A fratura geopolítica do Sul Global e a aposta do Brasil em estratégias bilaterais para liderar a agenda climática

Há um racha evidente no Sul Global sobre o clima e os caminhos para longe dos combustíveis fósseis. Alguns países reconhecem a urgência de reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa e começam a desenhar estratégias de transição energética. Outros, no entanto, seguem tratando o petróleo, o gás e o carvão como pilares centrais de seus modelos de desenvolvimento, instrumentos de segurança energética e fontes de poder geopolítico. 

Nesse contexto, diante da morosidade e das crescentes dificuldades de construção de consensos no âmbito do multilateralismo climático, o Brasil tem apostado em estratégias bilaterais de cooperação climática. Ao fortalecer parcerias com países-chave do Sul Global, sem abandonar os tradicionais atores do Norte, busca avançar em agendas em transição energética, financiamento climático, florestas e tecnologia, reduzindo a dependência exclusiva dos fóruns universais. Essa diplomacia climática bilateral permite maior flexibilidade, alinhamento de interesses específicos e potencial de implementação mais célere, funcionando como instrumento complementar às dinâmicas mais lentas do regime multilateral. O problema é que o Sul Global resiste a avançar de maneira concreta na transição energética, baseado em interpretações perniciosas do “direito ao desenvolvimento”, insculpido nos planejamentos diplomáticos a partir da Rio92.

O exemplo nas relações Brasil – Rússia

O distanciamento entre a retórica climática e as prioridades energéticas tornou-se particularmente perceptível na recente Declaração Conjunta da VIII Reunião da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação, realizada neste mês de fevereiro. O texto reafirma o fortalecimento da parceria estratégica bilateral, a ampliação do comércio, da cooperação tecnológica e da coordenação política em fóruns multilaterais. No entanto, quando se trata de energia e clima, a linguagem permanece genérica e cuidadosamente vaga, sem qualquer referência a mapas de caminho para longe dos combustíveis fósseis ou a compromissos estruturais de descarbonização. Trata-se menos de uma omissão casual e mais de um reflexo dos interesses geopolíticos compartilhados, nos quais soberania energética e desenvolvimento econômico baseados em petróleo seguem priorizados.

Essa postura não constitui caso isolado: a relação entre Brasil e Rússia foi elevada ao nível de Parceria Estratégica Global em 2002. Uma parceria estratégica caracteriza-se como aliança de cooperação aprofundada entre dois Estados, fundada na vontade política de ampliar sua projeção sistêmica. Para que assim seja reconhecida, portanto, exige convergência em ao menos uma dimensão relevante do poder nacional, seja a econômica, a tecnológica, a cultural, a ambiental ou a política,  podendo ainda envolver reconhecimento recíproco quanto à centralidade da relação. 

No caso brasileiro, a consolidação das Parcerias Estratégicas articula o direcionamento universalista  e altivo da política externa com aproximações seletivas, permitindo navegar oportunidades e contornar constrangimentos da ordem internacional. Tais parcerias pressupõem laços políticos e comerciais densos, sustentados por uma rede institucionalizada de diálogo que vai de instâncias técnicas a encontros de alto nível entre chefes de Estado e governo.

Nesse sentido, a declaração conjunta revela-se sintomática de uma fratura geopolítica mais ampla no tratamento das mudanças climáticas no âmbito do Sul Global. O episódio bilateral apenas evidencia padrão mais abrangente: coexistem, de um lado, o reconhecimento, ainda que moderado, da urgência climática e, de outro, a percepção de que instrumentos tradicionais de crescimento econômico e estabilidade fiscal não podem ser abruptamente comprometidos.

O exemplo na ampliação do BRICS

Dinâmica semelhante manifesta-se na ampliação do BRICS. A incorporação de membros com economias fortemente estruturadas em hidrocarbonetos, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã, reforça o peso energético do agrupamento no sistema internacional. Simultaneamente, amplia-se a complexidade interna para a construção de consensos em torno de compromissos mais ambiciosos de descarbonização, dado que petróleo e gás constituem pilares estruturais de suas economias e de suas estratégias de inserção global.

Ainda, a baixa ambição do principal bloco político do Sul-Global ficou particularmente visível na Declaração de Kazan do BRICS, adotada na cúpula realizada em 2024, em Kazan (Rússia). Embora o documento reafirme compromisso com o multilateralismo climático e com a implementação do Acordo de Paris, a linguagem empregada sobre energia revela uma inflexão permissiva: enfatiza-se o “direito ao desenvolvimento”, a soberania sobre recursos naturais e a importância de “todas as fontes de energia”, combustíveis fósseis incluídos, para garantir crescimento econômico e segurança energética.

A ampliação das variáveis de análise reforça a linha argumentativa. A Índia sustenta historicamente o princípio do direito ao desenvolvimento, combinando expansão expressiva de fontes renováveis com dependência estrutural de carvão e petróleo para assegurar segurança energética e dinamismo econômico. O Brasil, apesar de deter matriz elétrica majoritariamente renovável e protagonismo diplomático na agenda ambiental, mantém a exploração do pré-sal como ativo estratégico por meio da Petrobras, entendendo o setor petrolífero como instrumento de arrecadação, política industrial e projeção internacional. A Rússia, por sua vez, permanece entre os maiores exportadores globais de petróleo e gás e mobiliza sua capacidade energética como vetor de política externa, inclusive mediante fornecimento de petróleo a Cuba, em contexto marcado pelas restrições impostas pelo embargo dos Estados Unidos e pelas instabilidades regionais associadas à situação venezuelana. Nesses casos, a energia transcende a dimensão econômica e assume inequívoco caráter geoestratégico.

A ênfase em justiça social e no princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, possui fundamento legítimo, sobretudo à luz das assimetrias históricas do regime climático internacional. Não se trata de agenda meramente retórica. Contudo, na prática, justiça social frequentemente se articula à defesa da exploração soberana de recursos naturais como meio de financiar o desenvolvimento e reduzir vulnerabilidades estruturais. A transição energética, nesse enquadramento, tende a ser concebida de forma gradual e calibrada, de modo a preservar receitas públicas, estabilidade macroeconômica e autonomia estratégica.

O desafio, portanto, não reside na ausência de consciência climática, mas na harmonização entre imperativos ambientais e cálculos estratégicos nacionais. Enquanto petróleo, gás e carvão forem percebidos como garantias de soberania e instrumentos de poder, declarações multilaterais tenderão a privilegiar formulações amplas e consensuais, evitando compromissos que impliquem reconfigurações estruturais profundas. Trata-se de tensão inerente ao momento político atual, no qual segurança energética e desenvolvimento permanecem no centro das prioridades de numerosos países do Sul Global.

Nesse contexto, o papel que o Brasil busca desempenhar como articulador do Sul Global torna-se particularmente complexo. Ao mesmo tempo em que defende maior ambição climática, justiça e financiamento internacional, mantém alianças estratégicas com atores que resistem explicitamente a qualquer linguagem que sinalize o declínio estrutural dos combustíveis fósseis. O desafio brasileiro não será apenas negociar com o Norte Global, mas administrar as fraturas internas do próprio campo que aspira liderar.

Enquanto as respostas permanecerem fragmentadas, o Sul Global seguirá tensionado por suas próprias contradições e, em contextos de divisão, sua capacidade de influência coletiva tende a se diluir. Nota-se que as fraturas são transversais dentro do regime climático, como se viu no tocante à diplomacia da adaptação na COP30. Diante desse cenário, então, questionamentos críticos pipocam: faz sentido, na prática factual, falar em Sul Global diante da fragmentação geopolítica para as mudanças climáticas observada dentro desse grupo? A coesão óbvia terceiro-mundista tem o regime climático como local de exceção? Ao passo em que potências médias criam capacidades de projeção global, há rapto dos espaços diplomáticos do dito Sul Global para atender as demandas de suas respectivas elites internas? 

A mera existência dessas indagações revela o cerne do dilema do Sul Global na governança climática contemporânea. A ideia de unidade geopolítica, tão central à retórica de Bandung1 e às alianças históricas do Terceiro Mundo, enfrenta limitações práticas diante de interesses divergentes, capacidades desiguais e pressões internas. O desafio do Sul Global não reside na ausência de consciência climática, mas na harmonização entre imperativos ambientais e interesses nacionais baseados em energia fóssil. 

Para o Brasil, que busca liderar agendas como o Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis e o fim do desmatamento, o dilema é particularmente agudo: como sustentar ambição climática e, ao mesmo tempo, preservar alianças estratégicas com parceiros que resistem a qualquer linguagem que sinalize declínio estrutural dos hidrocarbonetos?

A resposta a essa equação definirá não apenas o papel brasileiro, mas também a capacidade do Sul Global de transformar retórica histórica de autonomia em ação climática efetiva. No momento, os prospectos são claros: o Sul Global não é uníssono em matéria de clima.

[1] Realizada em 1955 na Indonésia, a Conferência de Bandung reuniu 29 países da Ásia e da África recém-independentes ou em processo de descolonização com o objetivo de afirmar autonomia política diante da lógica bipolar da Guerra Fria. A conferência lançou as bases políticas do que mais tarde seria conhecido como “Terceiro Mundo” e inspirou o Movimento dos Não Alinhados, articulando uma agenda centrada em soberania, cooperação e desenvolvimento .O Brasil não participou de Bandung. À época, nossa política externa estava fortemente ancorada no campo ocidental e o país não se via como parte daquele agrupamento afro-asiático terceiro-mundista que buscava uma terceira via no sistema internacional. O espírito de Bandung é frequentemente evocado em discursos sobre cooperação Sul-Sul e nos íntimos momentos de discussões autônomas  do G77+China.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

Assine nossa newsletter

Compartilhe esse conteúdo

Apoio

Realização

Apoio