Fundo Clima prevê novo volume recorde em 2027

(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)

O Fundo Clima pode alcançar um novo volume recorde em 2027: R$ 54,7 bilhões. O valor está previsto no projeto de lei orçamentária (PLOA) enviado pelo Governo ao Congresso. O dinheiro será majoritariamente destinado a operações de crédito, via empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou Eco Invest, o mecanismo de atração de capital privado e estrangeiro administrado pelo Ministério da Fazenda. A parcela de recursos não-reembolsáveis (a fundo perdido) do Fundo Clima disporá em 2027, segundo o projeto de lei, de R$ 5,9 milhões. A proposta ainda será debatida e votada pelos parlamentares.

O valor previsto para o ano que vem é quase 30% superior ao deste ano, de R$ 42,5 bilhões, que foi já um recorde de orçamento no principal instrumento de financiamento climático do país. Desse total de 2026, R$ 27,5 bilhões foram destinados a empréstimos via BNDES. Porém, a maior parte ainda não foi alocada. Até o mês passado, as operações aprovadas atingiram R$ 6,6 bilhões.

O Instituto Talanoa, do qual a Política por Inteiro é uma iniciativa, acompanha as movimentações do Fundo Clima. O Boletim Mensal do Fundo Clima de setembro mostra esse volume recorde de dinheiro previsto para 2027 e também detalha o que houve de aprovações até julho (as planilhas divulgadas pelo BNDES têm defasagem de dois meses). O Monitor do Fundo Clima, com link disponível nesta página, tem dados desde 2013 e também é atualizado mensalmente. O BNDES disponibiliza informações em seu Painel Fundo Clima – lançado após a Talanoa iniciar sua série de boletins mensais.

Boletim Fundo Clima – Setembro 2026

Fundo Clima prevê novo recorde em 2027: proposta de gastos com operações de crédito vai a R$ 54,7 bilhões

GRÁFICO DA SEMANA

Agosto igualou o recorde de mês mais quente já registrado. A temperatura média global do ar na superfície terrestre foi de 16,96°C, tão quente quanto em julho de 2023 (valor de 16,95°C, mais precisamente). Naquele ano, as águas do Pacífico equatorial estavam aquecidas acima da média, caracterizando, assim como agora, o El Niño.

O Gráfico da Semana mostra as anomalias de temperatura do planeta nos meses de agosto, sinalizando aqueles em que estavam presentes as condições de El Niño muito forte. A previsão deste ano é que o fenômeno atinja dimensões de extrema força, com as águas do Pacífico ultrapassando os 2°C de aquecimento.

ABC DO CLIMA

Obstrução climática: Este conceito acadêmico busca analisar as ações e os esforços deliberados de atores sociais, econômicos e políticos para retardar, enfraquecer ou bloquear políticas climáticas compatíveis com o consenso científico sobre o que é necessário para evitar efeitos perigosos do aquecimento global. Embora a literatura sobre obstrução climática tenha se expandido nas últimas décadas, persistem lacunas na compreensão de como essas estratégias operam em diferentes contextos nacionais e, particularmente, nas arenas de governança multilateral. Nesses espaços, interesses econômicos e políticos associados à dependência de combustíveis fósseis podem se traduzir em estratégias diplomáticas, procedimentais e substantivas de obstrução, dificultando a construção e a implementação de consensos compatíveis com a melhor ciência disponível. Para se aprofundar no conceito, ver J. Timmons Roberts (ed.) et al (2025).

TÁ LÁ NO GRÁFICO

Os data centers são sustentáveis? Essa é a pergunta que o Tá Lá no Gráfico desta semana busca ajudar a responder. A revolução da inteligência artificial está fazendo explodir a necessidade de mais infraestruturas para comportar super processadores. A localização das instalações é relevante na discussão sobre soberania de dados, mas também traz preocupações em relação aos impactos socioambientais para os territórios que os recebem.

