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Sob alerta da possibilidade de um El Niño de intensidade sem precedentes, em um ano que pode entrar para o ranking dos mais quentes da história, os brasileiros vão às urnas decidir quem presidirá o país nos próximos quatro anos. Mais do que reunir propostas, os planos de governo dos candidatos à Presidência da República devem indicar os caminhos que o Brasil pretende percorrer num momento decisivo para responder aos riscos climáticos crescentes e impactos já visíveis – nas paisagens, nas atividades de diferentes setores e, sobretudo, em nossos corpos.
Além de avaliar quanto cada candidatura aborda a agenda climática, é fundamental analisar como cada uma compreende a emergência climática e quais instrumentos propõe para responder a ela, conectando políticas domésticas com a urgência global.
A Política por Inteiro analisou seis planos de governo sob a ótica das políticas climáticas, com foco em transição energética e mineração; adaptação climática e uso da terra. A análise contempla um amplo espectro político e inclui nesta edição os programas de Lula (PT), Ronaldo Caiado (PSD), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Hertz Dias (PSTU).
Entre convergências, lacunas e diferentes graus de prioridade dados à agenda climática, os programas abordam desafios já bastante conhecidos no país, como o desmatamento e a implementação do Código Florestal, ao mesmo tempo em que incorporam temas que ganharam espaço no debate político recente, como a estruturação de data centers e a exploração de minerais críticos.
O reconhecimento da emergência climática, de seus impactos socioeconômicos e da necessidade de uma política climática transversal varia significativamente entre as candidaturas. Mesmo nos programas que incorporam consensos científicos e reconhecem a crise como um problema complexo, que exige respostas coordenadas do poder público, permanecem lacunas em aspectos fundamentais da governança climática, na definição de uma trajetória de transição para além dos combustíveis fósseis e no compromisso com o financiamento climático.
De modo geral, a transição energética ainda é apresentada como mera diversificação da matriz, enquanto parte das propostas prioriza a gestão dos riscos climáticos sem enfrentar de forma estruturante suas causas, nem sua relação com as desigualdades sociais.
GRÁFICO DA SEMANA
O Gráfico da Semana traz uma explicação ilustrada do termo abordado no ABC do Clima desta edição do Boletim da Semana: albedo, uma medida que nos ajuda a compreender as interações dos raios solares com as diferentes superfícies terrestres e como reforçam ou amenizam o calor retido no planeta.
ABC DO CLIMA
Albedo: do latim albus, que significa branco, é uma medida criada para quantificar a capacidade de uma superfície na Terra refletir a luz solar, variando entre 0 (absorção total) e 1 (reflexão total). A neve tem um albedo alto (aprox. 0,8) enquanto o asfalto tem um albedo muito baixo (entre 0,05 e 0,10). O termo tem relação direta com as mudanças climáticas, já que o degelo das calotas polares diminui a capacidade do planeta de refletir a luz solar e, portanto, de resfriamento da temperatura terrestre.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
Um termo tem sido cada vez mais usado nas discussões sobre o crescimento das fontes de energia solar e eólica no Brasil e no mundo: o curtailment. Trata-se do termo técnico para o corte da geração de uma usina mesmo quando há sol ou vento para produzir eletricidade. Isso acontece porque o sistema elétrico não consegue suportar com segurança a energia que seria disponibilizada. Confira no Tá Lá no Gráfico desta semana a dimensão desse problema, que expõe a necessidade de aumentar a resiliência dos sistemas elétricos e ampliar soluções de armazenamento.
O mapa do caminho para a Foz do Amazonas
Reunião extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) está prevista para 2 de setembro. A pauta inclui a análise da resolução que trará as diretrizes para a elaboração do Mapa do Caminho nacional para redução da dependência dos combustíveis fósseis, determinada pelo presidente Lula em dezembro de 2025, no prazo de 60 dias – vencido no início de fevereiro.
O colegiado se reúne em meio ao anúncio dos primeiros resultados da avaliação da Petrobras na Foz do Amazonas. Em 14 de agosto, a Petrobras divulgou a identificação de hidrocarbonetos no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá e em águas com 2.886 metros de profundidade. Nesta semana, foi confirmada a presença de petróleo e a empresa afirmou que possui amostras em mãos. Ainda não há estimativa do volume encontrado, nem confirmação de viabilidade comercial. A perfuração e a avaliação exploratória continuam. A Petrobras prevê novos poços na região.
O achado é apresentado como estratégico para a reposição de reservas, especialmente diante da perspectiva de pico da produção do pré-sal na década de 2030. Para o governo, a exploração também é associada à segurança energética e ao desenvolvimento econômico da região.
A descoberta de petróleo pela Petrobras na Bacia da Foz do Amazonas coloca novamente em evidência uma contradição central da política energética brasileira. Enquanto o governo prepara um Mapa do Caminho para longe dos combustíveis fósseis, a abertura de uma nova fronteira de exploração de petróleo se concretiza. Resta saber como as diretrizes que o CNPE deverá aprovar vão orientar as tomadas de decisão sobre a abertura de novas fronteiras de óleo e gás.
El Niño
Considerando as projeções climáticas, que apontam para o aumento do risco de incêndios entre agosto e outubro, principalmente na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal devido à intensificação do El Niño até dezembro, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) reforçou a articulação com Estados e o Distrito Federal. A terceira reunião da Câmara Técnica Permanente de Articulação Interfederativa do Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo (COMIF) foi realizada nesta semana, reunindo representantes de 12 Estados, para coordenar medidas de atuação integrada entre União e governos estaduais no período de maior risco de incêndios.
Entre os principais temas, esteve a implementação da Recomendação COMIF nº 5/2026, que orienta Estados e Distrito Federal a adotar ações preventivas, incluindo a identificação de áreas prioritárias para prevenção e combate aos incêndios. Até o momento, 11 unidades federativas já enviaram ao MMA suas estratégias e áreas prioritárias.
A reunião também tratou da elaboração e aprovação dos Planos de Manejo Integrado do Fogo (PMIFs), previstos na Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei nº 14.944/2024. A política estabelece a cooperação entre União, Estados, municípios, setor privado e sociedade civil na prevenção, preparação e controle dos incêndios.
O esforço para estruturar ações de preparação para os impactos do El Niño vem ganhando espaço também nos estados e municípios. Confira no Monitor El Niño.
Atualização na gestão de riscos e desastres urbanos
A Secretaria Nacional de Periferias, do Ministério das Cidades, lançou nesta semana o livro “Mapeamento de riscos: Conceitos e métodos aplicados a processos geológicos e hidrológicos”, atualizando sua primeira versão, publicada em 2007. A publicação foi antecipada para dar vazão à demanda crescente de técnicos e gestores por conceitualizações adequadas e novas tecnologias para mapear os riscos existentes nos meios urbanos hoje. Conceitos relacionados à gestão de riscos estão em constante evolução, e vigora hoje um entendimento de que riscos não são naturais, senão socialmente construídos. O livro ainda se debruça sobre a variedade de conceitos hidrológicos usados no Brasil, como enxurradas, inundações, enchentes e cheias.
China e adaptação
A China consolidou sua posição como líder na transição energética global, mas os impactos crescentes de eventos extremos, como o supertufão Bavi, expõem os limites de uma política focada predominantemente na redução de emissões. Embora o país conte com uma Estratégia Nacional de Adaptação para 2035, a agenda de resiliência climática ainda permanece majoritariamente reativa e subfinanciada, não ocupando o status de eixo estruturante. Será que a China conseguirá elevar a adaptação ao mesmo patamar de prioridade da transição energética para manter sua liderança climática? Confira a análise completa sobre este desafio no Blog da Política Climática.
COP da Desertificação
A Conferência das Partes para o Combate à Desertificação (UNCCD) começou nesta segunda-feira (17) em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, e finaliza na próxima sexta-feira (28). A UNCCD é irmã da Convenção do Clima e da Biodiversidade, e ocorre de forma bienal. Com o lema “Restaurar a Terra. Restaurar a esperança”, a COP17 tem como objetivo negociar acordos para frear a desertificação no mundo. O país-sede já tem 77% de suas terras degradadas, enquanto no mundo essa porcentagem chega a 40%. Os segmentos de alto nível discutirão prioridades de restauração de terras, conectando as estratégias com agricultura, segurança alimentar e ecossistemas. A Política por Inteiro trará os avanços e percalços das negociações no próximo boletim, conectando-os às negociações de clima.
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Instituto Talanoa lança Monitor do El Niño
Ferramenta reúne medidas de preparação do Governo Federal e de Estados e municípios em todo o Brasil
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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.
2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO