A Copa do Mundo mais quente da história (até agora) chega ao fim, lembrando-nos de que vivemos uma época de eventos extremos mais frequentes e intensos. O estádio onde será a final entre Argentina e Espanha, em Nova Jersey (região de Nova York), foi encoberto nos últimos dias pela fumaça decorrente dos incêndios florestais no Canadá.
Segundo a empresa suíça IQAir, que monitora a qualidade do ar em tempo real, a cidade de Nova York acordou nesta sexta-feira (17) com níveis insalubres de poluição, chegando a um Índice de Qualidade do Ar de 188 (AQI, na sigla em inglês). Outras localidades nos Estados Unidos também sofrem com o evento. Detroit registrou a pior qualidade de ar do mundo nesta sexta, com um AQI 222 – mas esse índice ainda é bem melhor do que os impressionantes AQI 600 atingidos na véspera. Com valores acima de 100, o ar é considerado insalubre para grupos de risco e, acima de 150, para todos.
A World Weather Attribution, consórcio internacional de cientistas climáticos, afirmou que a maior recorrência e intensidade dos incêndios florestais devem ser atribuídas às mudanças climáticas. O aquecimento global tornou a temporada de incêndios no leste do Canadá cerca de 50% mais intensa. A falta de umidade na vegetação e o solo ressecado transformaram as florestas boreais em combustível altamente inflamável. O país enfrenta, neste momento, mais de 850 focos de incêndios florestais.
O calor extremo marcou o tom de muitos jogos desta Copa. Paraguai x França registrou uma sensação térmica de 42°C. E três jogos foram disputados com sensação térmica de 40°C (Argentina x França, Colômbia x Senegal e Brasil x Noruega). O sindicato internacional de jogadores, a FIFPRO, recomenda que partidas de futebol sejam repensadas a partir do Índice de Temperatura de Globo e Bulbo Úmido, que mede o estresse térmico no corpo (WBGT, na sigla em inglês). Partidas com um WBGT acima de 28°C devem ser adiadas ou canceladas por questões de segurança. A entidade também recomenda pausas para hidratação e resfriamento quando o valor atinge 26°C.
Pela primeira vez, todas as partidas da competição tiveram duas pausas para hidratação – uma em cada tempo. Adotadas como uma medida de adaptação, essas pausas acabaram no centro do debate sobre o quanto interferiram no desenrolar esportivo ou se, na verdade, foram motivadas por razões comerciais.
A FIFA também inaugurou seu protocolo para tempestades nesta Copa. Durante esse mês de competição, o protocolo de tempestades e raios foi ativado e provocou interrupções diretas em três partidas: França x Iraque, México x Equador e México x Inglaterra. No entanto, a FIFA não possui um protocolo específico para lidar com a fumaça decorrente de incêndios florestais. Previsões desta sexta-feira indicam que a situação deva melhorar até domingo. O possível alívio deve vir com a chuva prevista para sábado. A cerimônia de encerramento promete, além do jogo entre Argentina e Espanha, um mega espetáculo musical, com shows de Madonna, Shakira, BTS e Justin Bieber. Diante dos elevados custos logísticos e financeiros de um eventual adiamento, não é exagero dizer que os organizadores devem estar fazendo a dança da chuva.