(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
Mais uma vez, os Estados Unidos de Donald Trump colocam em xeque a ideia de que ainda vivemos sob o regime multilateral emergido da Segunda Guerra Mundial. Após meses de escalada de tensões, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. O líder supremo do país persa, aiatolá Ali Khamenei, foi morto. Os impactos foram imediatos: comércio global em pânico, segurança energética ameaçada e, sobretudo, muitas vidas ceifadas (o número é incerto, estaria acima de mil), outras tantas sob perigo. Uma configuração muito semelhante à que antecedeu as duas guerras mundiais se desenha. Nunca estivemos tão próximos de um novo conflito de escala global, e nunca fomos tão dependentes do petróleo – produto que influencia diretamente o peso geopolítico do Golfo Pérsico, por onde ataques entre aliados e inimigos dos dois lados da guerra se sucedem.
Logo após os ataques, o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam de 20% a 25% do petróleo e do gás escoados para o mundo. Desde o início da guerra, o preço de um barril de petróleo (calculado como crude brent) aumentou em aproximadamente 17%, enquanto o gás subiu 60%. Aos nefastos custos humanitários de uma guerra, somam-se os custos econômicos no bolso dos consumidores no mundo todo. Para além da alta no preço da gasolina, os alimentos também encarecem, afetando a vida das pessoas mais pobres.
A partir da lente climática, a solução para esta dependência nunca foi tão óbvia. A tão necessária transição energética faria com que a soberania energética nacional e global não fosse ameaçada pela instabilidade geopolítica ou pelo ímpeto bélico. Simon Stiell, secretário geral da UNFCCC, nos relembra: “Há uma solução clara para esse caos de custos dos combustíveis fósseis: as energias renováveis agora são mais baratas, mais seguras e chegam ao mercado mais rapidamente”.
Alguns países já enfrentam a perigosa tentação de recorrer ainda mais às reservas de carvão disponíveis em seus próprios territórios. Ceder a esse caminho significaria retroceder em ambição climática, justamente quando todas as evidências científicas e cotidianas nos alertam que não há um planeta seguro sem a transição equitativa, justa e ordenada para longe dos fósseis.
Uma guerra sempre será a confirmação de que falhamos como sociedade, que perdemos o caminho da diplomacia, onde se funda o multilateralismo. Se estamos de fato em um ponto de ruptura da ordem mundial, o caminho para longe dos combustíveis fósseis não é somente a rota que é capaz de desacelerar o aquecimento do planeta. É a rota que pode garantir segurança energética aos estados, possibilitando instaurar uma nova ordem baseada em cooperação menos coercitiva e mais colaborativa, com vantagens econômicas. E essa trajetória se dará inevitavelmente em um planeta mais quente. Portanto, adaptar-se e preparar-se para realizar a transição nessas condições é, sim, estratégia de defesa e argumento para a paz.
GRÁFICO DA SEMANA
O Gráfico da Semana localiza geograficamente o Estreito de Ormuz e mostra que quase 85% do petróleo escoado por ali tem como destino a Ásia, sobretudo a China. As produções de petróleo e gás de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Iraque, Bahrein e Irã passam pelo local. E somente Arábia Saudita e Emirados têm alternativa de escoamento por oleoduto. Porém, com capacidade de levar de 3,5 milhões a 5,5 milhões de barris por dia, muito abaixo do necessário para canalizar o fluxo bloqueado por via marítima.
TÁ LÁ NO GRÁFICO
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As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, começam nesta sexta-feira (6) e, como nas edições anteriores, vão requerer a produção de neve artificial. Nosso Tá Lá no Gráfico mostra como os locais que podem abrigar essas competições estão diminuindo ao redor do mundo. Além do volume de neve, a organização de um evento como esse requer previsibilidade, o que se torna mais difícil num cenário de mudanças climáticas.
As abelhas estão entre os organismos mais vulneráveis à mudança do clima, sua sobrevivência depende de condições climáticas relativamente estáveis e da sincronia com os ciclos de floração das plantas. O aumento das temperaturas, a maior frequência de eventos extremos e as alterações nos regimes de chuva comprometem a continuidade de diversas espécies de abelhas, representando uma ameaça direta aos sistemas alimentares, mostra esta edição do Tá Lá no Gráfico. Polinizadores são responsáveis pela reprodução de grande parte das culturas agrícolas que compõem a base da alimentação humana e sua perda pode agravar desigualdades alimentares, afetando principalmente agricultores familiares e regiões mais vulneráveis, onde a diversificação produtiva depende fortemente da polinização natural.
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Texto
ABC DO CLIMA
Subsídios fósseis ineficientes: são apoios financeiros, fiscais ou regulatórios concedidos por governos à produção ou ao consumo de combustíveis fósseis com vistas a reduzir artificialmente seus custos ou preços. Em vez de gerar benefícios sociais claros ou melhorar o acesso à energia para populações vulneráveis, esses subsídios frequentemente produzem distorções econômicas, incentivam o consumo excessivo de combustíveis fósseis e aumentam as emissões de gases de efeito estufa.
O termo “ineficiente” é usado principalmente em debates internacionais sobre política climática para indicar que esses subsídios não cumprem adequadamente objetivos como segurança energética, desenvolvimento econômico ou proteção social. Na prática, beneficiam de forma desproporcional grupos de renda mais alta, os quais consomem mais energia. Além disso, ao manter os combustíveis fósseis artificialmente baratos, os subsídios atrasam investimentos em eficiência energética e energias renováveis.
A expressão “subsídios fósseis ineficientes” aparece, por exemplo, na decisão do Consenso de Dubai, da COP28, no parágrafo 28(h): “Eliminar gradualmente, o mais rápido possível, os subsídios ineficientes aos combustíveis fósseis que não combatem a pobreza energética nem promovem transições energéticas justas”.
Antecipação ao fogo e queda da área queimada
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) apresentou as ações de prevenção e controle dos incêndios florestais para este ano. No fim do mês passado, o governo publicou a portaria que detalha as regiões em risco de incêndio florestal e as respectivas épocas, elaborada com base em cenários climáticos. No segundo semestre, devemos sair de um sistema de La Niña para El Niño, alterando-se o padrão das chuvas, com tendência de redução nas regiões Norte e Nordeste e irregularidade na porção central do Brasil. Haverá também maior propensão a ondas de calor mais intensas. A partir da portaria e identificação das áreas em risco de incêndios e períodos de maior vulnerabilidade, viabiliza-se a contratação emergencial de brigadistas e outras medidas. A antecipação à temporada de incêndios, seguindo a implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF – Lei nº 14.944/2024), tem dado resultados, mostram os dados do MMA. Houve queda de 39% da área queimada no país em 2025 na comparação à média dos oito anos anteriores (2017 a 2024), de acordo com informações do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA/UFRJ).
Cidades verdes e resilientes
Nesta semana, foram publicadas as três primeiras resoluções do Comitê Gestor do Programa Cidades Verdes Resilientes – CG-PCVR, do Departamento de Meio Ambiente Urbano na Secretaria Nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do MMA. As medidas estruturam a governança do Comitê, estabelecem diretrizes e metas do Programa e detalham o processo de adesão à Rede PCVR.
O Programa Cidades Verdes Resilientes pode ser considerado como uma política “guarda-chuva” que engloba outras iniciativas e soluções voltadas para a adaptação climática dos municípios brasileiros. O Adaptacidades é uma delas.
O Comitê Gestor do PCVR será composto por 18 representantes, incluindo órgãos públicos federais, estados, Distrito Federal e municípios, bem como representantes da sociedade civil e do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia.
O PCVR tem como diretrizes centrais impulsionar a resiliência climática, promover a justiça climática e socioterritorial e a Adaptação Baseada em Ecossistemas (AbE). Prevê ainda o fortalecimento da articulação entre União, estados, municípios e sociedade civil, com equilíbrio de responsabilidades e ações coordenadas em diferentes níveis de governo.
Dentre os principais indicadores de sucesso do programa, está o aumento da cobertura vegetal, com a meta de garantir que 57% da população urbana viva em ruas com três ou mais árvores até 2035. Ainda prevê aumentar a capacidade adaptativa em 35% dos municípios brasileiros.
As entidades que decidirem por aderir ao PCVR devem se comprometer com o Pacto por Cidades Verdes e Resilientes, via Carta de Compromisso, para acessar os benefícios do programa. Uma das contrapartidas é que o ente federativo implante ou eleja instância de governança local, própria ou vinculada a instâncias colegiadas participativas do programa. Se bem implementado, e em tempo hábil, pode vir a ser um fator decisório no enfrentamento de eventos climáticos extremos nos municípios brasileiros e ainda se consolidar como elemento central na construção de uma governança climática cooperativa e multinível.
Agenda legislativa
O Observatório do Clima, rede de organizações da sociedade civil brasileira da qual a Talanoa faz parte, lançou nesta semana sua Agenda Legislativa 2026. O documento faz um balanço de 2025 no Congresso – ano marcado por retrocesso na agenda ambiental no Parlamento com o enfraquecimento do licenciamento ambiental –, e traz os projetos de lei que devem ser acompanhados de perto.
Senado aprova Acordo Mercosul – União Europeia
O Senado Federal aprovou o texto do Acordo Mercosul-UE. Como a Câmara já havia dado também seu aval, falta agora somente a sanção presidencial e a publicação no Diário Oficial da União (DOU) para que o novo regime aduaneiro interregional e as demais cláusulas de integração econômica, ambiental e política entrem em vigor no Brasil.
À época da assinatura do acordo entre o Brasil e o bloco europeu, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) emitiu nota afirmando que ele “fortalece compromissos do Brasil com clima, florestas e desenvolvimento sustentável”. Organizações da sociedade civil europeia criticaram o acordo, por sua vez, dizendo que vai contra os compromissos climáticos da UE.
Organização Mundial do Comércio debate reforma de subsídios fósseis
Membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) participantes da iniciativa de Reforma de Subsídios aos Combustíveis Fósseis (FFSR) discutiram novas abordagens para reduzir esses subsídios e ampliar a transparência sobre seus impactos, especialmente em setores intensivos em emissões.
A coordenação da iniciativa1, liderada pela Nova Zelândia, apresentou avanços do programa de trabalho estabelecido na 13th WTO Ministerial Conference, destacando três frentes principais: 1.) maior transparência via revisões de políticas comerciais; 2.) compartilhamento de ferramentas para reduzir medidas emergenciais de apoio a choques econômicos; e 3.) desenvolvimento de diretrizes para enfrentar os subsídios mais prejudiciais.
Durante o encontro, a Colômbia apresentou sua experiência de redução gradual do financiamento público aos combustíveis fósseis, combinada com incentivos para a transição energética. O Instituto Talanoa ressalta que a Colômbia e os Países Baixos também anunciaram a realização da First Conference on Transitioning Away from Fossil Fuels, prevista para abril de 2026 em Santa Marta, que reunirá governos, setor privado e sociedade civil para acelerar reformas.
Representantes de Vanuatu destacaram o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça sobre as obrigações dos Estados frente às mudanças climáticas, argumentando que subsídios fósseis distorcem mercados e ampliam riscos existenciais para países vulneráveis, o que é passível de litigância.
O International Institute for Sustainable Development apresentou estudo sobre como países do G20 podem eliminar subsídios fósseis por meio de planos nacionais com prazos definidos e reformas sequenciadas. Já o secretariado da OMC apresentou análise sobre como subsídios beneficiam setores de alta emissão gerando distorções comerciais e reduzindo incentivos à transição verde. Os copatrocinadores da iniciativa trabalham agora na preparação de resultados e possível declaração ministerial para a próxima 14th WTO Ministerial Conference.
O Brasil optou por não fazer parte da iniciativa e está ausente do processo.
Novas candidaturas ao Secretariado-Geral das Nações Unidas
Novas candidaturas ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas foram anunciadas. Além de Michelle Bachelet, candidata com apoio diplomático público de Brasil, Chile e México, foram indicados Rafael Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), cuja candidatura foi apresentada pela Argentina, e Macky Sall, ex-presidente do Senegal.
Rafael Grossi é um diplomata argentino com mais de quatro décadas de serviço e experiência em regimes multilaterais. É defensor das energias renováveis, argumentando que a energia nuclear sirva como estabilizadora de redes de transmissão com altas taxas de fontes intermitentes, como as renováveis.
Segundo Grossi, o principal problema é que a ONU tem se tornado praticamente ausente nas principais crises globais, apesar de ter sido criada com a missão central de preservar a paz e prevenir guerras. Ele argumenta que, ao observar conflitos atuais, no Oriente Médio, África ou Europa, o denominador comum é a falta de protagonismo da organização na mediação política. O diplomata sustenta que a instituição não perdeu completamente sua capacidade, mas, sim, deixou de utilizá-la plenamente.
Ao passo em que possui narrativas alinhadas à urgência climática e à recentralização do multilateralismo na política internacional, a candidatura de Grossi é vista com ressalvas dada a proximidade de Buenos Aires com o governo americano de Donald Trump. Receia-se que Grossi aja para minar ainda mais as capacidades da ONU de intervenção em conflitos internacionais. Ele competirá com Bachelet, ex-presidente do Chile, como a indicação regional para o posto de gestão da maior organização internacional do mundo.
Boletim da Força-Tarefa de Adaptação no ar!
No boletim de fevereiro, analisamos os próximos passos da agenda global de adaptação e destrinchamos nossa proposta sobre o Baku Adaptation Roadmap (BAR) na CMNUCC: o que é e o que queremos com ele?
Também comentamos o novo NAP do Brasil, a Lei de Glaciares na Argentina e por que uma decisão judicial obrigou a Holanda a garantir a adaptação climática de uma ilha caribenha
Leia e compartilhe: https://politicaporinteiro.org/2026/03/04/boletim-forca-tarefa-adaptacao-como-prioridade-fevereiro-2026/
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO