O falso dilema entre produtividade do agro e a agenda ambiental e climática

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Nesta semana, durante uma visita a Manaus, Flávio Bolsonaro afirmou que, se eleito, iria acabar com o que chamou de “entraves ambientais”, insistindo na contraposição entre desenvolvimento da agropecuária e legislação ambiental. No entanto, o Brasil alcançou, neste ano, um patamar de produção agrícola equivalente ao dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que os dados divulgados pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) nesta mesma semana apontaram uma redução nas emissões no Brasil, impulsionada principalmente pela queda sistemática das emissões associadas ao uso da terra (confira no Gráfico da Semana abaixo) durante este terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Os números reforçam que é possível conciliar o aumento da produtividade com a redução do desmatamento e das emissões. Embora a agropecuária continue sendo uma das principais fontes de gases de efeito estufa do país, sobretudo em razão da fermentação entérica e do uso de fertilizantes, a ideia de que a produção agrícola e a proteção ambiental são incompatíveis precisa ficar no passado.

Também devem ficar para trás os discursos e as medidas que enfraquecem a governança climática, os mecanismos de fiscalização e o financiamento climático. Zerar o desmatamento até 2030 e colocar a adaptação climática no centro das políticas públicas são compromissos que devem orientar a atuação de todas as esferas de governo.

Já vimos o filme do retrocesso antes. O monitoramento da Política Por Inteiro acompanhou todos os anos do governo Jair Bolsonaro (2019-2022), eleito com um discurso de flexibilização das leis ambientais, contrário à demarcação de terras indígenas e frequentemente em desacordo com as recomendações científicas para a agenda climática e de conservação. Bolsonaro encerrou seu mandato com 401 normas que impactaram negativamente as políticas climáticas e socioambientais do Brasil, entre portarias, decretos e instruções normativas. Nos últimos quatro anos, muitas dessas medidas foram revertidas, mas algumas deixaram marcas duradouras, como os mais de 13 mil km² de Floresta Amazônica desmatados em 2021. Com a emergência climática se acentuando, retroceder não será simplesmente uma reprise, mas pode nos levar a pontos em que não será possível buscar o equilíbrio de onde paramos.

GRÁFICO DA SEMANA

O Brasil chegou muito perto de cumprir a meta de emissões líquidas estabelecida em sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) para 2025. Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima divulgados nesta semana, as emissões do país no ano passado foram de 1.405,5 milhões de toneladas de carbono equivalente (MtCO2e). A meta declarada à Convenção do Clima é de 1.320 MtCO2e.

O Gráfico da Semana mostra que a trajetória brasileira está em queda desde 2023, puxada pela redução da participação do setor de uso da terra e florestas, em consequência da queda no desmatamento. Os setores de Agropecuária e de Energia são os principais emissores do país e, para que continuemos na rota para zerar emissões, devem ser implementadas políticas de mitigação nessas áreas.

ABC DO CLIMA

Biodiversidade: Formalizado pela Convenção sobre Diversidade Biológica, adotada na Rio-92, o conceito de biodiversidade abrange a variedade de organismos vivos, incluindo a diversidade genética, de espécies e de ecossistemas, bem como as relações ecológicas entre os seres vivos e os ambientes naturais.

O Brasil é considerado um país megadiverso, abrigando cerca de 15% das espécies conhecidas no mundo, 6 biomas e uma extensa zona costeira e marinha, além de numerosas espécies de plantas e animais encontradas exclusivamente no território brasileiro. Toda essa riqueza exerce um papel global, pois sustenta processos ecológicos e serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação do clima, o armazenamento de carbono, a ciclagem de nutrientes, a polinização e a manutenção dos recursos hídricos.

TÁ LÁ NO GRÁFICO

A energia ficou mais cara em boa parte do mundo desde o ano 2000. Essa alta foi mais intensa para a indústria no Brasil do que em outros países. O custo chega às famílias embutido em mercadorias e serviços, mostra o Tá Lá no Gráfico. Fontes renováveis fazem parte da estratégia para reduzir essa inflação.

COP da Biodiversidade 

A Conferência das Partes de Biodiversidade (CDB) começou na segunda-feira (19) em Yerevan, na Armênia. A CDB é parte integrante das três Convenções do Rio (clima, biodiversidade e desertificação). Quatro anos depois da adoção do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, a CDB avaliará os progressos das metas acordadas até 2030. O cenário não é positivo: até o momento, 45% dos países ainda não publicaram seus planos nacionais de prevenção de perdas de biodiversidade. Na América Latina, esse número cai para 39%. A CDB ocorre até o dia 30 de outubro, e a Política por Inteiro trará atualizações sobre os resultados das negociações.

IPCC sem acordo 

A 65ª reunião do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) foi suspensa na semana passada, em Adis Abeba, capital da Etiópia, sem acordo. A principal discordância entre os países foi o calendário do 7º Relatório de Avaliação do IPCC. Enquanto a maioria defende o alinhamento com o próximo Balanço Global (GST-2 ou Global Stocktake), que finaliza em 2028, um grupo de grandes emissores (como Rússia, Arábia Saudita e Índia) defendem um calendário mais longo, no qual o AR7 seria entregue em 2029, não servindo assim de insumo científico para o GST-2.

Reunião CIM

Os Subcomitês de Mitigação, de Adaptação e de Monitoramento e Avaliação, instâncias permanentes de assessoramento técnico do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), reuniram-se com Subcomitê-Executivo (SubEx) do colegiado. Na reunião, foi informado que, durante a COP31, na Turquia, o Governo Brasileiro anunciará a plataforma de monitoramento das ações do Plano Clima (IndicaClima), juntamente com a apresentação do primeiro relatório de avaliação do plano.

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Boletim Fundo Clima – Setembro 2026

Fundo Clima prevê novo recorde em 2027: proposta de gastos com operações de crédito vai a R$ 54,7 bilhões

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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.

2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

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