Cresce previsão de gastos públicos com a emergência climática em 2025. Mas será suficiente?

Vista aérea da seca na comunidade em Manaquiri (AM). Foto: Ricardo Stuckert/PR

Os recursos públicos federais destinados ao enfrentamento da emergência climática devem ter um aumento significativo no ano em que o Brasil sediará a Conferência do Clima, a COP30. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2025 encaminhado ao Congresso prevê o valor recorde de R$ 21,2 bilhões para financiar projetos de mitigação das emissões de gases de efeito estufa e de adaptação às mudanças climáticas.

Esse dinheiro é destinado pelo projeto de lei a operações do Fundo Clima, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), tanto para empréstimos a juros reduzidos como para garantir proteção cambial e atrair investimentos estrangeiros por meio do Eco Invest, voltados à chamada “transformação ecológica”.

Uma parcela desse dinheiro vem da segunda emissão de títulos públicos verdes no mercado externo, feita em junho deste ano, quando o Tesouro Nacional captou cerca de R$ 10 bilhões. Em 2024, o BNDES já usa recursos da primeira emissão de títulos verdes soberanos feita em 2023 para financiar projetos de até R$ 80 milhões. Três contratos do Fundo Clima alcançaram até agora esse valor: um primeiro projeto de adaptação às mudanças climáticas no município de Campinas (SP), o financiamento de restauração florestal e produção de mudas na Amazônia e na Mata Atlântica da empresa re.green e a implantação de BRT entre São Bernardo do Campo e São Paulo. Valores menores foram destinados a usinas solares e projetos de eficiência energética.

O ano da COP de Belém também prevê gastos de mais de R$ 1 bilhão com a organização e a realização do evento no Pará. As despesas estão concentradas na Presidência da República, mas envolvem outros 20 ministérios, de acordo com o PLOA.

Apesar do valor recorde do Fundo Clima, muito acima das cifras historicamente destinadas ao enfrentamento da emergência climática, chama a atenção a redução, ainda que pequena, de gastos previstos no programa orçamentário destinado ao combate do desmatamento e de queimadas, além da proteção e conservação da biodiversidade. Trata-se do principal conjunto de despesas destinadas a combater a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no país. O programa tem R$ 987 milhões de autorização de gastos neste ano. Em 2025, a previsão cai para R$ 986 milhões. Isoladamente, as principais ações do programa registram pequenas altas.

Ainda no bloco de despesas da União que o Instituto Talanoa classifica como relacionadas ao uso da terra e contribuem para reduzir o aquecimento global, o PLOA aumenta a previsão de gastos com bioeconomia, de R$ 131 milhões para R$ 160 milhões, destinados em grande parte ao pagamento de transferência de renda à população pobre que vive em unidades de conservação (o Bolsa Verde), e para a demarcação e gestão de territórios indígenas (R$ 335 milhões para R$ 463 milhões). Mas cai de R$ 137 milhões autorizados em 2024 para R$ 103 milhões a previsão de gastos para o reconhecimento de territórios quilombolas.

Outro destaque do PLOA para a agenda climática é a previsão de gastos para a gestão de riscos e desastres. Neste ano, em grande parte por conta de eventos como inundações, enxurradas e deslizamentos de terras, relacionados às mudanças climáticas, o Orçamento da União tem gastos autorizados de R$ 6,2 bilhões para a gestão de riscos e desastres, sem contar com as despesas da União com a devastação do Rio Grande do Sul. Desde maio, o evento extremo no estado custou R$ 48 bilhões aos cofres da União. O PLOA para 2025 destina R$ 1,7 bilhão para o programa orçamentário de gestão de riscos e desastres, valor claramente subestimado e que tende a subir durante o ano, por meio de créditos extraordinários.

Como em anos anteriores, a proposta de orçamento de 2025 não deixa claro o montante de recursos destinado à agropecuária alinhado com a redução das emissões de gases de efeito estufa no setor. Como mostrou levantamento do Plano Safra 2024/2025, apenas 2% dos recursos destinados à agropecuária empresarial vão para investimentos em tecnologias como integração lavoura-pecuária-floresta ou recuperação de pastagens degradadas. Uma parcela do crédito rural tem juros reduzidos mediante aporte de dinheiro do Orçamento da União. A Talanoa defende que os empréstimos com juros equalizados com dinheiro público sejam integralmente destinados à agricultura de baixa emissão de carbono, o que não acontece atualmente.

Na área de energia, a terceira maior fonte de emissão de gases de efeito estufa no Brasil, depois do desmatamento e da agropecuária, chamam a atenção os investimentos crescentes em mineração, sobretudo para projetos de pesquisa mineral. O programa intitulado “Mineração segura e sustentável” passa de uma dotação de 84,7 milhões em 2024  para R$ 91,2 milhões da proposta para 2025. Minerais como lítio, cobre e terras raras são considerados fundamentais na transição energética, tanto para baterias de veículos elétricos como para a geração eólica e solar. Esse é um dos raros sinais de transição energética, ainda incipiente, no Orçamento da União. Os gastos com biocombustíveis aparecem junto com os de óleo e gás.

Os mais de R$ 21 bilhões destinados a empréstimos por meio do Fundo Clima contrastam com a parcela de recursos não-reembolsáveis do fundo, geridos diretamente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O que já era pouco neste ano (R$ 4,7 milhões) ficou menor. O PLOA destina R$ 3,5 milhões para fomentar estudos e projetos de mitigação e adaptação em 2025. O valor é inferior aos R$ 10 milhões destinados à realização da Conferência Nacional do Meio Ambiente, prevista para maio, e que tem a emergência climática como tema.

Paralelamente ao projeto de lei orçamentária para 2025, o governo divulgou estimativas de quanto deixará de arrecadar em impostos e contribuições por meio de benefícios fiscais, os chamados gastos tributários. A agricultura é o setor da economia que recebe a maior fatia de benefícios fiscais (R$ 78,7 bilhões), logo depois do regime tributário para micro e pequenas empresas. No setor de energia, o incentivo ao gás natural liquefeito, de origem fóssil, é estimado em quase R$ 3 bilhões, bem acima do incentivo de R$ 736 milhões previsto para geradores de energia eólica.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Melissa Aragão, Ester Athanásio, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Wendell Andrade, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon, Rayandra Araújo e Daniela Swiatek).

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