O que travou as negociações sobre Meta Global de Adaptação (GGA) em Bonn

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As negociações de adaptação em Bonn terminaram com um balanço preocupante, especialmente pela falta de acordo sobre a Meta Global de Adaptação (GGA, em inglês). O tema foi encerrado sob a Regra 16, o que significa que as Partes não chegaram a um consenso e que a discussão será retomada apenas na COP31, em novembro, na Turquia. Na prática, isso adia decisões importantes para a implementação, principalmente em um ano de El Niño. Com as previsões de que o fenômeno se desenvolva com força entre o fim do próximo semestre e início de 2027, os impactos da crise climática podem ser acentuados e sentidos de forma desigual pelas populações vulnerabilizadas.

Durante as discussões do GGA, o principal impasse político ocorreu em dois pontos: (1) a disputa sobre a linguagem relacionada à meta de triplicar o financiamento para adaptação, uma demanda indispensável para países em desenvolvimento e organizações da sociedade civil e (2) a composição do grupo de especialistas da Visão Belém-Addis, que será responsável por conduzir o trabalho técnico de aprimoramento dos indicadores do GGA até a COP32, em 2027, na Etiópia. 

Essa definição da composição era importante em Bonn porque o grupo precisaria começar a trabalhar ainda no período intersessional, organizando metadados e refinando metodologias dos Indicadores de Adaptação de Belém. Agora, sem isso, as Partes apertam o calendário e corremos o risco de chegar a Addis Abeba sem clareza ou qualidade técnica para orientar a implementação. No fim, essa ausência de acordo mostra que a adaptação continua presa a uma tensão recorrente entre o técnico e o político, que atrasa o avanço.

Além do entrave no GGA, outras agendas de adaptação tiveram avanço limitado (leia mais na seção de notas abaixo). Nas agendas de transição justa, as negociações se desdobraram mais acerca de processos do que de conteúdo (mais abaixo). Acerca dos dois mapas do caminho levantados em Belém, de florestas e do abandono dos fósseis, uma das mensagens mais recorrentes em Bonn foi a necessidade de maior clareza por parte da Presidência brasileira da COP30 sobre os próximos passos. Há uma expectativa crescente de que o Brasil apresente, antes da COP31, informações mais detalhadas sobre cronograma, mecanismos de participação e oportunidades concretas de engajamento para governos, empresas, sociedade civil e demais atores interessados. 

Leia sobre outros avanços e entraves em Bonn na seção de notas.

GRÁFICO DA SEMANA

As condições de El Niño já estão presentes: temperaturas da superfície marítima equatorial acima da média no Pacífico central e oriental e anomalias na circulação atmosférica na região. As previsões são de que o fenômeno ocorra com força ou extrema força entre 2026 e 2027. 

No Brasil, nos últimos anos em condições semelhantes, houve secas no Norte e no Nordeste e mais chuvas no Sul, como já mostramos em edição anterior do Gráfico da Semana. Nesta semana, mostramos como a produtividade agrícola pode ser afetada. No último El Niño, em 2023-2024, houve a seca mais severa nos últimos 70 anos na Amazônia. Em 2024, os trabalhadores rurais perderam 295 horas de trabalho no Brasil por causa do calor, segundo relatório da organização britânica Energy and Climate Intelligence Unit.

TÁ LÁ NO GRÁFICO

Com R$ 42,5 bilhões, o Fundo Clima é o principal instrumento para financiar a agenda climática no Brasil. O Tá Lá no Gráfico desta semana mostra como ele funciona e por que ele precisa estar alinhado ao Plano Clima e às metas climáticas do país, apoiando, com transparência, iniciativas que o mercado sozinho não bancaria.

ABC DO CLIMA

Capital catalítico: é um aporte de recursos que atua como um acelerador dos investimentos, reduzindo riscos e criando condições para mobilizar volumes maiores de capital. Dessa forma, atrai investidores e viabiliza projetos que dificilmente seriam financiados apenas por recursos públicos ou capital privado. No EcoInvest Brasil, os recursos do Fundo Clima são utilizados como capital catalítico para alavancar investimentos privados por meio de leilões, estruturando operações de financiamento misto (blended finance). Nesse modelo, os recursos públicos absorvem parte dos riscos financeiros dos projetos, tornando mais atrativos os investimentos em áreas como bioeconomia, adaptação às mudanças climáticas e transição energética.

Bonn 1: adaptação, além do GGA

Outras agendas da adaptação também tiveram avanço bem limitado em Bonn, além da desanimadora Regra 16 do GGA. As discussões sobre Comunicação de Adaptação terminaram apenas com resultados procedimentais; o Comitê de Adaptação não entrou como item de agenda na SB64, postergado para a COP31 no primeiro dia; e o Programa de Trabalho de Nairobi, apesar dos avanços em reconhecer a importância de fortalecer sinergias entre processos, ampliar a cooperação institucional e aumentar a participação de instituições acadêmicas com maior diversidade regional, retirou qualquer menção a pessoas afrodescendentes, povos indígenas, conhecimentos tradicionais e outros grupos vulnerabilizados.

Bonn 2: JTWP, menos conteúdo, mais processo

No Programa de Trabalho sobre a Transição Justa (JTWP, na sigla em inglês), o principal resultado foi menos relacionado ao conteúdo substantivo e mais à arquitetura institucional que definirá o futuro do processo. Os negociadores concordaram com os termos de referência para uma revisão formal do programa, que ocorrerá na Turquia, durante a COP31 e que servirá de base para sua decisão quanto à continuidade. A revisão avaliará a efetividade do programa desde sua criação, a utilidade de seus produtos para Partes e atores não estatais, a qualidade de seus formatos de trabalho e possíveis melhorias para aumentar sua relevância e impacto.

Outro avanço importante foi o início das discussões sobre a operacionalização do futuro mecanismo de transição justa, mandatado em Baku, Azerbaijão. Embora não tenha havido decisões concretas sobre seu desenho institucional, as Partes concordaram em continuar as negociações na Turquia com o objetivo de recomendar uma decisão. O texto reconhece explicitamente que as discussões desta sessão foram apenas iniciais e que o processo seguirá sendo alimentado por submissões formais e trabalho intersessional ao longo dos próximos meses. Ou seja, não está pacificado que o Mecanismo de Transição Justa incluirá provisão ou mobilização de financiamento. 

O resultado, então, abre espaço para uma ampla consulta às Partes e stakeholders. Até 1º de setembro de 2026, governos, organizações internacionais, sociedade civil e demais atores poderão apresentar contribuições sobre a revisão do programa e sobre formas de aprimorar suas modalidades de funcionamento. Essas contribuições serão sintetizadas pelo Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas para a Mudança do Clima (UNFCCC, em inglês) e utilizadas como insumo para a revisão e para as futuras negociações sobre o mecanismo de transição justa. Nota-se o abandono formal da nomenclatura “Belém-Antalya Action Mechanism” (BAM) pelas Partes do Acordo de Paris, substituindo-a por “Just Transition Mechanism” (JTM).

Em termos políticos, não é exagero dizer que Bonn (2026) consolidou uma transição do debate sobre “o que é” uma transição justa para discussões mais concretas sobre governança, implementação e institucionalização. O foco agora se desloca para duas decisões estratégicas que deverão ser tomadas em 2026: a primeira é  se o JTWP continuará após seu período inicial de implementação; a segunda é como será estruturado o novo mecanismo de transição justa sob o Acordo de Paris.

Bonn 3: Mapa do Caminho para Longe dos Fósseis

O Mapa do Caminho da Presidência brasileira da COP30 para o Abandono Gradual dos Combustíveis Fósseis (“TAFF Roadmap”, como é conhecido em inglês) consolidou-se como uma das principais iniciativas políticas para operacionalizar o chamado do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris (Global Stocktake) para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Segundo a Presidência, o ambiente político em Bonn foi significativamente mais favorável do que em Belém, refletindo uma crescente percepção de que o TAFF Roadmap funcionará como uma ferramenta de implementação, e não como uma tentativa de reabrir negociações já concluídas.

O processo já recebeu mais de 100 contribuições de governos, demonstrando, segundo a Presidência da COP30, um interesse crescente em moldar o conteúdo do roteiro e manter o debate sobre sua implementação vivo. Apesar desse avanço, permanecem desafios políticos importantes. O apoio ao TAFF Roadmap é claramente desigual entre os grupos negociadores. Enquanto alguns países desenvolvidos e membros do Environmental Integrity Group1 (Grupo de Integridade Ambiental) demonstraram apoio explícito, grupos como o African Group of Negotiators (Grupo Africano de Negociadores), o Grupo Árabe e os Like-Minded Developing Countries2 (Países em Desenvolvimento de Pensamento Similar)  ainda não sinalizaram alinhamento claro. Em proposições paralelas, representantes africanos buscaram inclusive reforçar a dimensão de equidade do debate por meio da ideia de um “Equitable TAFF Roadmap”, indicando que questões de diferenciação e justiça distributiva continuarão centrais para ampliar o apoio político ao processo.

Outro desafio identificado em Bonn é a ausência de uma dimensão financeira claramente integrada à arquitetura do Roadmap. À medida que as discussões avançam da visão política para a implementação prática, cresce a percepção de que será necessário abordar de forma mais explícita como financiar a transição energética e a redução gradual da dependência de combustíveis fósseis, especialmente nos países em desenvolvimento.

O cronograma político também está sendo ajustado. Embora inicialmente se discutisse um lançamento durante a Assembleia Geral da ONU, as eleições brasileiras tornam esse cenário menos provável. A estratégia atual prevê a divulgação formal do roteiro em Belém, no início de novembro, logo após as eleições, criando uma janela para que governos e demais atores se apropriem do documento antes da COP31. A conferência na Turquia deverá funcionar como o principal momento político de lançamento, com o objetivo de obter reconhecimento explícito das futuras presidências da COP e consolidar o roteiro como parte integrante do processo da UNFCCC.

