(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
Propostas eleitorais, sozinhas, raramente conquistam o voto. A escolha na urna é atravessada pelo carisma, por identidades e visões de mundo, pelo contexto social e econômico, pela disputa ideológica e, também, pelos recursos disponíveis em uma campanha. A narrativa capaz de mobilizar o eleitorado é resultado de uma combinação difícil de acertar. Entre direita e esquerda, alguns temas permanecem presentes porque expressam demandas concretas da população: saúde, educação e segurança. Uma candidatura que não consiga falar sobre essas questões dificilmente dialogará com a realidade de grande parte dos eleitores – realidade cada vez mais impactada pela mudança do clima.
A emergência climática não é uma pauta isolada: ela atravessa a saúde, a educação, a segurança, a economia, as cidades e as desigualdades sociais. Mesmo que intuitivamente, a população sente a mudança na relação de seu corpo com o ambiente em que vive; observa a paisagem que se altera com as chuvas que vêm em excesso ou faltam onde costumavam inundar.
Vamos às urnas definir quem terá a responsabilidade – no Governo Federal e nos Estados, no Executivo, no Congresso e nas Assembleias – de fomentar políticas públicas para o país em um período decisivo da humanidade. Ao mesmo tempo em que os impactos da mudança do clima se acentuam, o país não está na estaca zero. Há um Plano Clima com ações e metas, que deve ser implementado, avaliado e ajustado, como uma política de Estado. O tamanho do desafio requer gente com capacidade de diálogo, senso de urgência para proteger quem está mais exposto aos impactos climáticos e com coragem para acelerar as rotas para uma transição para longe dos combustíveis fósseis.
Que modelo de saúde pública será necessário diante de um clima mais quente e de eventos extremos mais frequentes? Que educação pode preparar crianças e jovens para esse futuro e que escolas podem ser portos seguros hoje para elas? O que significa segurança em um país marcado por desigualdades e vulnerabilidades, acentuadas num planeta que bate novos recordes de calor? O que farão presidente e governadores em seu dia 1 em mandatos que começarão sob El Niño extremamente forte? Os parlamentares serão capazes de votar leis que protejam suas comunidades ou seguirão atacando as normas que salvam vidas?
Assim como os questionamentos, são múltiplas as respostas possíveis. Mas somente serão legítimas e eficientes aquelas construídas coletivamente, com ciência, participação social e transparência, sob os princípios da democracia. E que possamos seguir fazendo as perguntas necessárias e buscando as soluções brasileiras, como nação soberana.
GRÁFICO DA SEMANA
Entramos na fase mais aguda do El Niño, que deve atingir seu ápice neste trimestre, mas com impactos no clima do planeta que se prolongam até 2027. O Gráfico da Semana mostra de forma simplificada essas consequências do fenômeno de aquecimento das águas do Pacífico equatorial, que deve ser, desta vez, um dos mais intensos já observados.
ABC DO CLIMA
Cosmovisão: é a lente sob a qual determinamos como nos relacionamos com o mundo por meio dos nossos conhecimentos, valores e memórias. Na agenda climática, essa visão estabelece como diagnosticamos uma crise, se a tratamos apenas como um problema técnico/político a ser corrigido ou como o sintoma de uma ruptura profunda na nossa forma de nos relacionar com o meio ambiente. É essa lógica que Davi Kopenawa confronta em seu livro A queda do céu. Para os Yanomami, a floresta não é um ativo financeiro a ser explorado, mas uma teia viva que sustenta o equilíbrio da vida. Falar de cosmovisão no debate climático é entender que a crise pode ser vista e vivida de diferentes formas, e que reconhecê-las também nos convida a repensar a nossa relação com o planeta.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
Para lidar com a crescente pressão pela abertura de novas áreas de extração de minerais críticos, é preciso fomentar a reciclagem. Isso pode reduzir em 30% a necessidade de investimentos em mineração até 2040. Sendo a extração uma atividade que inevitavelmente altera paisagens naturais, a circularidade deve ser apoiada por meio de regulações e incentivos. O Tá Lá no Gráfico desta semana mostra esse ciclo que deve ser criado.
O trimestre de maior impacto do El Niño
Nesta semana, o Painel El Niño, iniciativa do Governo Federal para monitorar o fenômeno e seus efeitos, publicou o Boletim nº 4 do Painel El Niño 2026-2027. A quarta edição reforça que o El Niño tem 95% de chance de alcançar intensidade muito forte no trimestre que se inicia (outubro/novembro/dezembro). Pelo Brasil, estados e municípios seguem estabelecendo medidas a fim de prevenir e gerenciar os impactos previstos. O Monitor do El Niño da Política Por Inteiro captou o Plano de Adaptação da Saúde de Rondônia para os impactos do El Niño no ciclo 2026–2027, elaborado pela Secretaria de Estado da Saúde (SESAU/RO).
A estratégia parte do entendimento de que os impactos climáticos são resultado da interação entre El Niño, mudanças climáticas, aquecimento do Atlântico, desmatamento e uso do fogo. Transforma a previsão de um El Niño potencialmente persistente em um protocolo de preparação e adaptação do sistema de saúde, abrangendo os 52 municípios de Rondônia. Entre os principais riscos identificados estão a estiagem, as ondas de calor, os incêndios florestais, a exposição à fumaça e a piora da qualidade do ar, com possíveis consequências para a saúde da população, o abastecimento de água e o acesso aos serviços de saúde.
Petrobras encontra mais petróleo no Amapá, mas descoberta reforça dilema da transição energética
A Petrobras anunciou nesta sexta-feira (2/10) nova descoberta de petróleo no poço Morpho, em águas ultraprofundas da costa do Amapá, na Bacia da Foz do Amazonas. O achado, a 2.886 metros de profundidade, amplia o conhecimento sobre o potencial petrolífero da Margem Equatorial. As análises ainda estão em andamento e a estatal afirma não ser possível estimar o volume ou a viabilidade econômica dos recursos encontrados.
O Brasil já produz muito mais petróleo do que precisa para seu consumo doméstico. Em 2025, chegou a 3,8 milhões de barris produzidos por dia, enquanto as exportações líquidas alcançaram 1,7 milhão de barris por dia. A Empresa de Pesquisa Energética estima que 51% da produção brasileira tenha sido exportada em 2025 e projeta que mais da metade do petróleo produzido continue sendo exportada até 2035.
Isso significa que aumentar a produção não é sinônimo de tornar o Brasil menos dependente do petróleo. Pelo contrário, pode aprofundar a dependência econômica de uma commodity cujo preço, demanda e mercados são determinados em grande medida por fatores externos.
A questão estratégica para o Brasil é traçar seu mapa do caminho para reduzir a demanda doméstica por petróleo e aumentar a capacidade de a economia funcionar sem ele. Isso significa acelerar a eletrificação, expandir transporte coletivo e ferroviário, substituir combustíveis fósseis por alternativas de baixo carbono, como os biocombustíveis, onde a eletrificação é mais difícil e reduzir a exposição fiscal e econômica às receitas do petróleo.
Descobrir mais petróleo pode ampliar as exportações brasileiras. Mas, com o mundo percebendo a insegurança energética de manter-se atrelado às dinâmicas geoeconômicas do petróleo, libertar o país da necessidade de petróleo é o que pode aumentar sua resiliência diante de choques de preços, mudanças na demanda global e da própria transição energética.
A boa notícia não deveria ser apenas encontrar mais petróleo. A verdadeira boa nova é precisar cada vez menos dele.
Primeiros sinais de operacionalização do GGA
Além da definição dos 59 Indicadores de Adaptação de Belém (BAI), a COP30 também encarregou ao secretariado da UNFCCC e a outros órgãos constituídos alguns deveres de casa para gerar insumos ao processo de negociação do Objetivo Global de Adaptação (GGA). Entre eles, está um Relatório Técnico publicado na quarta-feira (30), no qual é feita uma revisão sobre o estado das 11 metas temáticas e dimensionais do GGA e dos BAI.
O documento mostra que os BAI ainda estão em uma fase inicial de operacionalização: entre as 15 Partes e grupos de Partes que enviaram informações até 31 de agosto de 2026, nenhuma relatou sua implementação plena, e a maioria ainda está avaliando a disponibilidade de dados, a correspondência com sistemas nacionais e a viabilidade de cada indicador. Em resumo, apenas oito indicadores contam atualmente com uma metodologia global plenamente disponível, enquanto muitos ainda carecem de definições comuns, métodos para alguns de seus componentes ou regras para combinar diferentes medidas. Esse relatório servirá como base das discussões do GGA na COP31.
Para saber mais sobre o que esperar das negociações de adaptação em Antalya, leia nosso boletim de setembro da Força-Tarefa “Adaptação como Prioridade para América Latina e Caribe”.
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Boletim Fundo Clima – Setembro 2026
Fundo Clima prevê novo recorde em 2027: proposta de gastos com operações de crédito vai a R$ 54,7 bilhões
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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.
2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO