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O lançamento integral do Plano Clima nesta semana marcou a publicação dos últimos documentos da espinha dorsal da política climática brasileira que ainda não eram conhecidos: as cinco Estratégias Transversais para Ação Climática aprovadas pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), na segunda-feira (16). Paralelamente à elaboração do plano, nos últimos três anos, muitas das ações já vinham sendo implementadas, inclusive com resultados, como as medidas de combate ao desmatamento. Ou o aperfeiçoamento de instrumentos de financiamento, como o Fundo Clima, que, apontamos na semana passada, requer alinhamento à política nacional.
Na estratégia de Monitoramento, Gestão, Avaliação e Transparência, estabelecem-se ciclos conectados às entregas dos compromissos do Brasil à Convenção do Clima, sob o Acordo de Paris. Não há dúvidas de que serão necessários ajustes de rota – ou mesmo a construção de caminhos que são urgentes e não são divulgados, como o mapa de nossa trajetória para longe dos combustíveis fósseis.
Em maio, iniciam-se as coletas para a construção da linha de base do monitoramento. Ao fim do ano, deve ser entregue o primeiro Relatório de Monitoramento Anual do Plano Clima pelo CIM. Há cronogramas anuais traçados até 2035, quando termina a vigência do atual documento, e um desenho do que seria a continuidade dos ciclos anuais, bienais e quadrienais para o próximo Plano Clima.
Neste primeiro ano de operação plena, o plano enfrenta o desafio de seguir avançando em um ano eleitoral e construir bases de governança e alcançar capilaridade suficiente para perdurar como política de estado, não de governo. Que neste e nos próximos anos, haja mesmo muito a monitorar, gerir, avaliar, com transparência.
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GRÁFICO DA SEMANA
Do ponto de vista humanitário, as guerras são uma calamidade visível. Do ponto de vista climático, há mais argumentos para cessá-los: do financiamento, reduzido com a escalada de recursos que passam a ser destinados a fins militares, às emissões de gases de efeito estufa nos confrontos. O Gráfico da Semana mostra que, se as forças militares fossem um país, suas emissões as colocariam entre as nações mais emissoras do planeta.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
Um em cada quatro brasileiros das classes A, B e C afirma que já precisou sair de casa em decorrência de um evento extremo, segundo pesquisa da Ipsos para o Instituto Talanoa. O levantamento traz dados inéditos sobre a percepção do brasileiro a respeito de adaptação às mudanças climáticas.
O estudo mostra que a população aprova a ideia de que novas construções devam considerar as mudanças climáticas. A medida tem apoio de 63% dos entrevistados. A aprovação cresce para 76% se a obra for financiada por recursos públicos.
Neste Tá Lá no Gráfico, confira os principais resultados da pesquisa que contou com 1.000 entrevistas por meio de painel online, em dezembro de 2025, com amostragem nacional representativa por gênero, faixa etária, região das classes A, B e C.
As abelhas estão entre os organismos mais vulneráveis à mudança do clima, sua sobrevivência depende de condições climáticas relativamente estáveis e da sincronia com os ciclos de floração das plantas. O aumento das temperaturas, a maior frequência de eventos extremos e as alterações nos regimes de chuva comprometem a continuidade de diversas espécies de abelhas, representando uma ameaça direta aos sistemas alimentares, mostra esta edição do Tá Lá no Gráfico. Polinizadores são responsáveis pela reprodução de grande parte das culturas agrícolas que compõem a base da alimentação humana e sua perda pode agravar desigualdades alimentares, afetando principalmente agricultores familiares e regiões mais vulneráveis, onde a diversificação produtiva depende fortemente da polinização natural.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
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ABC DO CLIMA
Restauração Florestal: É o processo de recuperação da vegetação nativa em áreas degradadas ou desmatadas, com o objetivo de restabelecer a estrutura, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos daquele ambiente, como a regulação hídrica e o sequestro de carbono atmosférico. Pode ser realizada por diferentes estratégias, incluindo a regeneração natural (passiva ou assistida), a partir da proteção e monitoramento da área, plantio de espécies nativas via mudas e sementes e, ainda, por Sistemas Agroflorestais (SAFs), a depender das condições de cada ecossistema.
A restauração da vegetação nativa é um dos principais pilares do Plano Clima, com papel central tanto na mitigação quanto na adaptação às mudanças climáticas. Na Estratégia Nacional de Mitigação, a meta é mais do que dobrar a captura de carbono em propriedades rurais por meio da restauração florestal, alcançando 235 milhões de toneladas de CO₂e até 2035, o que corresponde a cerca de 30% da redução total de emissões prevista. Em adaptação, a restauração é a base para o Plano Temático de Biodiversidade e compõe as Soluções Baseadas em Ecossistemas (SBEs). A meta é recuperar pelo menos 12 milhões de hectares até 2035.
Leilão de Reserva de Capacidade
Nesta semana, foi realizado o Leilão de Contratação de Reserva de Capacidade na forma de potência (LRCAP) de 2026. Na primeira etapa, na quarta-feira (18), foram contratadas usinas hidrelétricas e termelétricas a carvão mineral e gás natural, com prazos contratuais de 15 e 10 anos, respectivamente. Na segunda etapa (20), foram contratadas seis usinas movidas a óleo combustível, diesel e biodiesel, com contratos de três anos.
Apesar de o Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ter afirmado que este seria “um dos últimos leilões de energia não renovável contratados pelo governo”, o LRCAP 2026 resultou, na primeira etapa, na contratação de 90 usinas termelétricas a gás natural e 3 a carvão mineral, cujos custos serão arcados pelos consumidores finais. Segundo o Instituto Arayara, o leilão adiciona 20,2 GW de capacidade fóssil ao Sistema Interligado Nacional, com um custo aproximadamente 93% superior ao da energia proveniente de fontes renováveis.
Entre as duas etapas, no dia 19, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) apresentou um pedido de suspensão do leilão, apontando fragilidades estruturais no modelo adotado, especialmente nas condições de competitividade e na composição tecnológica. De acordo com o MPTCU, a forte predominância de termelétricas em detrimento da expansão hidrelétrica sugere um viés que ultrapassa critérios técnicos ou de mercado, indicando possíveis distorções no desenho regulatório e na arquitetura do leilão, o que afasta o planejamento energético de princípios de sustentabilidade e de justiça tarifária. Não houve liminar, e o certame acabou ocorrendo.
Fundo de Repartição de Benefícios
O Fundo Nacional para a Repartição de Benefícios (FNRB), instituído pela Lei nº 13.123 em 2015 é o principal mecanismo brasileiro para operacionalizar a repartição de benefícios decorrentes do uso de recursos genéticos da biodiversidade e de conhecimentos de povos e comunidades tradicionais.
Nesta semana, foi aprovado o Plano de Salvaguarda Socioambiental do Fundo, juntamente com a atualização de seu Manual de Operações. A medida é fundamental para garantir a proteção dos direitos dos povos e comunidades no processo de compensação financeira, evitando a apropriação indevida de recursos e assegurando critérios socioambientais no uso dos recursos.
O Fundo vem operando de forma lenta desde sua criação, devido a desafios de governança. No entanto, seu pleno funcionamento está diretamente ligado à implementação do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) e pode desempenhar um papel estratégico na agenda climática. Ao se consolidar como um mecanismo eficiente de financiamento, o FNRB pode impulsionar cadeias produtivas baseadas na biodiversidade, contribuindo para as estratégias de mitigação e adaptação climática.
Mapeamento dos manguezais
1,2 milhão de hectares. Essa é a extensão da faixa de manguezais em território nacional, dado apresentado durante a atualização de mapeamento do Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (Pró-Manguezal), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Os manguezais são um ecossistema fundamental para a captura de carbono. Dados recentes e surpreendentes confirmam que sua capacidade de armazenamento é de três a cinco vezes maior que a da floresta amazônica.
Encontro de negociadores climáticos em Paris
O Fórum de Especialistas em Mudanças Climáticas (CCXG) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ocorreu em Paris nesta semana, foi, para muitos negociadores, o primeiro encontro presencial desde Belém. A programação esteve voltada para discussão de questões em aberto da decisão sobre o Objetivo Global de Adaptação (GGA), assim como o segundo Balanço Global (GST2), com finalização prevista para 2028.
Tratou-se de um momento para testar posições sobre estas duas temáticas e compreender quais os desafios comuns a serem enfrentados em Bonn, em junho, para avançar na operacionalização do GGA e em sua interconexão com o próximo ciclo do GST.
A Talanoa esteve presente acompanhando as discussões, que ocorreram sobre a regra de Chattam House, onde as informações não podem ser atribuídas aos oradores.
Pré-COP 31 tem data
O governo de Fiji anunciou, durante reunião dos ministros de Mudanças Climáticas do Pacífico, a data da Pré-COP 31: de 5 a 8 de outubro. Lynda Tabuya, ministra de Informação, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, divulgou que o encontro contará com uma “Talanoa ministerial”, num formato menos tradicional de negociações multilaterais. Talanoa é uma tradição das comunidades insulares do Pacífico, na qual as pessoas conversam sobre temas difíceis até encontrarem soluções em conjunto para esses problemas comuns.
No Boletim Fundo Clima de março
Com a aprovação do Plano Anual de Aplicação de Recursos (PAAR) pelo Comitê Gestor do Fundo Clima em 12 de março, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) poderá contar com o repasse de recordes R$ 27,5 bilhões do Orçamento da União para empréstimos do Fundo Clima em 2026. O principal mecanismo de financiamento climático do país vai funcionar quase integralmente com recursos vindos do petróleo, algo inédito no histórico recente do Fundo Clima, como inédito é o alto volume de dinheiro que movimenta neste ano.
Acesse o boletim na íntegra

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO