. A indústria de papel e celulose, ferro e aço, cimento, alumínio primário, exploração e produção de petróleo e gás, refino e transporte aéreo são os setores que serão inicialmente abrangidos pelo Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).
Na segunda etapa, cujo início está previsto para 2029, estão: mineração, alumínio reciclado, setor elétrico, vidro, indústria de alimentos e bebidas, química, cerâmica e resíduos. Na terceira, a partir de 2031, incluíram-se transporte rodoviário, transporte aquaviário e transporte ferroviário.
O Tá Lá no Gráfico desta semana relembra os conceitos do mercado regulado brasileiro de carbono, resumindo o cronograma que, se mantido, prevê o sistema operando a partir de 2031 – seis anos após a aprovação da Lei 15.042/2024, e era essa a estimativa quando o SBCE foi instituído.
ABC DO CLIMA
Estresse Térmico: O estresse térmico é um processo que ocorre no corpo humano quando há exposição a temperaturas extremas, tanto de calor quanto de frio. A incapacidade de manter a temperatura corporal dentro da faixa adequada (entre 36,5°C e 37°C) desencadeia uma série de reações fisiológicas, incluindo alterações nos sistemas circulatório e cardiovascular. No caso do calor extremo, o organismo tenta se resfriar por meio da transpiração e da dilatação dos vasos sanguíneos, o que pode levar à desidratação, cãibras e até exaustão térmica.
Para medir os efeitos combinados das condições ambientais sobre o corpo humano, utiliza-se a Temperatura de Bulbo Úmido e Globo (WBGT, na sigla em inglês para Wet Bulb Globe Temperature). O índice é composto por fatores como umidade, calor radiante, incidência direta de luz solar e movimento do ar. Esses elementos influenciam diretamente a capacidade do organismo de regular sua temperatura interna por meio da transpiração e da troca de calor. Por incorporar essas variáveis de forma integrada, o WBGT oferece uma avaliação fisiologicamente mais precisa do estresse térmico, especialmente durante atividades físicas ao ar livre, sendo utilizada na ciência do esporte.
Ecoinvest: resultados do 4º leilão e anúncio do 5º
No início desta semana, o governo lançou o 5º Leilão do Eco Invest Brasil. Nesta nova etapa, o programa pretende mobilizar até R$50 bilhões em investimentos a partir do capital catalítico do Fundo Clima. Integrante do Plano de Transformação Ecológica, o EcoInvest Brasil já movimentou mais de R$140 bilhões nos quatro primeiros leilões e reúne 13 instituições financeiras credenciadas.
Desta vez, o mecanismo prevê a criação de seis fundos voltados à inovação das cadeias estratégicas para a transformação ecológica da indústria. Entre as prioridades está o beneficiamento de minerais críticos, considerado uma aposta para atrair capital privado nacional e estrangeiro. Os Fundos de Inovação Ecoinvest também devem ser destinados ao desenvolvimento do SAF, o combustível sustentável de aviação e projetos de fertilizantes e biometano.
No quarto leilão, o foco esteve na bioeconomia e na infraestrutura da Amazônia Legal, com potencial de mobilizar mais de R$29 bilhões em investimentos. Foi também a primeira rodada alinhada ao Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). Dos R$13,2 bilhões em investimentos iniciais, aportados por quatro instituições financeiras, cerca de R$1,9 bilhão foi destinado à sociobioeconomia.
El Niño: STF entra em campo
Na segunda-feira (25), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou que, em até 10 dias úteis, a União e os estados da Amazônia Legal e do Pantanal devem informar como estão se preparando para o aumento significativo de riscos de incêndio florestais em razão de possíveis impactos do El Niño, especialmente no segundo semestre do ano.
A decisão foi incluída na ADPF 473/DF de 2024, que já determinava a tais entes federativos a necessidade de implementar planos rigorosos de prevenção e combate a incêndios e desmatamentos na Amazônia Legal e no Pantanal.
Onda de calor na Europa
O calor escaldante assola não apenas as quadras francesas de Roland Garros, como descrevemos na abertura deste Boletim Semanal. Em plena primavera, Londres atravessa o mês de maio mais quente da história, atingindo surpreendentes 35 °C nesta semana. Na França, a agência meteorológica nacional alertou para uma “onda de calor precoce, notável e duradoura”, com temperaturas 12°C ou mais acima da média sazonal. Duas mortes já foram registradas no país até o momento, decorrentes da prática de esportes ao ar livre. A Espanha, por sua vez, já registra 36 mortes na última semana e meia, a maioria de pessoas idosas e no Norte do país, região menos quente, e também menos preparada para ondas de calor como esta.
Os termômetros sobem, as ajudas para o clima caem
O que estamos vendo na Europa agora não é apenas um extremo climático, mas a materialização do nosso déficit estrutural de adaptação. Na mesma semana em que o termômetro batia recordes em Londres, a cidade sediou a Conferência de Parcerias Globais, organizada pelo governo britânico e parceiros para discutir novas formas de cooperação internacional e mobilização de investimentos para enfrentar desafios globais. Um dos temas centrais do encontro foi a queda histórica da ajuda internacional (ODA): dados preliminares da OCDE mostram que a ajuda caiu 23% em 2025, o patamar mais baixo desde 2015, em grande parte devido a ajustes fiscais dos principais doadores, como EUA, Reino Unido, Alemanha e França.
Diante desse apagão, o Global Partnership Compact saído do encontro propõe uma agenda de cooperação que coloca o fortalecimento de parcerias privadas, a mobilização de investimentos e a expansão de capacidades, dando protagonismo a governos e comunidades na implementação das soluções. Ainda assim, essa proposta apresenta limites para a agenda climática, que precisa encarar o desafio do financiamento para adaptação, onde a lacuna entre os recursos disponíveis e as reais necessidades dos países em desenvolvimento ainda é expressiva. Os impactos da onda de calor na Europa deixam clara a necessidade de sistemas de resposta a eventos extremos e de uma arquitetura financeira global à altura da realidade do presente, sobretudo quando os termômetros sobem e os subsídios públicos encolhem.
Texto 5
TExto
Fundo Clima necessita de regras rígidas para financiar projetos de captura de carbono.
Documento da Talanoa e Observatório do Clima apontam os riscos se plano de aplicação de recursos não garantir adicionalidade climática e salvaguardas socioambientais
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO