(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
Cúpula de calor (heat dome) é como vem sendo chamada a onda de calor que assola a Europa. O início de verão no hemisfério Norte chegou quebrando recordes históricos de temperaturas em diversos países, principalmente na Europa Central e Oriental, mas também no Sudeste Asiático.
No Reino Unido, as temperaturas ficaram quase insuportáveis justamente durante a Semana Climática de Londres. Em uma trágica coincidência, eventos para discutir a adaptação a um mundo mais quente tiveram de ser cancelados por conta do calor extremo. Na França, a tradicional Fête de la Musique, que celebra o início do verão, ocorreu sob 40°C, com restrições, como a proibição do consumo de bebidas alcoólicas nas ruas durante a celebração. Em meio ao estresse térmico, a Torre Eiffel foi fechada e o Canal Saint Martin foi habilitado às pressas para servir como alternativa para o resfriamento dos foliões em Paris. Uma medida de adaptação que, se mal implementada, pode terminar em tragédias: o país já registra mais de 50 mortes por afogamentos, em lugares de nado proibido.
Na sexta-feira (26), Amsterdã chegou a 39°C. Ar-condicionados, mais comuns em países tropicais, são escassos no velho continente. Uma solução que ajuda o resfriamento, mas que incorre em gastos elevados de energia elétrica, em meio a um cenário geopolítico desfavorável para o fornecimento energético.
No Sudeste Asiático, na Índia, Bangladesh e Paquistão, as temperaturas médias nas últimas semanas chegaram a 43°C. Nesta sexta-feira (26), a Índia registrou a primeira morte de um trabalhador em atividade atribuída ao estresse térmico em 2026: um feirante em um mercado municipal.
Análise da World Weather Attribution (WWA) sobre a onda de calor na Europa foi categórica: as mudanças climáticas provocadas pelo ser humano aumentam a probabilidade e a intensidade dos dias de calor extremo no verão europeu, como nesta semana. E a principal causa dessas mudanças no sistema climático do planeta é a queima de combustíveis fósseis.
De acordo com a WWA, junho é o mês do ano cujas médias de temperaturas estão se elevando mais rapidamente; as máximas diárias de junho têm se elevado de forma mais acentuada do que as mínimas, ainda que ambas estejam em ascensão, sendo que as máximas estão crescendo ao triplo da velocidade do aquecimento global, e as mínimas, ao dobro. Isto indica que junho, que não era historicamente o mês em que os recordes de temperatura eram batidos na Europa, está se tornando um período que requer atenção. Esse tipo de mudança deve ser acompanhado por adequação de governança para o risco do calor extremo.
Cerca de 489 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência de problemas de saúde associados ao calor extremo. Desse total, 45% das mortes ocorreram no Sudeste Asiático e 36% na Europa, evidenciando que o calor já é uma das ameaças climáticas mais letais do mundo. Várias regiões europeias implementaram, após uma onda de calor em 2003, governanças para esse risco climático, incluindo sistemas de alerta precoce, planos de ação de saúde e medidas de preparação, diz o relatório da WWA. Entretanto, um evento como o atual tem testado a capacidade de resposta do que foi planejado. Os cientistas citam um dos hospitais britânicos que precisou declarar incidente crítico devido à demanda excepcional, restringindo seus serviços a emergências com risco de morte e redirecionando pacientes não urgentes a outros lugares.
Proteger as populações mais vulneráveis exige uma combinação de medidas de adaptação que vão muito além da expansão do uso de ar-condicionado, incluindo mais arborização urbana, redução das ilhas de calor criadas pelo excesso de concreto, flexibilização das jornadas de trabalho presenciais durante eventos extremos e o fortalecimento de sistemas de alerta. Ao mesmo tempo, essas ações precisam ser acompanhadas de uma transição para longe dos combustíveis fósseis, única forma de limitar a intensificação desses eventos no futuro. No presente, já sofremos as consequências do acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera desde a Revolução Industrial. Portanto, não há tempo para somente agir na redução da emissão desses gases. Para salvar vidas, é preciso urgência também para adaptar-se a um mundo mais quente, de eventos extremos mais frequentes e mais intensos.
GRÁFICO DA SEMANA
A frota brasileira de veículos eletrificados aumentou mais de 220 vezes em cinco anos, chegando a 396,8 mil unidades licenciadas até 2025. Pela primeira vez, o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional (BEN) de 2026, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), traz dados do consumo de eletricidade no setor de transporte rodoviário.
O Gráfico da Semana mostra a evolução da frota de caminhões, ônibus, automóveis e veículos comerciais leves elétricos licenciados desde 2020 e o que isso acarretou em demanda energética. O aumento significativo foi puxado pelos carros elétricos e atribuído ao aumento de modelos disponíveis, à queda nos preços e à maior autonomia desses veículos.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
Com R$ 42,5 bilhões, o Fundo Clima é o principal instrumento para financiar a agenda climática no Brasil. O Tá Lá no Gráfico desta semana mostra como ele funciona e por que ele precisa estar alinhado ao Plano Clima e às metas climáticas do país, apoiando, com transparência, iniciativas que o mercado sozinho não bancaria.
ABC DO CLIMA
PNMC: A Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), instituída pela Lei nº 12.187, de 2009, estabeleceu pela primeira vez no Brasil objetivos, diretrizes e instrumentos para o enfrentamento da mudança do clima, alinhando o país aos compromissos assumidos no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). A política prevê ações de mitigação e adaptação climática compatíveis com o desenvolvimento econômico-social, buscando a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais.
Entre seus principais instrumentos estão o Plano Clima, o Fundo Clima e os Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento nos biomas (PPCDs).
Por ter sido criada antes do Acordo de Paris, a PNMC apresenta limitações como a ausência de metas explícitas de neutralidade climática. O governo federal elaborou uma proposta de atualização submetida à consulta pública no final de 2025. Até o momento, a proposta está em fase de consolidação, sem retorno final à sociedade.
Em busca de informações sobre o mapa do caminho brasileiro
Provocada por meio de ofício assinado pelas três câmaras consultivas do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), a Casa Civil da Presidência ainda não apresentou propostas de um mapa do caminho para o fim da dependência dos combustíveis fósseis no Brasil. O desenho do roadmap brasileiro foi determinado por despacho presidencial em fevereiro deste ano. O ofício foi enviado à Casa Civil em 27 de maio e, quase um mês depois, continua sem resposta. A informação foi compartilhada em reunião ordinária da Câmara de Participação Social do CIM, na qual o Instituto Talanoa tem assento.
Na mesma reunião, foi informado que o processo de revisão de um novo projeto de lei da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) deve ser concluído em 10 de julho, ainda sem previsão de prazo para envio ao Congresso. Um dos grupos de trabalho que as câmaras consultivas do CIM integram discute regras para a transferência de resultados de mitigação, no âmbito do Acordo de Paris.
O processo de monitoramento do Plano Clima segue com o estabelecimento de uma linha de base para o acompanhamento de 1.057 ações do plano, tanto de mitigação como de adaptação, que constituirão o primeiro ciclo de monitoramento anual, previsto para ser concluído no final deste ano.
A Caravana Adapta+Escolas chega à Amazônia
A Caravana Adapta+Escolas, promovida pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), com apoio dos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Educação e da Saúde; GIZ, UNICEF, Instituto Talanoa e Instituto Alana, chegou ao bioma amazônico com etapas ocorridas em Manaus, no dia 22 de junho, e em Belém, prevista para 30 de junho.
Em sua etapa de abertura, no Distrito Federal, a iniciativa apresentou e assinou o Protocolo Adapta+Escolas, documento que propõe a incorporação da adaptação climática nos processos pedagógicos e incentiva a destinação de recursos para ações permanentes de educação climática e adaptação no ambiente escolar.
Em Manaus, esse debate é urgente diante do aumento dos riscos associados ao calor extremo. Pesquisa recente aponta que Manaus aparece entre as cidades brasileiras mais vulneráveis ao calor extremo, reforçando a urgência de políticas públicas que preparem escolas e estudantes para lidar com esses impactos da crise climática.
Para a Amazônia, adaptar escolas também significa reconhecer as especificidades territoriais. Em muitas comunidades ribeirinhas, o calendário escolar é atravessado pelo regime dos rios, pelas cheias e secas, pela logística de transporte e pelo acesso a serviços básicos. Além disso, a estrutura das escolas muitas vezes funciona como principal ponto de apoio durante eventos extremos; quando fechadas, as famílias também ficam sem essa rede de suporte. Por isso, o Protocolo Adapta+Escolas pode contribuir para orientar respostas mais adequadas às realidades locais, apoiando escolas que já vivem os efeitos da crise climática sobre o direito à educação.
Data clima+ decola, mas ainda não está no ar
Uma plataforma com dados climáticos oficiais foi lançada na quinta-feira pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. O DataClima+ reunirá informações do Adapta Brasil, do Sirene e do Sinapse, que já apresenta dados sobre vulnerabilidades climáticas, de redução de emissões e de impacto de políticas públicas, respectivamente. Além desses sistemas, que serão aperfeiçoados, a plataforma vai apresentar dados de acompanhamento dos compromissos climáticos na Convenção do Clima e também sobre financiamento climático. A previsão é que a plataforma funcione plenamente até 2028. Parte dela deve estar disponível ainda neste ano.
BNDES e economia florestal
O BNDES divulgou um balanço dos recursos mobilizados para o setor florestal brasileiro. Segundo o banco, a estratégia BNDES Florestas já direcionou cerca de R$ 14,1 bilhões para uma plataforma de investimentos que reúne iniciativas como Florestas Crédito, ProFloresta+, Floresta Viva, Arco da Restauração, concessões florestais, participações e investimentos, inovação e certificação de carbono.
A estratégia busca estruturar o ecossistema financeiro de uma nova relação econômica com a floresta, baseada na restauração ambiental e na bioeconomia. Como resultado das ações apoiadas pela estratégia, foram gerados cerca de 86 mil empregos verdes e capturadas aproximadamente 66 milhões de toneladas de CO₂.
Um conselho planetário pelo clima
Na Semana de Clima de Londres – onde informamos acima que o protagonista foi o calor extremo –, o grupo The Elders (Os Anciãos, fundado em 2007 por Nelson Mandela, reunindo ex-chefes de estado e líderes globais) divulgou uma declaração de apoio à criação de um Conselho Planetário das Nações Unidas para apoiar em ações mais efetivas para lidar com a emergência climática e outras crises ambientais. A ideia de um conselho climático na ONU foi lançada em 2024 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.
2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO