O menor desmatamento da Amazônia

(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)

3.335 km²: a menor taxa anual de desmatamento na Amazônia em quase quatro décadas, desde que a devastação começou a ser mensurada. Autoridades, gestores públicos, cientistas, ambientalistas e muita gente que trabalhou e trabalha arduamente, sobretudo os povos indígenas – muitas vezes sob risco de morte –, para manter a maior floresta tropical do mundo de pé comemora o dado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgado nesta sexta-feira (16). 

Não apenas a Amazônia registrou a menor taxa de desmatamento da série histórica. O Cerrado teve seu menor índice desde 2001, quando se iniciou a medição: 5.516,7 km². Nesse bioma, os incentivos para conservação exigem mecanismos mais azeitados devido aos limites maiores de supressão da vegetação permitidos por lei.

O Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) foi criado em 1988, no mesmo ano da promulgação da Constituição Federal. Em um contexto de expansão da ocupação territorial, abertura de estradas, exploração madeireira e avanço da fronteira agropecuária, o sistema passou a monitorar o desmatamento por corte raso na Amazônia Legal. Naquele ano, foram registrados 21.050 km² de área desmatada. A taxa caiu nos anos seguintes, mas voltou a crescer e atingiu, em 1995, 29.059 km², o primeiro grande pico da série histórica. Após uma redução de aproximadamente 54% até 1997, o desmatamento retomou a trajetória de alta, chegando a 27.772 km² em 2004, o segundo maior pico da série e o ano de criação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). O PPCDAm articulou diferentes frentes de atuação, como monitoramento por satélite, fiscalização, ordenamento territorial e combate às atividades ilegais. Os resultados começaram a aparecer já no ano seguinte, quando a taxa de desmatamento caiu cerca de 31%. Ao final da primeira fase do PPCDAm, em 2008, a redução acumulada em relação a 2004 foi de aproximadamente 53%. A tendência de queda se aprofundou nos anos seguintes e, em 2012, após três fases de implementação, a taxa chegou a 4.571 km² , uma redução de cerca de 84% em relação a 2004 e o menor índice da série histórica até aquele momento.

Como nem só de comando e controle se faz uma política pública, o plano também fortaleceu o ordenamento territorial por meio da criação e ampliação de unidades de conservação, especialmente em áreas sob pressão da expansão agropecuária. Entre 2003 e 2006, foram criadas e ampliadas 57 unidades de conservação na Amazônia. Ainda assim, de 2013 a 2018 a trajetória de redução perdeu força, evidenciando os limites da estratégia diante de pressões persistentes, como a expansão da fronteira agropecuária, o garimpo ilegal e a grilagem de terras públicas, além da falta de coordenação com os governos subnacionais. A dificuldade de estabilização das áreas desmatadas evidenciou que, embora essenciais, fiscalização e repressão às atividades ilegais precisam estar associadas a outras medidas, incluindo mecanismos financeiros, fortalecimento de cadeias produtivas compatíveis com a floresta em pé e restauração de áreas desmatadas e degradadas, além  da estruturação de uma governança multinível capaz de convocar Estados e municípios para proteção da floresta.

Diante do enfraquecimento de instrumentos de fiscalização e controle, do desmonte de políticas ambientais e climáticas e de sinais políticos que reduziram a atuação estatal contra o desmatamento ilegal ocorrido entre 2019 e 2022, a taxa voltou a crescer, alcançando 13.038 km² em 2021. Principal fonte de emissões do país, o desmatamento da Floresta Amazônica acendeu o alerta dos pontos de não-retorno (tipping-points). A crise climática, somada à perda de cobertura florestal expôs a maior biodiversidade do planeta ao risco de perder suas características originais e seus serviços ecossistêmicos capazes de regular o clima global.

Com a retomada, no atual Governo Lula, do PPCDAm e das políticas de combate ao desmatamento, incluindo colaborações subnacionais e mecanismos financeiros de incentivo, nos últimos três anos o Prodes vem registrando sucessivas quedas, culminando no resultado histórico do ano Prodes 2026 (de agosto de 2025 a julho de 2026).

Esses dados devem ser comemorados não apenas por quem está diretamente envolvido nas ações contra o desmatamento. Devemos todos nos orgulhar do feito, que mantém viva para as gerações futuras a possibilidade de conhecer uma biodiversidade extraordinária, contribui para reduzir os impactos da mudança climática e coloca o Brasil como uma das nações que mais evitaram emissões de gases de efeito no mundo. A menor taxa de desmatamento da história é uma reafirmação de que políticas públicas são feitas a muitas mãos, com colaboração nacional, subnacional, multissetorial e também internacional.

GRÁFICO DA SEMANA

A menor taxa de desmatamento da história da Amazônia e do Cerrado é o tema também de nosso Gráfico da Semana. Observar as séries históricas do Prodes é importante nesse momento decisivo para o país. É preciso valorizar as políticas públicas que deram certo e nos asseguram mais resiliência para um planeta cada vez mais quente.

ABC DO CLIMA

Manejo integrado do fogo: O Manejo Integrado do Fogo (MIF) é uma abordagem de prevenção de incêndios florestais, aliada à gestão territorial, que considera os aspectos ecológicos, climáticos, sociais e culturais do uso do fogo. Inclui ações como queimas prescritas e controladas, construção de aceiros, formação de brigadas, monitoramento, educação ambiental e recuperação de áreas degradadas, integrando conhecimentos científicos e tradicionais para reduzir riscos e promover a conservação dos ecossistemas.

Historicamente, as políticas de prevenção e combate a incêndios priorizaram a supressão do fogo. No entanto, em ecossistemas adaptados à sua ocorrência periódica, como o Cerrado, a exclusão sistemática do fogo pode favorecer o acúmulo de biomassa combustível, aumentando a intensidade e a dificuldade de controle de incêndios em períodos de seca. O manejo integrado propõe substituir uma abordagem exclusivamente reativa por uma gestão planejada do regime do fogo. No Brasil, foi institucionalizado pela Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), na Lei nº 14.944, de 31 de julho de 2024. A política estabelece diretrizes para a prevenção e o controle de incêndios florestais, reconhece diferentes formas de uso do fogo, incluindo práticas tradicionais e adaptativas. É fundamental distinguir o manejo integrado do fogo das queimadas ilegais. O MIF envolve planejamento técnico, avaliação das condições ambientais e medidas de segurança, respeitando as exigências legais.

TÁ LÁ NO GRÁFICO

Uma mudança histórica na forma como geramos eletricidade no mundo ocorreu: as renováveis superaram o carvão como principal fonte da matriz elétrica em 2025, pela primeira vez em cerca de 100 anos. O crescimento das renováveis ocorreu quase que totalmente por fontes solar e eólica, impulsionado pela queda do custo dessas tecnologias. O Brasil já tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, mas o carvão ainda está presente como fonte de termelétricas que garantem estabilidade do sistema e pesam nas emissões e na conta de luz. O Tá Lá no Gráfico mostra esses dados e a necessidade de revisar subsídios, promover a transição justa nas regiões carboníferas e aumentar a resiliência da rede para as renováveis.

Conflitos sobre o calendário do IPCC

Addis Abeba, capital da Etiópia, sediou nesta semana a 65ª sessão do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal autoridade científica mundial em mudanças climáticas. Um dos objetivos centrais da sessão foi definir o calendário de publicação do 7º Relatório de Avaliação do IPCC (o AR7, na sigla em inglês) elaborado por três Grupos de Trabalho: Bases Físicas da Ciência do Clima; Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade; e Mitigação das Mudanças Climáticas. Embora possa parecer uma questão meramente técnica, a definição desse calendário ganhou contornos políticos nos últimos meses, tornando-se um dos pontos mais tensionados das negociações.

O AR7 está previsto para ser publicado em 2028, antes da COP 33, podendo assim servir como insumo da “melhor ciência disponível” para o próximo ciclo do Balanço Mundial (GST-2), a ser divulgado no mesmo ano. No entanto, alguns grandes emissores em desenvolvimento, como Índia, Rússia, Arábia Saudita e China, vêm defendendo que os relatórios sejam atrasados para o ano seguinte, 2029, sob o argumento de que o atraso possibilitaria maior equidade na produção de cenários científicos. Essa posição está longe de ser consenso entre países em desenvolvimento, já que países insulares e menos desenvolvidos sempre defenderam a importância de alinhar o calendário do IPCC ao GST-2, ao passo que também vêm trabalhando para garantir diversidade de cientistas e de conhecimentos indígenas e tradicionais no processo do IPCC.

Até o fechamento desta edição do boletim, as reuniões em Addis Abeba ainda não haviam alcançado um consenso, e podem se estender até os próximos dias.

Fogo no Amazonas

No Amazonas, entre 1º de janeiro e 12 de outubro de 2026, foram registrados 7.815 focos de calor, contra 3.611 no mesmo período de 2025, um aumento de aproximadamente 116%. A área queimada no estado aumentou 422%, indicando o descolamento do fenômeno em relação ao desmatamento. Possíveis incêndios criminosos, degradação intensa da floresta e fatores climáticos se combinam e produzem um novo cenário que precisa ser enfrentado de forma estratégica, tanto por políticas públicas federais quanto pela ação do governo estadual.

Ministros da América Latina e do Caribe adotam decisão regional para impulsionar a eletrificação

Ministros de 27 países da América Latina e do Caribe, incluindo o Brasil, aprovaram a decisão regional sobre a eletrificação dos usos finais de energia, durante a 56ª Reunião de Ministros da Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (OLACDE), em Santo Domingo, República Dominicana. 

A decisão prevê a elaboração de diagnóstico regional e o desenvolvimento de marcos regulatórios para facilitar a adoção da eletricidade em setores prioritários, além de promover tecnologias de armazenamento e a gestão inteligente da demanda.

Mesmo que inicial, o avanço é relevante para a transição para longe dos combustíveis fósseis porque amplia o foco da transformação energética para além da geração elétrica, alcançando também os setores que ainda dependem diretamente de petróleo, gás e carvão, como transportes e indústria. Na América Latina e no Caribe, onde a geração elétrica já conta com uma participação expressiva de fontes renováveis, acelerar a eletrificação pode aproveitar essa vantagem para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, as emissões e a exposição à volatilidade dos mercados internacionais de energia. 

Para concretizar esse potencial, entretanto, será fundamental combinar a eletrificação com a expansão expressa e politicamente declarada das energias renováveis, o investimento em redes e armazenamento e as políticas energéticas que viabilizem a transformação dos sistemas produtivos. A decisão representa, assim, um primeiro passo da corrida para reduzir a vulnerabilidade regional diante das geopolíticas instáveis do petróleo, carvão e gás fóssil.

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Boletim Fundo Clima – Setembro 2026

Fundo Clima prevê novo recorde em 2027: proposta de gastos com operações de crédito vai a R$ 54,7 bilhões

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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.

2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

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