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A semana foi marcada por eventos extremos nas regiões Sul e Sudeste do país. Além das chuvas intensas que seguem provocando transtornos em diversas cidades gaúchas, um tornado foi registrado no Rio Grande do Sul. No Sudeste, fortes vendavais atingiram o litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, causando prejuízos e deixando vítimas.
Diante do espaço que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico ganhou no debate público, a associação entre esses eventos e o novo El Niño foi quase imediata. No entanto, segundo meteorologistas, ainda não é possível estabelecer uma relação direta de causalidade entre os fenômenos. Tanto a dinâmica atmosférica desses episódios quanto a baixa probabilidade de o El Niño já estar efetivamente estabelecido em julho impedem o consenso sobre essa atribuição.
Coincidência ou apenas um prenúncio do cenário que pode se intensificar nos próximos meses, enquanto uma frente fria encontrava a intensa onda de calor que atuava sobre parte do país, o Governo Federal reuniu ministros para anunciar medidas de preparação para o El Niño. A Sala de Situação, coordenada pela Casa Civil e composta por 24 ministérios, apresentou uma avaliação dos riscos para as diferentes regiões brasileiras e divulgou a destinação de R$ 1,3 bilhões para ações de prevenção, preparação e resposta aos impactos do fenômeno, sendo que 337 milhões já estavam previstos para combate aos incêndios florestais, via Medida Provisória.
Durante a reunião, o presidente Lula afirmou que “Se ele (el niño) vai acontecer de forma grave, nós estamos preparados. Se ele não acontecer, valeu a intenção de se preparar”.
A lógica está correta, prevenir é sempre mais eficiente e menos custoso do que remediar, mas, independentemente da evolução do El Niño, o desafio é permanente. O fortalecimento de políticas estruturantes de prevenção e resposta a desastres, aliado a estratégias de adaptação de médio e longo prazo, continuará sendo indispensável. A crise climática já tornou os eventos extremos parte da realidade. Cabe ao poder público garantir que eles não se traduzam, inevitavelmente, em desastres.
Para isso, os recursos precisam ir além de uma resposta emergencial e contribuir para fortalecer a capacidade permanente de adaptação do país. As lições aprendidas com os incêndios florestais de 2023/2024, resultantes do último El Niño, mostram que coordenação e planejamento entre os entes federativos podem reduzir significativamente os impactos dos desastres, uma estratégia que agora precisa ser replicada para o enfrentamento das chuvas intensas. Mais de dois anos após as enchentes históricas no Rio Grande do Sul, muitos municípios ainda não dispõem de capacidades institucionais básicas, como mapas de inundação, sistemas de monitoramento e planejamento territorial. Sem essas ferramentas, a capacidade de antecipação e prevenção permanece limitada.
De acordo com o anunciado na reunião ministerial, de R$998 milhões, R$850 milhões devem ser destinados para compra de arroz e milho, a fim de amortecer a quebra de safra e evitar desabastecimento dos estoques públicos. Apenas R$ 45 milhões foram destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS), valor que parece desproporcional diante do potencial que a estrutura e a capilaridade do SUS tem para enfrentar os impactos do El Niño e estruturar comunicação e proteção ao nível territorial. Os R$ 25 milhões à Agência Nacional de Águas (ANA) para monitoramento do nível dos rios representam um avanço, mas o monitoramento, por si só, não reduz riscos. A efetividade do monitoramento depende da capacidade de transformar dados em decisões rápidas e coordenadas, reduzindo perdas humanas e materiais.
A preparação para o El Niño não deve ser vista apenas como uma resposta a um fenômeno climático específico, mas como uma oportunidade para fortalecer a governança climática e gestão de riscos no país. Nesse processo será fundamental garantir transparência sobre a execução das medidas anunciadas, incluindo critérios de alocação dos recursos e indicação de setores e territórios prioritários. A população precisa saber não apenas quais ações estão sendo tomadas, mas como elas contribuem para reduzir vulnerabilidades e proteger vidas.
Instituto Talanoa lança Monitor do El Niño
Ferramenta reúne medidas de preparação do Governo Federal e de Estados e municípios em todo o Brasil
GRÁFICO DA SEMANA
No Gráfico da Semana, mostramos o quanto a janela de 1,5°C já se fechou. Em 2014, cientistas projetaram que o aumento da temperatura da superfície global em relação à era pré-industrial (1850 a 1900) ultrapassaria a marca de 1,5°C – considerada uma média móvel de 30 anos – em 2042. Agora, a projeção é de que o aquecimento de 1,5°C seja alcançado em três anos, ou seja, em 2029.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
O Tá Lá no Gráfico desta semana elenca algumas iniciativas de preparação no Brasil e no mundo, e lista recomendações para o enfrentamento coletivo do que pode ser o El Niño mais forte do século.
Confira também nossa página com todos os conteúdos da Política por Inteiro sobre o El Niño.
ABC DO CLIMA
Ecoteologia: é o ramo dos estudos teológicos que busca compreender a relação entre Deus, os seres humanos e a criação, afirmando que o mundo natural possui valor intrínseco por ser obra da divindade. A ecoteologia interpreta as tradições e os textos religiosos à luz da crise ecológica contemporânea, defendendo que o cuidado com a Terra é uma responsabilidade espiritual, ética e religiosa. Ou seja, em vez de considerar a natureza apenas como um recurso a ser explorado ao bel-prazer nos rumos ao desenvolvimento, ela a entende como uma comunidade de vida da qual a humanidade faz parte, promovendo princípios como a responsabilidade individual e coletiva, a justiça socioambiental, a interdependência entre todas as formas de vida e a preservação da criação para as presentes e futuras gerações.
Crédito rural para eventos extremos
Neste mês, o Governo Federal adotou um conjunto de medidas para apoiar produtores rurais afetados por eventos climáticos extremos, com foco na renegociação e recomposição de dívidas do crédito rural. As ações foram estruturadas com a Medida Provisória nº 1.376, de 15 de julho, e sua recente regulamentação pela Resolução CMN nº 5.330, de 23 de julho.
São beneficiários os produtores rurais e cooperativas que registraram perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta agropecuária, decorrente de eventos como secas, estiagens, enchentes, alagamentos, geadas, granizo, vendavais, tornados ou outros eventos climáticos extremos, além de perdas relacionadas à queda de preço. A MP permite que produtores enquadrados contratem um novo financiamento para quitar ou amortizar dívidas já existentes, além de negociar operações inadimplentes desde 2024. O CMN também permitiu que as instituições financeiras prorrogassem os vencimentos de operações de crédito rural previstos para agosto, evitando a inadimplência dos produtores durante a análise dos pedidos de renegociação.
A Medida Provisória nº 1.376 já recebeu diversas emendas e tem até 12/11/26 para ser convertida em lei. O cenário político é favorável para sua aprovação, já que essa é uma demanda persistente do setor agropecuário, especialmente da Região Sul do país, e encontra amplo apoio da bancada do agronegócio.
GT Plano Clima no MMA
Nesta semana, o Grupo de Trabalho Plano Clima (GT Plano Clima) foi criado no âmbito do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) para coordenar a implementação, o monitoramento, a avaliação e a atualização dos planos setoriais e temáticos sob responsabilidade da pasta.
Na Estratégia Nacional de Mitigação, o GT acompanha quatro planos setoriais: Mudanças do Uso da Terra em Áreas Públicas e Territórios Coletivos, Uso da Terra em Áreas Rurais Privadas, Cidades e Resíduos Sólidos e Efluentes Domésticos. Já na Estratégia Nacional de Adaptação, coordena cinco planos temáticos e setoriais: Biodiversidade, Oceano e Zona Costeira, Povos e Comunidades Tradicionais, Recursos Hídricos e Cidades.
Entre suas atribuições estão coordenar a implementação das ações previstas nos planos, realizar seu monitoramento anual, participar da avaliação bienal e propor sua atualização quadrienal, em conformidade com a Estratégia Transversal de Monitoramento, Gestão, Avaliação e Transparência (ET-MGAT).
O GT é composto por representantes de 11 departamentos e secretarias do MMA, organizados de acordo com as competências de cada unidade na coordenação e execução dos planos, e será coordenado pela Secretaria Nacional de Mudança do Clima. Além disso, poderá convidar representantes de órgãos públicos, entidades privadas e da sociedade civil para participar de suas reuniões, sem direito a voto. Sua atuação deve ocorrer de forma articulada com os Subcomitês de Mitigação, de Adaptação e de Monitoramento e Avaliação do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM).
Subsídios aos combustíveis fósseis
Em resposta à alta dos preços internacionais do petróleo decorrente da escalada da crise geopolítica no Oriente Médio, o Governo Federal anunciou um pacote temporário de subsídios e desonerações tributárias para amortecer o repasse de aumento nos preços domésticos dos combustíveis. Instituído por meio da Medida Provisória nº 1.358/2026, o pacote incluiu uma subvenção econômica de R$ 0,44 por litro para a gasolina e R$1,12 por litro para o diesel. Paralelamente, adotou medidas tributárias, incluindo a isenção temporária de PIS/Cofins sobre o diesel, o biodiesel e o querosene de aviação (QAV), além de prorrogar a subvenção ao GLP.
Embora justificadas como medidas emergenciais para conter a inflação e preservar o poder de compra da população, as medidas ampliam temporariamente o apoio público aos combustíveis fósseis, em tensão com os compromissos de transição para longe desses combustíveis assumidos pelo Brasil. Além disso, os benefícios diretos dos subsídios à gasolina tendem a se concentrar nas famílias de renda média e alta, que possuem maior acesso a veículos particulares, levantando questionamentos sobre a eficiência distributiva da política e o custo de oportunidade do uso de recursos públicos que poderiam ser direcionados a investimentos em transporte público e adaptação climática.
O custo estimado para os cofres públicos será de R$ 6,8 bilhões. Como forma de compensar parcialmente a renúncia fiscal, o governo instituiu um imposto temporário sobre as exportações de petróleo bruto. Os subsídios foram prorrogados até 26 de agosto de 2026, enquanto a MP permanece em tramitação no Congresso Nacional, com vigência até 23 de setembro de 2026.
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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.
2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO