Chuvas extremas se repetirão, mas os desastres podem ser evitados

Assistimos mais uma vez a eventos climáticos extremos se tornarem desastres, que de naturais não têm nada. Mais de 60 pessoas morreram e 3.500 foram desalojadas em decorrência das chuvas que atingiram Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa, em Minas Gerais. Fevereiro de 2026 já é, historicamente, o mês mais chuvoso do estado, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Ao todo, foram registrados 579 milímetros de chuva somente em Juiz de Fora, sendo 229 mm entre os dias 22 e 24, muito acima da média mensal estadual, que é de 176 mm.

De acordo com os dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Minas Gerais tem 193 municípios com risco alto ou muito alto para deslizamentos de terra. Juiz de Fora e Ubá estão na categoria de alto risco. No índice de enxurradas, Juiz de Fora está classificado como baixo risco e Ubá, alto.

No sistema do MCTI, são apresentadas informações e análises sobre impactos das mudanças climáticas em estados e municípios. Entre os dados apresentados, estão os riscos a sistemas socioecológicos decorrentes de desastres geo-hidrológicos, evidenciando quais cidades correm mais risco de sofrer com deslizamentos e enxurradas.

Minas Gerais tem também seu sistema estadual de análise de impactos climáticos – o Clima Gerais. Nela, Ubá está classificado em Alta Vulnerabilidade climática e Juiz de Fora, em Relativamente Baixa. Nesse sistema, a capacidade de adaptação é baseada em renda per capita, gasto per capita com o meio ambiente e saneamento, índice de institucionalização de gestão de desastres e escolaridade.

Para o AdaptaBrasil, a capacidade adaptativa dos municípios brasileiros é baseada na capacidade de investimento público municipal e renda, governança e gestão de risco de desastres de inundações, enxurradas e alagamentos e capacidade municipal em cidadania e políticas setoriais. Baseado nesses critérios, Juiz de Fora e Ubá têm capacidade adaptativa muito alta, o que na prática não foi observado. Situação semelhante ocorre com outros municípios, como Pelotas, no Rio Grande do Sul, uma das cidades mais atingidas pelas enchentes históricas de maio de 2024. 

Um exemplo concreto dessa fragilidade é a drástica redução de recursos no governo de Minas Gerais, sob Romeu Zema. Segundo o Portal da Transparência estadual, se compararmos os anos fechados, a queda é gritante: em 2024, o Estado chegou a pagar R$ 41,1 milhões em ações de combate e resposta aos danos das chuvas. Já em 2025, esse valor despencou para apenas R$5,8 milhões.

Essa queda de mais de 85% diferença de quase R$ 35 milhões mostra que, enquanto o clima ficava mais extremo, a verba para proteger as cidades seguia o caminho oposto. Até a “reserva” de dinheiro (o valor empenhado) encolheu, saindo de R$ 47 milhões para apenas R$ 8,3 milhões de um ano para o outro. Na prática, Minas Gerais entrou em 2026 com muito menos fôlego financeiro para lidar com as chuvas de fevereiro. 

Isso não invalida sistemas como AdaptaBrasil ou Clima Gerais, que representam avanços da última década no monitoramento de riscos climáticos e no suporte a políticas de adaptação. Ainda assim, urge a necessidade de discutir melhorias no monitoramento e na governança, garantindo continuidade e colaboração efetiva.

A realidade que se impõe sobre os sistemas de mapeamento de risco revela o descompasso dos dados e a lacuna de implementação de políticas de adaptação climática em nível local. Ainda que os riscos estejam mapeados, a exposição identificada e as vulnerabilidades geográficas e sociais dos territórios amplamente reconhecidas, a capacidade adaptativa dos municípios brasileiros ainda é um conceito frágil e pouco institucionalizado, estando mais presente na teoria normativa do que efetivado na realidade da gestão pública.

Ações de prevenção e antecipação aos desastres ainda se baseiam muito em dados do passado. E a lacuna da adaptação se abre na forma como esses dados estão sendo utilizados para evitar catástrofes. Sem um sistema unificado, baseado na melhor ciência disponível e que opera no ritmo da urgência climática, a adaptação chega atrasada e encontra um cenário de perdas e danos.

Assim como a comunidade internacional vem consolidando indicadores globais de adaptação, a fim de fortalecer e orientar a resposta às mudanças do clima, o Brasil precisa desenvolver parâmetros unificados para tomada de decisão frente aos desastres cada vez mais intensos e frequentes.

Um passo significativo nessa direção é o AdaptaCidades, programa do Governo Federal que classificou os municípios mais vulneráveis, incluindo dados do AdaptaBrasil, e tem como objetivo desenvolver capacidades institucionais para adaptação climática. No entanto, ainda que mirando no futuro, a política pública ainda encontra problemas do passado. Muitos municípios, por questões burocráticas e políticas não aderiram ao programa, e a lista final – que não inclui Juiz de Fora, Ubá ou Matias Barbosa – será atualizada em abril, mais de um ano depois do lançamento da iniciativa.

Diante de um cenário de assimetria de dados, falta de coordenação e capacidade institucional, incluindo orçamentária, um sistema de governança climática federativa e multinível traria legitimidade e estabilidade para a política de clima, colocando a adaptação como prioridade na agenda pública. Não esqueçamos o Pacto pelo Federalismo Climático, de 2024. Mais chuvas históricas a curto prazo são inevitáveis, mas os desastres não precisam se repetir como tragédias anunciadas. 

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

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