País soberano é país livre de combustíveis fósseis

O Governo Federal anunciou nesta semana mais uma medida para segurar os preços da gasolina e do diesel, em meio ao prolongamento da Guerra no Irã e à alta do petróleo no mercado internacional. Foram reduzidos PIS/Pasep e Cofins em R$ 0,63 por litro para a gasolina e zeradas as alíquotas para o etanol hidratado. No caso do diesel, a subvenção inicial é de R$ 1 por litro, com valor ajustável.

Antes do anúncio da subvenção federal, a Petrobras chegou a divulgar, na quarta-feira (9), um aumento às distribuidoras de R$ 0,19 por litro na gasolina A, recuando horas depois. O preço, que chegaria a R$3,24 por litro, permaneceu nos atuais R$3,05. O desconto tributário anunciado compensará o fim da subvenção anterior, de R$0,44, e o reajuste atual. Na prática, as distribuidoras obtiveram, ao final, redução de R$ 0,19 por litro. 

As medidas anunciadas pelo governo para conter os preços dos combustíveis são medidas anti-inflacionárias. Ampliar subsídios pode evitar repasses imediatos aos preços e limitar os efeitos da volatilidade sobre a inflação e o custo de vida. O problema está no desenho e na distribuição desses benefícios. Ao reduzir o preço da gasolina, consumida por proprietários de veículos particulares, a política tende a privilegiar proporcionalmente a classe média alta, segmentos de classe mais motorizados da economia, mobilizando recursos públicos para preservar o consumo de combustíveis fósseis.

No caso do diesel, a intervenção faz mais sentido do ponto de vista econômico. Mais de 70% das cargas movimentadas no Brasil são transportadas por caminhões movidos a diesel. Uma alta abrupta do combustível se transmite para o custo do transporte, dos alimentos e de praticamente toda a cadeia de distribuição. Amortecer um choque dessa magnitude pode, portanto, ser uma medida legítima de proteção da economia e de contenção inflacionária. O que vem à tona é a gravidade da elevada dependência brasileira de importações, que respondem por mais de 25% do consumo nacional de diesel. 

O problema aparece quando a resposta emergencial é transformada em solução permanente. A política de subsídios e desonerações não reduz a vulnerabilidade estrutural da economia brasileira. Ao contrário, prolonga artificialmente a dependência brasileira de uma matriz de transporte baseada em combustíveis fósseis. Essa dependência constitui risco geopolítico e planetário. Pois, enquanto parcela significativa da economia brasileira depender do petróleo, choques internacionais de oferta, conflitos ou interrupções nas cadeias globais chegarão ao Brasil na forma de pressão inflacionária e contínua necessidade de intervenção estatal.

É a espada de Dâmocles da dependência fóssil. Mesmo quando o país possui recursos para amortecer o golpe, continuará exposto à ameaça. 

O paradoxo é, ainda, particularmente relevante para a política climática. O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo e enorme potencial para eletrificar transportes e substituir combustíveis fósseis por alternativas bioenergéticas de baixa emissão. Ainda assim, diante de cada choque de preços, a resposta predominante continua sendo proteger o consumo de gasolina e de diesel, em vez de acelerar a transição energética que alforriará o País do entrave geoeconômico

É hora de ter prazo final do uso de petróleo, metas intermediárias de substituição setorial e plano de ação robusto em um Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis que afaste a espada damocliana do pescoço financeiro dos contribuintes e que coloque o Brasil na trajetória necessária a cumprir a responsabilidade que lhe cabe na solução da crise climática.

Atualizações do El Niño pelo Brasil

Revisões de planos de contingência, promoção de capacitações e criação de comitês estão na lista de ferramentas de Estados e municípios brasileiros para enfrentar os impactos do El Niño. Além da aproximação do período previsto como mais crítico, nesta semana a última atualização da NOAA elevou a chance do fenômeno superar todos os eventos já registrados para 75%; em agosto a probabilidade era de 69%.

O Monitor El Niño da Política Por Inteiro vem registrando e dando visibilidade às iniciativas de preparação e resposta ao fenômeno pelo Brasil. A ferramenta foi destaque na MIT Technology Review Brasil, que mostrou como o uso combinado de inteligência artificial e análise humana permite acompanhar as ações dos governos diante da previsão de um Super El Niño.

Novas unidades de conservação

Em celebração ao Dia da Amazônia, decretos publicados nesta semana ampliaram um Parque Nacional e criaram quatro novas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) no Brasil.

O Parque Nacional das Sete Cidades, no Piauí, foi ampliado em 7.192 hectares. No Amazonas, foram criadas quatro RDS: Tupana Igapó-Açu II, com 422,1 mil hectares, nos municípios de Beruri e Tapauá; Tupana Igapó-Açu I, com 114 mil hectares, em Borba; Canaã, com 109,6 mil hectares, em Careiro e Autazes; e Mirari, com 22,7 mil hectares, em Humaitá.

No total, as medidas somam cerca de 676 mil hectares, contribuindo para a meta do Plano Clima de criar 4,3 milhões de hectares de Unidades de Conservação entre 2023 e 2027. Em março, o Brasil já havia alcançado 2,46 milhões de hectares desde 2023, o equivalente a 57% da meta, impulsionada, principalmente, pela criação do Parque Nacional Marinho do Albardão, no Rio Grande do Sul, com 1,6 Mh.

Com os novos decretos, o total chega a cerca de 3,14 milhões de hectares, ou aproximadamente 73% da meta. Ainda que represente um avanço bastante significativo, o desafio para 2027 será garantir mais 1,16 milhão de hectares em UCs no país.

Semana de clima de Baku

A quarta Semana do Clima da UNFCCC (CW4) ocorreu em Baku, capital do Azerbaijão e sede da COP29. O evento reuniu diversos países e atores da sociedade civil para avançar em discussões que desembocarão nas negociações da COP31. No que diz respeito à adaptação climática, ocorreu o segundo workshop mandatado do Baku Adaptation Roadmap (BAR), que focou em meios de implementação e conexão com o próximo ciclo do Balanço Global (GST2) e o Fórum de Adaptação do Comitê de Adaptação (AC).  As Partes também tiveram a oportunidade de compartilhar percepções sobre a Visão Belém-Addis do Objetivo Global de Adaptação, que será negociada em Antalya, em novembro. Em outras agendas, ocorreram o Workshop de Intercâmbio de Pares sobre Transição Justa e o Fórum de Implementação.

Chuvas no Japão

Depois das ondas de calor em agosto, o Japão enfrenta chuvas torrenciais neste início de setembro. Nesta semana, foi emitido o alerta máximo para inundações nas províncias de Aichi e Gifu, na região central do país. Na cidade de Nagoya, choveu, na terça-feira (8), o volume recorde de 104 milímetros em uma hora. Cerca de 400 atletas e colaboradores que participarão dos Jogos Asiáticos, cuja cerimônia de abertura ocorre no dia 19, chegaram a ser evacuados por causa de riscos de alagamentos. Mas a organização da competição e a prefeitura de Nagoya garantiram que o evento ocorrerá sem maiores prejuízos.

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1 Grupo negociador formal da UNFCCC formado por Suíça, México, Coréia do Sul, Geórgia, Liechtenstein e Mônaco. Trata-se de uma coalizão que reúne países desenvolvidos e em desenvolvimento e que, tradicionalmente, defende maior ambição climática e foco na implementação dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.

2 Grupo negociador da UNFCCC composto por mais de 20 países em desenvolvimento, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã, Bolívia, Venezuela e outros países da Ásia, Oriente Médio, África e América Latina. O grupo enfatiza os princípios de equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, mas são conhecidos por usá-los como forma de manter a exploração, o uso e a venda de combustíveis fósseis.

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

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