A disputa geopolítica por terras raras exige salvaguardas

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Sem uma política clara sobre minerais críticos e os mais pop deles, as terras raras (leia no TLNG o que são terras raras), o Brasil avança nos incentivos à mineração. Terras raras produzem ímãs de alta performance, usados tanto em motores de carros elétricos como em turbinas eólicas, e ainda na indústria da guerra.

A única mina em atividade no Brasil, localizada em Minaçu (GO), com produção comercial iniciada em 2024, foi vendida neste mês para a americana USA Rare Earth, por US$ 2,8 bilhões. Os antigos donos da Serra Verde permanecem como sócios no empreendimento e também eram americanos (Denham Capital, Energy and Minerals Group e Vision Blue).

O negócio, combinado à perspectiva de mais reservas de terras raras, coloca o Brasil no centro de uma disputa geopolítica, conectada com a agenda da transição energética. As reservas brasileiras são estimadas em 21 milhões de toneladas e seriam a segunda maior do mundo, atrás da China.

Um empréstimo de US$ 565 milhões à mineradora via Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC) à Serra Verde aparece como um dos dois projetos em fase de implementação na Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP). O financiamento inclui cláusula de prioridade de fornecimento para os Estados Unidos.

Embora ainda tenha uma participação pequena no mercado dominado por países asiáticos, a extração de terras raras, assim como dos demais minerais considerados críticos ou estratégicos, exige políticas específicas, sobretudo para tratar de salvaguardas sobre mineração em áreas protegidas, como terras indígenas e unidades de conservação. Estudo divulgado em abril pela Agência Internacional de Energia (AIE) lista riscos elevados na mineração de terras raras, como a contaminação da água, danos ao ecossistema e à saúde humana.

Desde 2023, governo e Congresso ensaiam uma política específica para minerais críticos. Um projeto de lei está para ser votado na Câmara. Havia expectativa que o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) apresentasse seu parecer nesta semana. Porém, sem consenso interno, o próprio governo articulou o adiamento. A votação na Câmara foi adiada para o início de maio. As informações são de que o marco regulatório dos minerais críticos não vai tratar de salvaguardas nem de limitar a simples exportação de minérios brutos. E a ideia de criar uma estatal para a extração desses minérios parece descartada.

No ano passado, o governo reativou o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM). Foram criados grupos de trabalho tanto para debater políticas específicas para minerais críticos como a sobreposição desses minerais com terras indígenas e unidades de conservação. Embora o trabalho tenha sido concluído, os relatórios não foram tornados públicos. Por meio da Lei de Acesso à Informação, o Ministério de Minas e Energia informou que os documentos poderiam subsidiar uma eventual deliberação e que a próxima reunião ordinária do CNPM está prevista para 18 de novembro. Uma data distante para um assunto que não sai do noticiário.

GRÁFICO DA SEMANA

A necessidade global de diversificação da cadeia de terras raras, apontada em relatório da Agência Internacional de Energia, é o tema do Gráfico da Semana. A China responde por 94% da fabricação global de ímãs permanentes, um componente essencial em tecnologias da transição energética. No ano passado, o país asiático implementou políticas de controle de exportações desses materiais que afetaram diferentes setores da economia, como energia e automobilístico. Turbinas eólicas e carros elétricos são exemplos de equipamentos e produtos que necessitam desses ímãs – produzidos a partir de terras raras (um grupo de minerais críticos).

TÁ LÁ NO GRÁFICO

Terras raras são 17 elementos químicos com propriedades únicas: conduzem eletricidade, geram campos magnéticos intensos e resistem a temperaturas extremas. A partir desses minerais críticos são produzidos ímãs permanentes, com aplicações tanto na transição energética (carros elétricos, turbinas eólicas etc) quanto em setores como saúde e data centers. Esta edição do Tá Lá no Gráfico mostra, além dos diferentes usos para esses elementos, a distribuição da cadeia global de mineração, refino e produção final dos ímãs de terras raras, destacando a alta concentração na China.

