(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
Assembleia Geral da ONU (UNGA, na sigla em inglês), Cúpula de Clima das Nações Unidas (em inglês, UN Climate Summit) e Semana de Clima de Nova York. A trinca de eventos que costuma parecer uma coisa só na agenda de clima em setembro nos Estados Unidos resumiu novamente o atual contexto geopolítico global: guerras que se prolongam, transição energética motivada não somente pelo clima, dilemas sobre a inteligência artificial, e tudo isso se dando em um mundo que esquenta, onde os impactos da mudança climática se agravam. Neste ano, a recente enxurrada catastrófica provocada por um colapso glacial no Nepal foi a tragédia climática mais lembrada.
O chefe de governo mais jovem a discursar na 81ª UNGA, Balen Shah, primeiro-ministro nepalês afirmou que um país pobre como o Nepal está tendo que contrair dívidas para reparar danos, apesar de não ter contribuído para a mudança do clima. Afirmou, entretanto, que não estava em Nova York para buscar culpados: “Não estamos aqui para culpar outro país ou continente. Não estamos aqui para tornar a mudança do clima um campo de batalha geopolítica. Estamos aqui para assumir novamente sua responsabilidade e solidariedade”.
A subsecretária pessoal de Shah, Prakriti Dhakal, esteve no evento Adapting to the New Climate Reality: Why Accelerating Impacts Demand New Responses, realizado em parceria da UN Foundation, DCA ACT Alliance, E3G e o Instituto Talanoa. Ela fez um relato emocionante de como o jovem gabinete do governo, que foi empossado há seis meses, está lidando com a tragédia. Originária da região atingida, ela contou que, assim que souberam da enxurrada em curso, teve “alguns segundos” para ligar para o pai: “‘Pai, fique seguro’. E ele disse: ‘Não há lugar para ir’. Comecei a me preparar que talvez eu pudesse não mais ter notícias sobre eles, que talvez eu não pudesse mais voltar para ver minha escola, aquelas comunidades, minhas casas… Por sorte, por sorte, era uma região onde a enxurrada perdeu força e não houve danos no entorno da minha cidade natal. Mas até quando vamos depender da sorte?” (assista abaixo ao evento na íntegra).
Em sua fala na abertura da assembleia, o presidente Lula também mencionou o derretimento das geleiras do Himalaia, como um exemplo de alerta e uma crítica ao fato de a agenda de clima estar perdendo centralidade nos fóruns multilaterais, como o G7 e o G20. Ao denunciar o enfraquecimento da cooperação internacional e a perda de prioridade da mudança do clima no regime multilateral, o presidente reforçou que não haverá desenvolvimento estável em um mundo marcado por conflitos. A menção às projeções de um Super El Niño e seus efeitos sobre os mais vulneráveis reconhece que os riscos climáticos já não são uma ameaça futura, mas uma realidade que exige respostas no presente. Ele reafirmou uma agenda internacional ancorada na paz, na democracia, no multilateralismo e na soberania das nações.
Mas o tratamento dado à questão climática no discurso de Lula ficou aquém do que a dimensão da crise exige. Lula não mencionou adaptação ou resiliência e tampouco fez um reconhecimento explícito do papel de povos indígenas e comunidades tradicionais, que estão entre os mais vulneráveis aos impactos climáticos e, ao mesmo tempo, são portadores de conhecimentos e soluções fundamentais para enfrentá-los.
Lula reafirmou o compromisso brasileiro com a redução do desmatamento, destacando os avanços na Amazônia e associando a proteção do bioma ao enfrentamento do crime organizado e à defesa e à soberania nacional. Também mencionou o Fundo Floresta Tropical para Sempre (TFFF), mas sem fazer um chamado explícito aos países desenvolvidos para ampliarem sua contribuição à iniciativa. Na agenda da transição energética, defendeu ainda que o Brasil avance na exploração de minerais críticos, considerados estratégicos, mas ressaltou que essas riquezas devem gerar benefícios para a população brasileira.
