(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
O Fórum Econômico Mundial abriu nesta semana o calendário de eventos internacionais e sinalizou as tendências para o ano sob a ótica de líderes políticos e grandes investidores e empresários. A década decisiva para evitar o limite de 1,5°C de aquecimento do planeta em relação ao período pré-industrial se mostra cada vez mais uma década de transformação do regime multilateral. Essa percepção foi reforçada pelo relatório anual Riscos Globais (leia mais no Gráfico da Semana). O regime multilateral de colaboração está em xeque e ganha espaço um cenário em que coerção e confrontação ditam as relações internacionais. Resta saber se, mesmo diante de sinais de ruptura, é possível a transição a um sistema que recupere a confiança na cooperação. E qual seria o caminho para isso.
A participação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Davos ilustra bem este momento. O lançamento de seu Conselho da Paz, sob dúvidas se tal iniciativa trataria somente da Faixa de Gaza, aumenta a turbulência global no ano que inicia a segunda metade de uma década de intensa transformação. Como a ONU e os princípios que balizam o multilateralismo construído nos últimos 80 anos atravessarão este período?
Trump só participou do encontro depois de ter a garantia de que a agenda “woke” seria suavizada, segundo o Financial Times. E as mudanças climáticas fazem parte da lista de temas que lhe desagradam.
Porém, não adianta jogar as emissões de gases de efeito estufa para baixo do tapete. E nem ignorar os eventos climáticos extremos que se sucedem. Alguns líderes empresariais e políticos reafirmaram que, com Trump ou sem Trump, a mudança do clima persiste e é preciso agir para evitar os piores cenários e lidar com os impactos crescentes. O CEO da Seguradora Allianz, Oliver Bäte, foi um dos que mantiveram com firmeza o apoio às ações climáticas, afirmando que é uma “aberração” pessoas com visão de curto prazo reduzirem a urgência dessas medidas. “Acho que é questão de fazer as coisas com inteligência. E, por sinal, o modelo agora é a China. Eles vão ser os líderes tanto em termos de renováveis quanto de custo de energia.”
No campo político, o comissário da União Europeia para Clima, Wopke Hoekstra, também foi objetivo sobre a inevitabilidade de lidar agora com os riscos climáticos: “A dura realidade é que a física de toda a matéria e do planeta não se importa se falamos sobre isso ou não. A única coisa que importa é quanto CO2 estamos lançando na atmosfera, o quanto o planeta está aquecendo e o quanto isso vai nos prejudicar economicamente como sociedade”.
GRÁFICO DA SEMANA
O relatório Riscos Globais 2026, do Fórum Econômico Mundial, apontou uma redução na percepção de riscos ambientais no curto prazo com o aumento das preocupações em torno das tensões geopolíticas. O ranking abaixo foi elaborado a partir de entrevistas com 1.300 atores relevantes, líderes globais, empresários, especialistas acadêmicos e membros de organizações internacionais e da sociedade civil. Eles foram consultados para estimar o impacto provável (severidade) de uma lista de 33 riscos no horizonte de dois e de dez anos.
Em relação ao ranking de 2025, Eventos climáticos extremos caiu de 2° para 4°; Poluição caiu de 6° para 9°.
Pela primeira vez desde 2023, Desinformação e informação falsa deixou de ser o risco número 1.
No entanto, no horizonte de 10 anos, o top3 segue sendo de riscos ligados à mudança do clima, o que indica que, independentemente das circunstâncias conjunturais, os riscos climáticos são vistos como potenciais fatores a provocar impactos severos nas atividades econômicas.
Saiba mais sobre o Gráfico da Semana no Blog da Política por Inteiro.
ABC DO CLIMA
Risco Climático – De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), risco climático é definido como o resultado da interseção entre perigo, exposição e vulnerabilidade de determinado território aos efeitos das mudanças climáticas, sejam eles eventos extremos ou de longa duração. Novas abordagens incluem também a capacidade de resposta/adaptação como fator complementar determinante ao risco. O risco climático pode ser avaliado de acordo com diversas dimensões, como sociais, ambientais e econômicas.
Na dimensão econômica, os impactos climáticos são traduzidos em variáveis econômicas e financeiras, como crescimento, produtividade, valor de ativos, finanças e estabilidade macroeconômica. Assim, o risco econômico climático representa sua expressão no funcionamento das economias e dos mercados, complementando as dimensões sociais e ambientais existentes.

Caso Master e os mercados de carbono
Entre os vários esquemas fraudulentos revelados pelas investigações do caso Master, reportagens da Folha mostraram o uso de terras da União para contabilizar “créditos de estoques de carbono” como ativos de empresas. As irregularidades e as fragilidades na fiscalização têm suscitado debates sobre a implementação do mercado de carbono. Entretanto, é fundamental diferenciar o mercado de carbono regulado do voluntário. No Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído por lei no final de 2024, serão negociados dois ativos: Cotas Brasileiras de Emissões (CBEs) e Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões (CRVEs). Créditos de carbono florestais, para serem reconhecidos como CRVEs, deverão passar por um processo com metodologias a serem estabelecidas e também limites para que o SBCE opere de acordo com o seu objetivo principal: promover a descarbonização de atividades econômicas, com a transição para processos que emitam menos gases de efeito estufa. O processo de credenciamento e os critérios de elegibilidade para os CRVEs devem ser conhecidos somente ao fim deste ano. O SBCE ainda não está em operação. A implementação do mercado de ativos deve levar mais 3 a 4 anos. Leia nosso ABC do Clima para saber mais sobre mercado de carbono e as diferenças entre o regulado e o voluntário.
Eventos extremos
A ocorrência de eventos climáticos extremos ao redor do mundo escancara a falta de adaptação climática a eventos climáticos recorrentes nesta época do ano (de verão no sul e inverno no norte), mas cujas intensidade e imprevisibilidade têm sido agravadas pelas mudanças climáticas:
– Incêndios no Chile
O Chile decretou nesta semana estado de catástrofe, decorrente dos graves incêndios no Sul do país, principalmente nas províncias de BioBio e Ñuble. Embora tais incêndios sejam recorrentes nesta época do ano pela combinação de períodos de secas e altas temperaturas, a extensão dos eventos é sem precedentes, acentuados pelas mudanças climáticas.
– Nevasca na Rússia
“Apocalipse branco” é como a maior nevasca dos últimos 60 anos tem sido chamada na Rússia. Assim como no Chile, a gravidade da situação não se dá pela ocorrência do evento, mas, sim, pela intensidade, relacionada ao degelo do Ártico. Com carros soterrados e neve que chega à altura de 5 metros, a região de Kamchatka está com estado de emergência declarado.
– Inundações em Moçambique
O cenário das chuvas intensas nesta semana em Moçambique é devastador. Mais de 100 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas, e estimativas apontam para 600 mil pessoas afetadas pelas inundações no estado de Gaza. O país é considerado altamente vulnerável a eventos climáticos extremos como este, que expõe a necessidade de aumento substantivo em financiamento para adaptação e resiliência.
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO