2025: um ano cheio!

(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)

Para quem acreditava já ter visto todos os paradoxos possíveis na política climática, 2025 impôs um novo patamar de contradições. O terceiro ano de mandato da gestão Lula foi marcado por avanços institucionais importantes, mas também por retrocessos estruturais, tanto no Brasil quanto no cenário internacional. Entre perdas simbólicas e reviravoltas geopolíticas, como a morte do Papa Francisco e o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, o debate climático oscilou entre diplomacia ambiciosa e movimentos abertamente anticlimáticos.

No plano internacional, consolidou-se o entendimento de que é necessário triplicar o financiamento para adaptação climática, reafirmado como resultado da COP30, realizada em Belém. Ao mesmo tempo, países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) anunciaram a destinação de 5% de seus PIBs a gastos militares, evidenciando a disputa por prioridades orçamentárias em um contexto de tensões geopolíticas.

No Brasil, o Plano Clima avançou na elaboração de planos setoriais de mitigação e adaptação, mas enfrentou forte resistência do setor agropecuário quanto à assunção de compromissos mais robustos de redução de emissões. Paralelamente, o país registrou queda pelo quarto ano consecutivo no desmatamento na Amazônia e a segunda redução seguida no Cerrado, além da diminuição dos alertas de fogo após medidas de coordenação federativa e aprimoramentos normativos, como a desburocratização de repasses do Fundo Nacional de Meio Ambiente e o fortalecimento do manejo integrado do fogo.

Entretanto, 2025 também foi marcado por um dos maiores abalos à institucionalidade ambiental: a aprovação da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental. A ampliação de instrumentos como a Licença por Adesão e Compromisso (LAC) e a redução de exigências técnicas fragilizam o controle preventivo de impactos, transferindo maior peso ao monitoramento posterior e aumentando riscos socioambientais.

A realização da COP30 em Belém não produziu mudanças substantivas no comportamento do Congresso Nacional em relação à agenda socioambiental e climática. Embora o Fundo Social do Pré-Sal tenha incorporado critérios climáticos, parte relevante de seus recursos foi direcionada para apoiar o setor agropecuário em perdas decorrentes de eventos extremos. A Conferência coincidiu com avanços históricos em governança territorial, incluindo novas demarcações de Terras Indígenas, reconhecimentos de territórios quilombolas e criação de assentamentos, fortalecendo a base territorial necessária às metas de descarbonização.

No campo das finanças climáticas, o Fundo Clima expandiu sua capacidade operacional, com apoio da equipe econômica e leilões do programa EcoInvest. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) foi formalmente lançado, com aportes internacionais iniciais, sinalizando potencial de alavancagem futura.

Já no setor energético, persistiram as ambiguidades. Termelétricas a carvão tiveram sua operação estendida até 2040, como previsto em 2022, e o Plano Decenal de Expansão 2025-2034 reafirmou o papel do gás natural na matriz, sob justificativas controversas do ponto de vista climático. Além disso, foi concedida licença para pesquisa de petróleo na Margem Equatorial, decisão criticada por especialistas por ampliar riscos de emissões futuras.

Assim, 2025 encerrou-se como um ano de fortes contrastes: avanços em financiamento, governança territorial e redução do desmatamento coexistiram com retrocessos regulatórios e escolhas energéticas que tensionam as metas climáticas nacionais. O saldo é de complexidade e disputa, com 2026 despontando como ano decisivo para a coerência entre discurso e implementação.


Boa leitura!

Tá Lá no Gráfico

O ano de 2025 confirmou a escalada da crise climática: após 2024 ter sido o mais quente da história, 2025 manteve-se no pódio do calor, aproximando o planeta do limite crítico de 1,5°C de aquecimento. Os impactos foram sentidos no cotidiano, do calor extremo no Carnaval a episódios de seca, tornados e ciclones, enquanto grupos contrários à agenda climática continuam atuando para enfraquecer florestas e legislações.

No ano da COP realizada na Amazônia, tornou-se ainda mais evidente a urgência de enfrentar as causas do aquecimento global e fortalecer a adaptação a um clima mais instável

O último Tá Lá no Gráfico de 2025 relembra alguns gráficos de destaque entre as 45 narrativas visuais publicadas pela Política por Inteiro ao longo deste ano.

Janeiro (#20)

Fevereiro (#24)

Março (#28)

Abril (#31)

Maio (#36)

Junho (#38)

Julho (#44)

Agosto (#49)

Setembro (#52)

Outubro (#57)

Novembro (#60)

Dezembro (#61)

Clique nas capas para ir direto aos infográficos!

Monitor de Atos Públicos

Foram captados 41 atos relevantes para a política climática brasileira em dezembro. A classe mais frequente foi Regulação com 29 normas e o  tema mais captado no mês foi Terras e Territórios com 17 atos. Nas agendas climáticas, Governança seguiu em destaque, com 13 normas captadas.

Retrospectiva 2025

Em 2025 o Monitor de Atos Públicos captou 638 normas relevantes para a política climática, emitidas pelo Governo Federal. A distribuição por ministério de origem permite avaliar a transversalidade da pauta no último ano. A Presidência da República, incluindo a Casa Civil, foi responsável pela maior parte dos atos emitidos considerados relevantes para o clima. Entre os ministérios, a pasta da Justiça e Segurança Pública e do Desenvolvimento Agrário ficaram à frente de Meio Ambiente e Clima. Isto se deve à emissão das normas de emprego da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) em resposta a conflitos em Terras Indígenas e Unidades de Conservação, e de reconhecimento de Territórios Quilombolas e assentamentos, respectivamente.

A agenda de Governança apresentou o maior número de atos, seguida por normas da agenda de Mitigação. Indicando que as políticas públicas ainda se encontram em fase de concepção e planejamento, deixando uma lacuna de resultados nas agendas de mitigação e, principalmente, adaptação climática. A Classe que ocupou o primeiro lugar nos 12 meses de monitoramento Regulação, já o tema mais frequente ao longo do ano foi Terras e Territórios.

Agendas

Governança 

Ao longo de quase todos os meses de 2025, a agenda de governança ganhou centralidade, refletindo o estágio do ciclo de políticas públicas em que o país se encontra, além do esforço de consolidação da arquitetura institucional para a realização da COP30 no Brasil.

As etapas de definição de agenda, formulação e tomada de decisão, assim como revisões normativas permaneceram predominantes na política climática brasileira, evidenciando a lacuna entre planejamento e implementação, um dos principais desafios do ciclo das políticas públicas. Nesse contexto, foram criados diversos Grupos de Trabalho, Comissões e Comitês, nem sempre acompanhados de entregas concretas. Apesar da ampliação de instrumentos regulatórios e estratégicos voltados à descarbonização, medidas simultâneas de expansão de fontes fósseis comprometeram a política de transição energética.

A governança fundiária e territorial seguiu reativa, frequentemente pautada por conflitos em Terras Indígenas e crimes ambientais em Unidades de Conservação. Ao mesmo tempo, novos planos e programas, direta ou indiretamente relacionados à agenda climática, foram instituídos ou reformulados para garantir o alinhamento ao Plano Clima, às metas globais de biodiversidade e à ampliação de instrumentos econômicos e territoriais de conservação.

Diante desse cenário, a expectativa para 2026, é que com a governança estruturada, o país avance de forma mais consistente em implementação, geração de resultados e avaliação das políticas em curso.

Mitigação 

A agenda de mitigação em 2025 se concentrou no reordenamento territorial, com ênfase em direitos coletivos, conservação ambiental e reforma agrária. A ampliação do reconhecimento e da titulação de territórios quilombolas, a homologação e constituição de terras indígenas e a criação de Projetos de Assentamento e de Desenvolvimento Sustentável sob gestão do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária estruturaram a base dessa política.

Apesar dos avanços na criação e ampliação de Unidades de Conservação, como RPPNs, APAs, RDS e Resex, o ritmo em 2025 ficou aquém do necessário, especialmente no que se refere à demarcação e homologação de Terras Indígenas. Apesar da aceleração no reconhecimento de territórios remanescentes de quilombos e na destinação de terras públicas, a consolidação desses processos ainda avança lentamente.

Com o objetivo de cumprir as metas de redução de emissões assumidas na NDC e operacionalizadas nos Planos Setoriais do Plano Clima, o Brasil reforçou a centralidade do setor de uso da terra em sua estratégia climática. Nesse contexto, a redução drástica do desmatamento, a restauração florestal e a expansão de áreas protegidas tornam-se prioridades para 2026. Nos demais setores emissores da matriz brasileira, destacaram-se as regulamentações dos biocombustíveis incluindo desdobramentos do RenovaBio.

Adaptação 

A agenda de adaptação, ainda que tenha ganhado espaço durante o ano nas políticas públicas domésticas, como no Plano Clima e AdaptaCidades, assim como na política internacional durante a COP30, não foi muito frequente nas normas emitidas diariamente pelo poder executivo. Alguns ministérios se destacaram, como o Ministério das Cidades e o Ministério da Saúde, ao incorporarem critérios de adaptação climática nas tomadas de decisão, iniciando a institucionalização da agenda de adaptação climática.

As iniciativas tiveram ênfase em contenção de encostas, drenagem urbana, mobilidade, saneamento, recuperação de rodovias e monitoramento de infraestruturas hídricas. Esse eixo indica resposta institucional aos eventos extremos cada vez mais recorrentes, combinando obras estruturantes, crédito com recursos do FGTS e integração com políticas habitacionais, especialmente o Minha Casa, Minha Vida e o Novo PAC. No setor produtivo, os instrumentos de gestão de risco climático foram apenas pontuais.

Para 2026, a expectativa é que a agenda se torne mais habitual, de acordo com o avançar da implementação da Estratégia Nacional de Adaptação e dos objetivos de adaptação estabelecidos.

Financiamento 

No financiamento climático, foi observada a recorrência de abertura e reabertura de créditos extraordinários e suplementares, envolvendo múltiplos ministérios, especialmente os da Integração e Desenvolvimento Regional, Meio Ambiente e Mudança do Clima, Desenvolvimento Agrário e Agricultura. Esse reforço orçamentário foi, em sua maioria, destinado às ações emergenciais, reconstrução e apoio a populações e setores produtivos afetados por eventos climáticos extremos e situações de calamidade pública, o que refletiu a flexibilização de regras de execução fiscal diante de uma contextos de crise climática.

Diversos atos fortaleceram mecanismos de financiamento climático como o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (FNMC), o Fundo Nacional de Meio Ambiente e o Fundo Amazônia, além de estruturarem leilões do programa Eco Invest Brasil, medidas de prevenção e combate a incêndios florestais e iniciativas de recuperação de áreas degradadas.

Medidas relacionadas ao crédito rural se destacaram ao longo do ano, incluindo ajustes no Manual de Crédito Rural, no Proagro, no Garantia-Safra, além da ampliação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e da criação de linhas especiais para renegociação de dívidas. O esforço de uso do crédito rural como instrumento de estabilização e resiliência produtiva diante de perdas climáticas reflete a ampliação do suporte ao setor, mas aponta também para a ausência de ações de adaptação estruturadas na política agrícola, que evitem perdas e remendos fiscais.

👎 DESTAQUES DO MÊS 👍

👎 DESTAQUES DO MÊS 👍

👎 Atravessou o samba!

A sessão plenária final da COP30 foi um negócio recheado de esquisitices. Países adotaram postura resistente à condução da Presidência da COP30 (arestas que, no microcosmo diplomático, poderiam ter sido sanadas antes da Plenária, não?!). Não bastasse a Colômbia entornar o caldo ao levantar a voz com um “não é uma questão de ordem, é uma objeção, presidente!”, a sessão teve de ser suspensa por mais de uma hora, e ao retornar manteve o texto final da Decisão Mutirão. Teve até representante da Rússia acusando os resistentes de se “comportarem como crianças”, ao que foi interpelado sobre o planeta estar precisando justamente de adultos que queiram ver o mundo com os olhos de criança, para não ficarem declarando guerra por aí… Baixaria na diplomacia. Constrangedor. Diplomatas e técnicos que acompanham as negociações ano após ano dizem que ainda não tinham visto uma Plenária final arretada assim. Agora, é esperado que o espírito de mutirão baixe a animosidade. Afinal, em 2026 tem Conferência para o fim dos fósseis, com a anfitriã Colômbia, em abril, e todo o mandato da Presidência brasileira da COP, até novembro.

👍 Tá afinado! 

Após dois anos de grande esforço de especialistas e a equipe econômica do governo “abrindo caminho”, finalmente o Brasil tem uma política de Taxonomia Sustentável, a TSB. O decreto está na praça e a gente espera que classificar atividades econômicas conforme sustentabilidade e emissões seja um instrumento útil para o próprio governo rever a estrutura de subsídios do Estado brasileiro, que boicota as metas climáticas nacionais.

👎 DESTAQUES DO MÊS 👍

BRASIL

CONAMA integra a justiça climática ao rol de princípios ambientais

O Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) aprovou a Resolução nº 26.916/2025, cujo objetivo é inserir os princípios e diretrizes de justiça climática e do combate ao racismo ambiental nas políticas ambientais do país. A resolução insere no ordenamento jurídico brasileiro o reconhecimento formal de que o racismo é marca estrutural na sociedade brasileira e, portanto, gera efeitos negativos nas questões climáticas, piorando a qualidade de vida de recortes populacionais já vulnerabilizados.

A resolução que foi levada à votação definiu assim os conceitos:

– justiça climática: abordagem de combate às desigualdades socioambientais e de promoção dos direitos humanos no enfrentamento da mudança do clima, em todas as suas políticas considerando especialmente os grupos vulnerabilizados, tais como povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, agricultores familiares, pessoas negras, migrantes e deslocados, mulheres, crianças e adolescentes, idosos, pessoas com deficiência, pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e social, trabalhadores e populações em áreas de risco climático ou contaminadas e pessoas discriminadas em virtude de gênero, raça e orientação sexual, bem como a busca de uma distribuição justa dos investimentos e do tratamento de responsabilidades históricas pela mudança do clima e da proteção de garantias e direitos fundamentais.

– racismo ambiental: a discriminação institucionalizada envolvendo políticas, impactos ou diretrizes ambientais e climáticas que afetam ou prejudicam, por ação ou por omissão, indivíduos, grupos ou comunidades de forma diferenciada com base em raça ou cor, pessoas de ascendência africana e asiática, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, ciganos, refugiados, migrantes, apátridas e outros grupos raciais e etnicamente marginalizados.

A partir dessa leitura da realidade, o Conama determina que todas as políticas, projetos e empreendimentos prioritários para as avaliações do Conselho devem considerar subprincípios integrantes da justiça climática, tais como a não-discriminação, o cuidado e a assistência para com os públicos prioritários da agenda de justiça climática, bem como o combate ao racismo ambiental. 

Ao considerar a vulnerabilidade exacerbada de diversas demografias, como as populações negras e quilombolas, indígenas e tradicionais, LGBTQIA+, meninas e mulheres, idosos, crianças e pessoas com deficiência, o diploma jurídico dita que as diretrizes do fomento à justiça climática baseiam-se em diversas ações positivas. Notavelmente, destaca-se a reparação emergencial aos territórios que passarem por eventos climáticos e já tiverem a constatação de danos ambientais previamente levantados, evitando a produção de impactos sinérgicos e cumulativos; e o reconhecimento e aporte financeiro às iniciativas e tecnologias sociais de enfrentamento das mudanças climáticas e do racismo ambiental dos povos e comunidades tradicionais e da agricultura familiar.

A atualização da principiologia ambiental do País possuiu participação da sociedade civil organizada, destacadamente, do Movimento Negro e passa a refletir o que especialistas em teoria política determinam como a terceira fase do ambientalismo: a imersão de perspectivas sociais dentro dos paradigmas da conservação ambiental e das mudanças climáticas.

E o vento levou: a cada ano, sistema energético de São Paulo se mostra mais vulnerável a ventanias

Em novembro de 2023, rajadas de vento de mais de 90 km/h e chuva provocaram apagão na cidade de São Paulo e na Região Metropolitana. Foram mais de cinco dias até que o fornecimento fosse restabelecido. Em outubro de 2024, novamente, ventos de quase 90 km/h e mais um apagão. Em setembro deste ano, a ventania atingiu de 80 km/h a 98 km/h, derrubando árvores, apagando semáforos e deixando meio milhão de imóveis sem luz. E, agora, mais um “vendaval histórico” traz caos e prejuízos bilionários à maior cidade do país.

Além do fenômeno global da mudança do clima, provocada pelas emissões de gases de efeito estufa e o consequente aquecimento do planeta, o clima na cidade de São Paulo se modifica pela urbanização das últimas décadas, com desmatamento e aumento da impermeabilização do solo.

O Plano de Ação Climática do Município de São Paulo 2020-2050 (PlanClimaSP) projeta cenários para o município com elevação na temperatura média entre 2°C e 3°C até o final deste século. Já se observam elevação da temperatura média e chuvas mais intensas concentradas em menos dias. A temperatura do ar em São Paulo subiu mais de 2°C no último século.

Confira nossa análise completa.

O ano termina com o Plano Clima aprovado e o enorme desafio de ser implementado

Com mais de dois meses de atraso, consumidos numa difícil negociação com representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o Conselho Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) aprovou o plano que aterrissa os compromissos brasileiros na Convenção do Clima.

Na distribuição final dos esforços para cortar as emissões de gases de efeito estufa no Plano Clima, a agropecuária teve sua participação reduzida de 37% para 21% para o alcance da meta mais ambiciosa para 2035. Ao final desse período, continuará sendo o setor que mais emite gases responsáveis pelo aquecimento global.

Leia a análise da Política Por Inteiro.

MUNDO

De Teerã a São Paulo: o risco de escassez hídrica e a urgência da adaptação

Teerã viveu em 2025 a sua pior crise de água em quatro décadas e, nos últimos dias, autoridades elevaram o alerta ao máximo. A capital iraniana, com uma população de aproximadamente 10 milhões de pessoas, corre o risco real de se tornar inabitável nas próximas semanas se as chuvas não retornarem. A escassez hídrica afeta toda a região metropolitana, que engloba uma área com cerca de 18 milhões de moradores. A crise de Teerã não é um caso isolado. Ela ilustra um padrão global: megacidades construídas em regiões áridas, com desafios de abastecimento de água, expostas à mudança climática, à má gestão e ao uso insustentável de recursos naturais. A combinação desses fatores transforma crises pontuais em ameaças sistêmicas.
No Brasil, há governança mais consistente para a gestão dos recursos hídricos e um acúmulo de experiência e políticas públicas. O que não quer dizer que estejamos livres do risco de faltar água – ainda mais quando vemos triunfar os desmontes dos sistemas de proteção ambiental, como o caso do licenciamento ambiental. 

As projeções para 2030 apontam que 71% dos 5.570 municípios brasileiros enfrentarão risco alto ou muito alto de falta de água. A possibilidade de escassez hídrica é um dos aspectos que devem direcionar as políticas de adaptação. O Plano Nacional de Adaptação, que está à espera da aprovação do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) para ser apresentado pelo Brasil à Convenção do Clima (UNFCCC), prevê reduzir para 7,5% o total dos municípios com insegurança hídrica até 2035.

Estados Unidos de Donald Trump assumem a Presidência do G20

A assunção da presidência do G20 pelos Estados Unidos despertou outra onda de ansiedade nos analistas de política externa e de política climática, visto o lapso entre a responsabilidade climática do grupo e suas efetivas entregas. 

No mesmo dia da posse, 1º de dezembro, o Departamento de Estado, comunicou seus três pilares para o exercício pró-tempore: 1.) acelerar a prosperidade econômica por intermédio da redução regulatória; 2.) destravar cadeias de suprimento de energia acessíveis e seguras, o que se lê como combustíveis fósseis; e 3.) impulsionar novas tecnologias e inovações. 

O grupo tem oscilado entre ambição retórica e entregas insuficientes. Ao anunciar prioridades centradas em desregulação e expansão de cadeias de energia “seguras”, a nova Presidência reforça exatamente a assimetria que faz o G20 perder relevância por tratar o crescimento econômico e a ação climática como agendas contrastantes, quando, na verdade, são dimensões interdependentes da transição global. Sem incorporar metas de mitigação robustas, quaisquer agendas de adaptação, prazos claros para eliminação de combustíveis fósseis e nem ao menos se comprometer com a aceleração efetiva da implementação das NDCs, o G20 continuará sendo um ator de peso nas emissões, mas leve nos resultados.

O Instituto Talanoa relembra que o G20 é responsável por cerca de 80% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto permanece estruturalmente aquém do necessário para alinhar suas economias aos objetivos do Acordo de Paris. Uma vez que a atual presidência saiu formalmente do Acordo, prevê-se o escanteamento de decisões de alinhamento socioeconômico ao clima e a recentralização de ações promotoras de dependência de petróleo e gás. Sobretudo em um momento geopolítico tenso, no qual os Estados Unidos ameaçam a Venezuela com invasão militar e guerra híbrida, sob a procuração do combate ao narcotráfico.

MONITOR DE DESASTRES

Em 2025 o Monitor de Atos públicos captou 496 atos da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil que somaram 3.104 reconhecimentos de emergência e calamidade pública nos municípios do Brasil, alguns destes atingidos mais de uma vez ao longo do ano e por eventos extremos distintos. O estado mais atingido foi o Rio Grande do Sul, seguido por Minas Gerais.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

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