Chance de El Niño não é sinônimo de desastre, é alerta para ação

(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)

A possibilidade de um “desastre térmico” no Brasil se espalhou com alarde pelas redes sociais e pelo noticiário. Mas o Brasil não está à beira de um “desastre térmico”. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), citado como fonte da informação, emitiu somente uma nota técnica à Casa Civil apresentando dados sobre a grande possibilidade de um novo El Niño neste ano e listando os eventuais impactos no país. Não há, no documento, nenhuma menção à expressão amplamente divulgada e erroneamente atribuída à nota. 

“El Niño não prevê um desastre específico, mas aumentos de probabilidade, de ter ‘maior chance de chuva extrema no Sul’ ou ‘maior risco de seca no Norte ou Nordeste’. O desastre em si depende de outros fatores não climáticos, como a vulnerabilidade da população e a exposição das áreas onde vive a população”, diz a nota.

Segundo a nota, a probabilidade de que o fenômeno caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico equatorial ocorra é, no momento, de mais de 80%. Porém, ainda não existem previsões confiáveis sobre a sua intensidade. É possível que seja um El Niño de moderado a forte, não atingindo o que se classifica como muito forte. Isto é, o aquecimento das águas não deve ultrapassar os 2°C em média (Entenda a escala de intensidade do El Niño no gráfico abaixo). 

A incerteza sobre a intensidade do El Niño ocorre porque as previsões realizadas nesta época do ano costumam errar mais. É um fenômeno chamado pelos climatologistas de “Barreira de Previsibilidade da Primavera” (leia no ABC do Clima abaixo), em referência à primavera no Hemisfério Norte.

Baseados em eventos passados, os cientistas do Cemaden afirmam que pode haver aumento de chuvas na Região Sul, com maior risco para deslizamentos de terra nas regiões montanhosas e eventuais problemas associados a cheias, alagamentos e enxurradas. A região Centro-Norte do Brasil poderia enfrentar um agravamento da seca e um aumento do risco de incêndios. A grande área central do país, muito provavelmente, deverá enfrentar mais ondas de calor e baixa umidade relativa.

O documento do Cemaden é um alerta importante para que os diferentes setores se preparem. A interpretação correta dos dados, incluindo a compreensão do grau de incerteza das previsões, é essencial para a tomada de decisões adequadas, com o objetivo de prevenir desastres e se adaptar aos cenários futuros.

GRÁFICO DA SEMANA

A Guerra no Irã mostrou, mais uma vez, que a transição para longe dos combustíveis fósseis deve ser implementada pelas nações não apenas como uma ação climática, mas como uma questão estratégica para a resiliência econômica, a soberania e a segurança nacional. 

O Gráfico da Semana traz um resumo das ações de resposta à crise do combustível, categorizadas em quatro abordagens: redução de consumo, restrição à oferta de combustíveis, proteção ao consumidor e aceleração da transição energética.

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As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, começam nesta sexta-feira (6) e, como nas edições anteriores, vão requerer a produção de neve artificial. Nosso Tá Lá no Gráfico mostra como os locais que podem abrigar essas competições estão diminuindo ao redor do mundo. Além do volume de neve, a organização de um evento como esse requer previsibilidade, o que se torna mais difícil num cenário de mudanças climáticas.

As abelhas estão entre os organismos mais vulneráveis à mudança do clima, sua sobrevivência depende de condições climáticas relativamente estáveis e da sincronia com os ciclos de floração das plantas. O aumento das temperaturas, a maior frequência de eventos extremos e as alterações nos regimes de chuva comprometem a continuidade de diversas espécies de abelhas, representando uma ameaça direta aos sistemas alimentares, mostra esta edição do Tá Lá no Gráfico. Polinizadores são responsáveis pela reprodução de grande parte das culturas agrícolas que compõem a base da alimentação humana e sua perda pode agravar desigualdades alimentares, afetando principalmente agricultores familiares e regiões mais vulneráveis, onde a diversificação produtiva depende fortemente da polinização natural.

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ABC DO CLIMA

Barreira de Previsibilidade da Primavera (SFB, na sigla em inglês, ou ENSO Spring Barrier): É um termo bastante comum quando se abordam as previsões para o fenômeno climático conhecido como El Niño – Oscilação Sul (ENOS ou ENSO, na sigla em inglês, mais usual). Periodicamente, a cada 2 a 7 anos, as águas da superfície do Pacífico equatorial se aquecem (El Niño) com alterações significativas na pressão atmosférica sobre o oceano. Essa Barreira de Previsibilidade da Primavera destaca que, durante os meses de março a maio (primavera no Hemisfério Norte), os modelos de previsão sobre a ocorrência e intensidade do El Niño erram mais do que os modelos iniciados entre junho e dezembro. Os cientistas ainda não têm uma resposta clara para essa maior incerteza, mas uma das razões seria o fato de este ser um período de transição entre os estágios da ENSO (El Niño, que é o aquecimento das águas, ou La Niña, o esfriamento). As condições do oceano e da atmosfera se aproximam da neutralidade após o pico do fenômeno no inverno, e as características que levam a El Niño ou La Niña só se evidenciam após a primavera.

Fonte: NOAA:
https://www.climate.gov/news-features/blogs/enso/spring-predictability-barrier-we%E2%80%99d-rather-be-spring-break

Dois mapas, um caminho

Após a extensão do prazo para envio de contribuições aos dois Mapas do Caminho liderados pela Presidência da COP30, a consulta foi encerrada nesta sexta-feira, sem previsão de novos ajustes. A prorrogação buscou tornar o processo mais participativo, sendo voluntário e direcionado às partes, observadores e demais setores da sociedade.

As contribuições recebidas devem subsidiar a elaboração do Mapa do Caminho da Transição para o Afastamento dos Combustíveis Fósseis de Forma Justa, Ordenada e Equitativa, e o Mapa do Caminho para o Fim e a Reversão do Desmatamento e da Degradação Florestal até 2030.

Ainda não está estabelecido como se dará o processo de estruturação dos roadmaps globais nas duas agendas. No entanto, é fundamental que exista algum nível de articulação entre os dois instrumentos. Novas cadeias de suprimento, necessárias à transição energética, podem vir a criar outras dinâmicas de pressão sobre as florestas e demais ecossistemas, evidenciando a transversalidade da pauta e a necessidade de se criar salvaguardas que garantam justiça climática e coerência entre os mecanismos.

ATL 2026: O nexo entre clima, mineração e direitos territoriais

Entre os dias 6 e 10 de abril, em Brasília, o Acampamento Terra Livre (ATL) reiterou a demarcação de Terras Indígenas (TIs) como estratégia central de mitigação do Plano Clima. Sob o tema “Sem território não há clima: a resposta somos nós”, a mobilização joga luz sobre o rigor dos números: para cumprir a meta de reduzir as emissões em 94% nessas áreas até 2035, prevista no Plano Clima, a garantia jurídica do território é o requisito indispensável para manter o estoque de carbono e viabilizar a remoção projetada de 296 milhões de toneladas de CO2​e. Na carta entregue ao Poder Executivo, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) defende que a proteção das TIs seja tratada como uma meta climática da NDC brasileira e das estratégias de mitigação e adaptação, de modo que se consolide como uma política estruturante do Estado, com orçamento e governança participativa.

Os especialistas do Instituto Talanoa acrescentam que a transição energética acelerará a demanda por minerais críticos, tais como lítio, níquel, cobre e terras raras. Ao mesmo tempo em que são indispensáveis para tecnologias de baixo carbono, parcela expressiva dessas reservas estratégicas se concentra no subsolo de Terras Indígenas, tensionando diretamente a compatibilização entre segurança climática e direitos territoriais. 

Esse quadro ganha contornos ainda mais críticos com o relatório “Desmascarando o Lobby Mineral em Terras Indígenas no Brasil”, que revela um aporte de cerca de R$ 2,5 trilhões em créditos vindo de bancos globais para mineradoras de minerais de transição entre 2016 e 2024. O Brasil figura entre os cinco principais países de origem dos investimentos do setor, o que o coloca como um vetor de pressão para a expansão da fronteira extrativa. Essa contradição evidencia uma falha estrutural na governança da transição, marcada pela ausência de mecanismos financeiros e regulatórios capazes de desacoplar a expansão da oferta mineral da degradação socioambiental; o que reforça a centralidade de instrumentos como o financiamento adequado da  Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e critérios de elegibilidade que visem a mineração em solos não demarcados, com vistas a internalizar a conservação territorial como componente estratégico da transição.

Para que a NDC brasileira e os planos nacionais avancem na sua implementação, também se faz necessário o fortalecimento da capacidade do Estado de assegurar salvaguardas socioambientais precisas, garantindo que a resposta à crise climática evite a criação de novas zonas de sacrifício, bem como proteja os povos indígenas e demais populações centralmente envolvidas com a manutenção do equilíbrio biofísico do planeta.

Renováveis batem outro recorde em 2025 e aceleram substituição do gás

Dados recentes da Ember indicam que 2025 marcou um outro recorde na expansão de energias renováveis, com a instalação de 814 GW de capacidade solar e eólica,  um aumento de 17% em relação a 2024. Com isso, a capacidade global combinada dessas fontes ultrapassou 4 TW, consolidando-as como as tecnologias de geração elétrica que mais crescem no mundo.

A energia solar liderou amplamente essa expansão, com 647 GW adicionados em 2025, uma alta de 11% em relação ao ano anterior. Já a energia eólica registrou crescimento expressivo de 47%, alcançando 167 GW de novas instalações e cerca de 1.300 GW de capacidade acumulada. Em uma conta rápida, percebe-se que para cada 1 GW de eólica instalado, aproximadamente 4 GW de solar foram adicionados. 

Além da escala, os impactos econômicos e energéticos são relevantes. A nova capacidade instalada em 2025 pode gerar volume suficiente para substituir mais do que o dobro das exportações anuais de gás liquefeito de petróleo do Qatar, um dos maiores produtores globais. A preços atuais, as adições de energia renovável mencionadas equivalem a uma economia potencial de US$ 138 bilhões (R$ 692 bilhões) em importações de gás e garantindo soberania energética àqueles que o fizeram ao reduzir a dependência nacional de combustíveis fósseis.

Índia pula fora de sediar a COP 33 

O portal Climate Home noticiou que a Índia retirou a candidatura para sediar a COP33, em 2028. Ainda não houve manifestação oficial do governo indiano, ou qualquer explicação para a desistência de sediar o evento multilateral. De acordo com os ritos da UNFCCC, a COP33 deve ser sediada por algum país da Ásia ou do Pacífico. Inicialmente apoiada pelos BRICS, a retirada da candidatura indiana abre caminho para novos candidatos. A Coreia do Sul, que sediará em 2028 a cúpula do G20, também demonstrou interesse anteriormente em sediar a Conferência do Clima.

Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

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