Entre agora e a COP31, o principal objetivo será ampliar visivelmente a coalizão de apoio ao TAFF. A Presidência brasileira reconhece que ainda será necessário um esforço diplomático significativo para convencer países que continuam receosos quanto às implicações do debate sobre combustíveis fósseis. A meta para Antália, sede da próxima COP, é chegar com um número substancialmente maior de países apoiando e com uma estratégia clara para manter o processo vivo após a COP31, inclusive por meio do desenvolvimento de roteiros nacionais de implementação.

1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.

2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.

Bonn 4: Mapa do Caminho de Florestas

As discussões sobre o Mapa do Caminho para Interromper e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030 foram menos visíveis, mas alguns sinais importantes emergiram. A Presidência da COP30 continuou promovendo a iniciativa como uma de suas principais entregas políticas. Paralelamente, o Grupo de Integridade Ambiental (EIG, formado por Coreia do Sul, Geórgia, Liechtenstein, México, Mônaco e Suíça) destacou, nas consultas abertas da COP31, a importância de ampliar o engajamento internacional em torno do roteiro florestal.

O principal desafio, entretanto, permanece o mesmo: a falta de apropriação política por outros países. O roteiro continua sendo amplamente percebido como uma iniciativa brasileira, e não como uma ferramenta coletiva para acelerar a implementação de metas relacionadas a florestas, uso da terra e desenvolvimento sustentável. O sucesso da iniciativa dependerá, portanto, da capacidade de transformá-la em um projeto associado à COP30 em uma agenda compartilhada por países de diferentes regiões, especialmente do Sul Global.

Nesse contexto, organizações da sociedade civil podem desempenhar um papel relevante ao ampliar a narrativa sobre quem se beneficia do roteiro e quais oportunidades ele pode gerar para diferentes contextos nacionais. A construção dessa sensação de pertencimento coletivo será decisiva para determinar se o Mapa do Caminho de Florestas se consolidará como um legado duradouro do ciclo Belém-COP31 ou permanecerá como uma iniciativa associada exclusivamente à presidência brasileira, que terminará por habitar as gavetas da ONU.

El Niño: subnacionais em alerta

Em maio, o estado de Santa Catarina publicou um alerta climático diante das previsões de intensificação do fenômeno El Niño. Agora, foi a vez do Rio Grande do Sul adotar medidas semelhantes. O decreto catarinense antecipa ações para evitar que as chuvas extremas previstas para o segundo semestre de 2026 se transformem em desastres, além de convocar os municípios a priorizarem intervenções de drenagem urbana. O alerta terá duração inicial de seis meses, podendo ser prorrogado conforme a evolução dos impactos observados.

As previsões climáticas colocam toda a região Sul do Brasil em estado de atenção. No caso do Rio Grande do Sul, a preocupação é ainda maior, já que a reconstrução dos danos provocados pela maior catástrofe climática da história do estado segue em curso. Como forma de se preparar para os potenciais impactos associados ao El Niño no período 2026/2027, o governo gaúcho instituiu o PREPARA, programa que busca mobilizar, em caráter extraordinário, o sistema estadual de proteção e defesa civil. As iniciativas adotadas pelos dois estados demonstram a importância da preparação antecipada diante de eventos extremos. No entanto, embora necessárias, medidas emergenciais não podem se tornar a principal política de enfrentamento à mudança do clima. Para além do El Niño, os efeitos do aquecimento global se manifestam de forma contínua, afetando a vida das pessoas e as dinâmicas sociais, econômicas e ambientais tanto em áreas urbanas quanto rurais.

Neste momento, estratégias emergenciais de prevenção e gestão de desastres são  necessárias, mas é fundamental que a adaptação climática seja incorporada de forma permanente ao planejamento governamental, inclusive nas decisões orçamentárias. Medidas de resposta possuem alcance limitado e, muitas vezes, dependem de recursos extraordinários, não se sustentando a longo prazo. 

O fortalecimento das capacidades institucionais e a coordenação entre diferentes níveis de governo com participação social são elementos centrais nas políticas públicas. Programas e alertas como os anunciados por Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm potencial de contribuir para estruturar a governança climática e deixar um legado duradouro para as políticas de adaptação nos estados e municípios.

Crédito extraordinário

Nesta semana a Medida Provisória nº 1.367 abriu um crédito extraordinário de R$337,5 milhões em favor do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Os recursos serão destinados ao Ibama e ao ICMBio, para implementação de ações de prevenção e controle de incêndios florestais. 

A medida busca atender às determinações do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 743 e 760, protocoladas em 2020, devido ao aumento do desmatamento e dos incêndios na Amazônia e no Pantanal que ocorreram no período. 

Para além de cumprir as ordens judiciais, a urgência da destinação dos recursos se dá pela proximidade da temporada crítica de incêndios, somada à previsão de um El Niño crítico, que deve afetar a região amazônica com secas intensas. Esses fatores agravam a possibilidade de incêndios, que de acordo com o Governo Federal, não foram previstos na Lei Orçamentária Anual para 2026.

Acesse o Boletim Fundo Clima de Junho e conheça a análise em detalhes.

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).