ABC DO CLIMA

Faixa marrom de sargaço: Também conhecida como Grande Cinturão de Sargaço, trata-se de uma faixa de macroalgas castanhas flutuantes do gênero Sargassum, em expansão no Oceano Atlântico, desde o Golfo do México até a costa oeste do continente africano. Em maio de 2025, estimativas apontavam para uma biomassa de aproximadamente 38 milhões de toneladas, superando o recorde estabelecido em 2022. Embora sua presença no oceano seja considerada natural, a proliferação excessiva caracteriza um evento climático de longa duração (slow onset), associado ao aumento da temperatura da superfície do mar. Esse fenômeno afeta o equilíbrio da biodiversidade marinha, além de impactar a pesca, o turismo local e a saúde humana, devido à liberação de substâncias tóxicas durante sua decomposição.

O otimismo e a urgência de Santa Marta

A Primeira Conferência sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis ocorre de 24 a 29 de abril de 2026 em Santa Marta, na Colômbia. Espera-se marcar uma inflexão relevante na governança climática internacional ao deslocar o foco das negociações para a implementação concreta da transição energética. Co-organizado por Colômbia e Países Baixos, o encontro reúne mais de 50 países e uma ampla coalizão de atores, incluindo governos subnacionais, sociedade civil, academia e setor privado,  em torno do objetivo comum de identificar caminhos implementáveis para acelerar a transição justa, ordenada e equitativa na superação dos combustíveis fósseis.

Diferentemente das Conferências das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas para a Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), o evento não constitui um espaço de negociação formal, menos ainda almeja produzir um novo tratado ou decisão juridicamente vinculante. Por mais que instituições historicamente defensoras dessa bandeira estejam presentes e financiando extensas rodadas de discussões intersetoriais para impulsionar a ideia.

Em que pese a realidade diplomática da Conferência, trata-se, antes, de uma plataforma política orientada à ação, voltada a países e atores já comprometidos com a implementação da transição, com ênfase na implementação de soluções práticas e cooperação internacional. Nesse sentido, a conferência se posiciona como complementar ao processo multilateral, com a ambição de alimentar o Mapa do Caminho da COP30 e superar os impasses típicos das negociações por consenso.

A estrutura do debate se organiza em torno de três pilares centrais: (i) a superação da dependência econômica dos combustíveis fósseis; (ii) a transformação simultânea da oferta e da demanda energética, abordando desde o fim da produção até a reforma de subsídios e a expansão de energias limpas; bem como (iii) o fortalecimento da cooperação internacional e da diplomacia climática, com atenção a lacunas de governança e barreiras legais, como os mecanismos de resolução de disputas investidor-Estado.

Ao final, a conferência espera produzir um relatório consolidando “caminhos habilitadores” (enabling pathways, nos termos diplomáticos em inglês) para a transição, contribuindo para traduzir compromissos políticos em estratégias implementáveis. Ainda, a representante do Ministério do Meio Ambiente da Colômbia defende criar outra rodada de Conferência, sendo a próxima nas ilhas do Oceano Pacífico, em Tuvalu, idealmente. Em um contexto de crescente frustração com a lentidão das negociações climáticas formais, a iniciativa sinaliza a gênese de arranjos plurilaterais extra onusianos e coalizões de “países dispostos” como vetores centrais para impulsionar a agenda de superação dos combustíveis fósseis, agente central na desestabilização climática do planeta e crises associadas.

Diálogos de Petersberg 

Berlim foi palco da 17ª sessão dos Diálogos Climáticos de Petersberg na terça (21) e quarta-feira (22). O evento reuniu representantes ministeriais de mais 30 países, e foi convocado pela Alemanha e as Presidências da COP 31, Turquia e Austrália. Como era de se esperar, as discussões foram marcadas pela crise de segurança energética desencadeada pela Guerra no Oriente Médio, evidenciando a necessidade de acelerar a transição energética.

Murat Kurum, presidente da COP31, enfatizou a importância de acelerar a transição para longe dos fósseis, sinalização importante a poucos dias da Conferência de Santa Marta. Por outro lado, tamanha atenção dada à pauta energética terminou por relegar a pauta da adaptação climática a segundo plano nas discussões de alto nível, dinâmica histórica observada no multilateralismo climático. Relembramos que tratar mitigação e adaptação separadamente é um erro científico e político, já que a crise climática só poderá ser solucionada a partir de um olhar interdependente e transversal da ação climática.

Reuniões de primavera do FMI e Banco Mundial 

As reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial ocorreram em Washington (DC) na semana passada (13 a 18 de abril), e foram atravessadas pelo tema da guerra no Oriente Médio. Como de praxe, as reuniões foram palco de anúncios de projeções de crescimento econômico regional e global, bem como de atualizações institucionais de ambas entidades. Frente a esse cenário, a pauta climática obteve menor centralidade do que em anos anteriores. 

As guerras com impactos globais contribuem com a desaceleração econômica e inflação, afetando em última instância o bolso do consumidor. O FMI projeta para 2026 uma desaceleração de 3,1% e de 3,2% para 2027. Nesse sentido, as assimetrias regionais se tornam mais evidentes, já que regiões que vivenciam conflitos militares possuem menores níveis de crescimento econômico. Para a América Latina, a projeção é de 2,6% de crescimento anual.

Por outro lado, Washington também foi palco para mais um seminário de implementação do Mapa do Caminho de Baku a Belém para 1.3T de dólares, organizado pela Presidência da COP 30. Nesse momento, foi apresentado o plano de trabalho para 2026, estruturado em torno de quatro pilares que se reforçam mutuamente: (I) promover ações e monitorar o progresso do Mapa do Caminho; (II) fortalecer as bases analíticas para as fontes de financiamento projetadas; (III) vincular o financiamento climático às prioridades nacionais; (IV) manter um amplo engajamento para mobilizar ações em direção à meta de US$1,3 trilhão.

Indústria petrolífera e pesca artesanal

Diversos estudos apontam os impactos negativos que as atividades de exploração de petróleo e gás offshore causam nos maretórios dos povos e comunidades tradicionais. A dinâmica da pesca artesanal é afetada diretamente pelas áreas de exclusão, criadas devido às atividades sísmicas das plataformas da indústria petrolífera. Além de violar direitos territoriais, o risco de vazamentos e aumento do tráfego de grandes embarcações ameaça os ecossistemas, compromete a segurança alimentar das comunidades e a continuidade do modo de vida tradicional.

Diante desse contexto, o  Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais criou um Grupo de Trabalho para acompanhamento desses impactos. Composto por representantes de segmentos de povos e comunidades tradicionais e do governo federal, o GT tem 180 dias para fornecer diretrizes e subsídios para formulação de políticas que tratem das violações de direitos, ações de prevenção, mitigação, avaliação e compensação das comunidades. Embora necessária, a iniciativa exige articulação institucional com o Ministério de Minas e Energia. Caso contrário, as recomendações podem ter pouca influência nas decisões do setor e não resultar em respostas coordenadas e efetivas para os territórios.

Comitê Interinstitucional da Taxonomia Sustentável Brasileira

Nesta semana, o primeiro passo operacional foi dado em direção à estruturação do Sistema de Taxonomia Sustentável Brasileira. O Comitê Interinstitucional da Taxonomia Sustentável Brasileira (CITSB) foi instituído e teve sua composição e competências definidas. Como tarefa imediata, o CITSB deve elaborar e aprovar o Regimento Interno. Cabe também ao Comitê coordenar o desenvolvimento e a implementação da Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB), através da aprovação de iniciativas e do monitoramento de impacto.

A composição do colegiado é bastante ampla e multissetorial, além de centralizada no Ministério da Fazenda. Os 30 membros compõem o Comitê Interinstitucional, núcleo deliberativo responsável pelas decisões, reunindo instituições públicas de diferentes áreas. Já o comitê consultivo agrega outros 26 representantes do setor financeiro, da economia real, da sociedade civil, do terceiro setor e da academia, com função de contribuir tecnicamente para os debates. O colegiado principal deverá se reunir trimestralmente, e suas manifestações serão formalizadas por meio de resoluções.

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

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