O discurso expôs uma contradição climática entre a defesa da continuidade das pesquisas e da exploração de petróleo na Margem Equatorial e o compromisso reafirmado com a implementação do Mapa do Caminho para a descarbonização da economia brasileira. Enquanto a exploração de novas reservas de petróleo aponta para a expansão da oferta e do uso de combustíveis fósseis, o Mapa do Caminho pressupõe uma trajetória de redução da dependência desses combustíveis e das emissões associadas. A coexistência dessas duas agendas deixa em aberto como o governo pretende compatibilizar a expansão da produção de petróleo com os compromissos de descarbonização assumidos pelo país.
A mensagem tensionou a promessa de liderança climática do Brasil e expôs uma distância entre o papel que o país reivindica na diplomacia climática e as escolhas que mantém na política energética doméstica. Depois da COP30, realizada em Belém, não basta que o Brasil denuncie o negacionismo ou defenda a floresta em pé: espera-se que transforme sua autoridade diplomática em liderança efetiva, acelerando a transição energética, fortalecendo políticas de adaptação e resiliência, defendendo o financiamento climático e assegurando participação social nas decisões sobre o futuro climático do país.
Cúpula do Clima morna em Nova Iorque
Em paralelo à UNGA, a Cúpula de Clima das Nações Unidas (em inglês, UN Climate Summit) reuniu menos líderes do que no ano passado. Embora tenha sido o evento de despedida do Secretário-Geral da ONU, António Guterres (veja nossa análise sobre seu legado aqui), o evento atraiu pouca atenção midiática e do público em geral, provavelmente distraído com os discursos sobre guerra, paz e soberania dos líderes mundiais da UNGA. Enquanto a ausência das potências do G20 na Cúpula chamou a atenção, houve presença ativa de países comprometidos em avançar a agenda internacional climática, como diversos países insulares, Austrália, Alemanha e Islândia. A Cúpula contou ainda com um segmento específico dedicado à adaptação, chamado “Financiando a adaptação na era do overshoot”, e contou com a participação do Ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, João Paulo Capobianco.
A menos de dois meses da COP31, a Semana de Clima de Nova Iorque pode ser considerada um termômetro para a Turquia, no qual a temperatura segue morna quanto às principais entregas que Antalya pode prover.
GRÁFICO DA SEMANA
O aquecimento da região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial, atingiu o maior nível já registrado. O recorde ocorre na série histórica conhecida como ONI (Oceanic Niño Index), com dados desde 1950 para observar e caracterizar o El Niño. Chama atenção que a curva deste ano é muito acentuada para cima, pois normalmente o ápice do fenômeno acontece mais próximo ao fim do ano. No Gráfico da Semana, saiba mais sobre esse índice e o RONI (Relative Oceanic Niño Index), adotado neste ano pela agência NOAA como a principal referência para o acompanhamento do El Niño.
ABC DO CLIMA
Educação Baseada na Natureza (EBN): A Educação Baseada na Natureza resulta da convergência de diferentes linhas pedagógicas que valorizam a natureza como espaço, conteúdo e condição para a aprendizagem. O conceito dialoga com a educação ambiental e climática, com a aprendizagem baseada na natureza (nature-based learning) e com experiências de forest schools (escolas de floresta).
No Brasil, a EBN ganhou contornos próprios a partir de iniciativas do Instituto Alana, especialmente do programa Criança e Natureza, e de sua articulação com o UNICEF. Assim, o conceito se aproximou da agenda climática, incorporando a escola como espaço estratégico para a adaptação e a construção de resiliência diante dos impactos da crise climática. A abordagem combina mudanças nas práticas pedagógicas e curriculares com a transformação dos espaços escolares e de sua relação com o território, incluindo maior contato com a natureza e soluções baseadas na natureza. Nesta semana, a EBN foi definida e institucionalizada pela Lei nº 15.512, de 22 de setembro de 2026 que institui o chamado ECA Ambiental, passando a integrar a legislação brasileira e a ser reconhecida como um direito de crianças e adolescentes.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
Para lidar com a crescente pressão pela abertura de novas áreas de extração de minerais críticos, é preciso fomentar a reciclagem. Isso pode reduzir em 30% a necessidade de investimentos em mineração até 2040. Sendo a extração uma atividade que inevitavelmente altera paisagens naturais, a circularidade deve ser apoiada por meio de regulações e incentivos. O Tá Lá no Gráfico desta semana mostra esse ciclo que deve ser criado.
Criança e adolescente têm direito à natureza
Nesta semana, foi publicada a Lei nº 15.512, de 22 de setembro de 2026, que estabelece princípios e diretrizes para a formulação e implementação de políticas públicas voltadas à efetivação, com absoluta prioridade, do direito da criança e do adolescente à natureza. Conhecida como “ECA Ambiental”, a medida amplia o entendimento sobre a proteção integral de crianças e adolescentes ao reconhecer que o acesso à natureza, à biodiversidade e a um ambiente saudável também faz parte das condições necessárias para o desenvolvimento e a garantia de direitos.
A lei altera o art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e estabelece que família, sociedade e poder público devem assegurar, com absoluta prioridade, direitos como vida, saúde, educação, lazer, dignidade e, agora, natureza, além da convivência familiar e comunitária.
O texto também determina a criação de uma Política Nacional Integrada do Direito da Criança e do Adolescente à Natureza, que deverá ser estruturada de forma intersetorial e regulamentada posteriormente. A política deverá articular diferentes áreas de governo para garantir o acesso à natureza e incorporar esse direito às políticas públicas voltadas à infância e à adolescência.
A agenda climática também passa a fazer parte desse marco de proteção. A lei altera a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) para priorizar crianças e adolescentes nos processos de redução dos impactos das interferências humanas sobre o sistema climático.
Entre as novidades está também o reconhecimento da Educação Baseada na Natureza (EBN) como parte desse novo marco, aproximando educação, contato com a natureza, biodiversidade, educação climática e resiliência. Estabelece ainda responsabilidades para União, estados, Distrito Federal e municípios, entre elas:
- conservar e recuperar a natureza, a biodiversidade e os sistemas naturais e climáticos;
- garantir o acesso de crianças e adolescentes aos biomas brasileiros e aos ecossistemas naturais;
- considerar a participação de crianças e adolescentes na elaboração de políticas, planos e metas relacionados ao clima;
- priorizar a participação de jovens afetados por riscos socioambientais e climáticos;
- considerar crianças e adolescentes nas ações de prevenção e resposta a desastres;
- assegurar medidas relacionadas à reparação de perdas e danos decorrentes de eventos socioambientais e climáticos.
Outro ponto importante é a participação de crianças e adolescentes na construção das políticas públicas. A legislação estabelece mecanismos para que sejam ouvidos na elaboração de políticas e metas climáticas e dá atenção especial a jovens afetados por riscos socioambientais e climáticos. Além disso, fica reconhecida a necessidade de considerar as especificidades de crianças e adolescentes nos processos de prevenção de desastres, reparação de perdas e danos e de resposta aos eventos extremos.
Alemanha assume compromisso de eliminar combustíveis fósseis até 2045
A Alemanha assumiu, pela primeira vez de forma explícita, o compromisso de transicionar para fora dos combustíveis fósseis até 2045, ano em que pretende alcançar a neutralidade climática. O compromisso foi formalizado em um novo Roadmap for Transitioning Away from Fossil Fuels, apresentado pelo governo alemão na Assembleia Geral da ONU em 23 de setembro. A Alemanha é o terceiro país, depois de França e Países Baixos, a apresentar um roadmap nacional desse tipo.
O dado de partida ajuda a dimensionar o desafio. Em 2024, 65% do consumo de energia da Alemanha ainda vinha de combustíveis fósseis. O petróleo respondia por 36%, gás natural por 24% e carvão por 5%. A dependência externa também é elevada; 98% do petróleo e 95% do gás natural eram importados, gerando uma conta de importação de € 76 bilhões naquele ano (R$ 449,61 bilhões). A transição é apresentada não apenas como política climática, mas como estratégia de segurança energética e redução da exposição a preços e choques geopolíticos.
O roadmap combina expansão das renováveis e eletrificação dos usos finais de energia. A participação das renováveis no consumo bruto de eletricidade, atualmente em torno de 55%, deverá chegar a pelo menos 80% em 2030. Para isso, a Alemanha prevê adicionar 12 GW de capacidade eólica onshore e alcançar 215 GW de energia solar até 2030. O país também reafirmou a saída do carvão até 2038, com possibilidade de antecipação para 2035.
A eletrificação é central para reduzir diretamente o consumo de petróleo e gás. No transporte, cerca de um terço dos novos carros registrados em agosto de 2026 já era totalmente elétrico, acompanhado pela expansão da infraestrutura de recarga. No aquecimento, bombas de calor e redes de aquecimento distrital substituem equipamentos a petróleo e gás. Em 2025, pela primeira vez, foram vendidas mais bombas de calor do que sistemas centrais de aquecimento a gás. Na indústria, a estratégia combina eletrificação, modernização tecnológica, financiamento público e instrumentos como o EU Emissions Trading System e o Carbon Border Adjustment Mechanism.
O roadmap também estabelece uma meta de redução de 30% das emissões de metano até 2030, respondendo à meta global para a redução das emissões desse gás de efeito estufa. Para a geração elétrica, a estratégia prevê ainda que novas usinas a gás possam migrar para hidrogênio verde, de modo que o sistema elétrico seja neutro em carbono e livre de combustíveis fósseis até 2045.
O contraste com o Brasil é significativo. O governo brasileiro anunciou que as diretrizes do roadmap nacional para a redução da dependência dos combustíveis fósseis seriam publicadas em fevereiro de 2026, para posterior apreciação do Conselho Nacional de Política Energética. Entretanto, até o momento, nenhum documento nesse sentido foi publicado pelo Governo Federal. Enquanto isso, as crises geopolíticas e seus efeitos nos preços dos combustíveis fósseis seguem pressionando os índices inflacionários do Brasil e reduzindo o poder de compra do consumidor nacional.
Tuvalu confirma a Segunda Conferência Internacional sobre a Transição Para Longe dos Combustíveis Fósseis
A 2ª Conferência Internacional sobre a Transição Justa para Longe dos Combustíveis Fósseis será realizada no Pacífico, em julho de 2027, com organização dos governos de Tuvalu e Irlanda. As datas exatas ainda serão anunciadas, e as inscrições não estão abertas.
A conferência dará continuidade ao Processo de Santa Marta, iniciado em abril de 2026 pela Colômbia e pelos Países Baixos. A primeira edição reuniu 57 países e mais de 1.000 representantes, com foco na implementação de uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis.
O processo de Tuvalu estará focado em três frentes que dialogam diretamente com os desafios da transição no Brasil. 1.) a redução da dependência econômica dos combustíveis fósseis, incluindo dependência fiscal e dívida pública; 2.) a transformação da oferta e da demanda de energia, incluindo redução planejada da produção fóssil, eletrificação, 3.) a segurança energética e redirecionamento de subsídios; e cooperação internacional e governança, incluindo financiamento e barreiras jurídicas à transição.
A segunda edição pretenderá avançar o debate da formulação de diagnósticos, vistas na primeira edição, para a implementação de soluções e cooperação internacional, mantendo como referência uma transição compatível com o limite de 1,5°C.
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Boletim Fundo Clima – Setembro 2026
Fundo Clima prevê novo recorde em 2027: proposta de gastos com operações de crédito vai a R$ 54,7 bilhões
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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.
2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO