COP30 – DIA FINAL: Belém entrega avanços, mostra que multilateralismo vive, mas não vira o jogo
- COP30
- 22 de novembro de 2025
(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
A COP30 chegou ao fim neste sábado (22), em Belém, após a extensão de um dia da data prevista de encerramento e uma dramática plenária final. O presidente da conferência, André Corrêa do Lago, batia o martelo aprovando os textos acordados no Pacote Político de Belém, entre eles a Decisão do Mutirão, os indicadores do Objetivo Global de Adaptação (GGA) e o Programa de Trabalho sobre Mitigação (MWP). Colômbia, Panamá e Uruguai pediram a palavra para criticar duramente o processo, sobretudo em relação ao GGA, e para manifestar descontentamento à não inclusão do Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis no texto do Mutirão. As Partes também solicitaram esclarecimentos sobre o que a Presidência da COP estava encaminhando em relação à transição para o fim dos fósseis.
Após mais negociações, nas “rodinhas” (os huddles) no próprio salão da Plenária, a reunião final foi retomada. Corrêa do Lago se desculpou por não ter ouvido a objeção, e seguiu a plenária: decisão adotada.
Pacote Político de Belém, que inclui a Decisão do Mutirão e outros 14 textos:
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O Dia 13, ou dia 6 da segunda semana da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), já havia começado sob a expectativa dos textos finais a serem publicados, o que aconteceu somente no início da tarde. A tensa plenária final traduziu uma COP de grandes emoções. A primeira COP no Brasil foi a maior em participação popular já registrada, reunindo líderes mundiais, cientistas e sociedade civil em discussões e acordos para direcionar os próximos passos da agenda climática global. Neste quesito, a participação da população indígena – dentro e fora dos espaços oficiais – deu contornos da cara desta COP. Um resultado marcante também essa voz dos movimentos da sociedade civil. Pela primeira vez, menções a afrodescendentes entraram nos textos aprovados numa COP, entre eles, na Decisão do Mutirão e na decisão sobre os indicadores do GGA.
Na Cúpula dos Líderes que antecedeu a Conferência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe o elemento que permearia as duas semanas de debate: onde aterrissar o Mapa do Caminho* para Longe dos Fósseis. O novo tema à mesa tensionou as discussões. Além dele, as negociações sobre a adoção dos indicadores de adaptação criaram o clima de suspense se esta seria a COP da Adaptação.
Depois de uma sexta-feira de muita especulação e pressão, mas com negociações a portas fechadas, o sábado iniciou cheio de expectativas pelos textos finais. O período da manhã ainda foi de acertos uma sequência de adiamentos do horário da plenária final, até que, por volta das 14h, os textos finais foram aprovados, embora alguns países tenham criticado a presidência da COP e falado em falta de transparência e participação. A representante do Panamá disse que o país foi ignorado e que o procedimento não foi seguido, além de reclamar sobre a forma como o GGA foi aprovado, condicionando indicadores de adaptação a financiamento. Argentina, Uruguai, Canadá e União Europeia foram alguns dos que pediram a palavra e teceram críticas também.
A sessão plenária chegou a ser suspensa e, quando retornou, houve a reafirmação, com aval do secretariado, da validade do texto adotado, mas o clima pesou bastante na sala. A Presidência disse que as decisões aprovadas no início da sessão plenária “foram consideradas adotadas”, apesar das reclamações feitas por delegações que afirmaram não serem ouvidas. Houve bate-boca entre países, com latinos de um lado, russos e sauditas do outro, em torno da falta de menção clara a respeito de como o mundo vai caminhar para a eliminação dos combustíveis fósseis. Alguns interpretaram que, como o Roadmap ficou de fora, Rússia, Arábia Saudita, Nigéria e demais defensores do petróleo teriam saído ganhando.
Embora desejássemos uma menção clara ao fim dos fósseis nos textos da COP, vale ressaltar que houve sinais políticos positivos que funcionam como uma bússola, que ajudam a guiar para uma aprovação na plenária da COP31, ano que vem, na Turquia. Precisamos ainda de clareza sobre como o procedimento funcionará. O fato da presidência da COP30 ter mencionado a criação de dois Mapas do Caminho – sendo um para reverter o desmatamento e outro para transição para longe dos combustíveis fósseis – mesmo fora da Decisão do Mutirão, é o primeiro passo.
Ao estabelecer um Diálogo de Alto Nível que reunirá produtores, consumidores, trabalhadores, sociedade civil e academia, a Presidência da COP reconhece que não há mais como adiar o debate central sobre como o mundo vai superar sua dependência do petróleo, gás e carvão. “O avanço de hoje é significativo, mas está longe de ser suficiente. Para manter vivos os objetivos de Paris, é preciso enfrentar essa assimetria de poder e assegurar que a transição seja gradual, justa, ordenada e inequívoca”, disse o nosso especialista em transição energética, Caio Victor Vieira.
Contudo, não vamos esquecer: multilateralismo não tem somente dois lados. “Em um ano em que a polarização poderia facilmente ter congelado as negociações, o simples fato de os países terem se movimentado é prova de que o multilateralismo não está morto e que o Brasil agora tem a missão de elevar ainda mais as ambições rumo à COP31”, avaliou a presidente da Talanoa, Natalie Unterstell.
De forma geral, Natalie avalia que o resultado da COP30 entregou incrementalismo num momento em que o mundo precisava de um ponto de virada, mas ainda assim conseguiu avançar: decisões em adaptação, transição justa e no próximo Balanço Global finalmente saíram do papel. As engrenagens técnicas andaram em Belém. Segundo Natalie, o Mutirão, no geral, oferece avanços, mas fica aquém da crise que vivemos. “Ele não dá a resposta necessária ao problema central das NDCs: a falta de alinhamento com a trajetória de 1,5°C.
“Há reconhecimento do desafio, há processos, há sinalizações mas não há o salto político que a ciência exige. Sem rever ambição, não há mecanismo que compense o descompasso crescente entre promessas e realidade”.
Nossos especialistas da Talanoa também fizeram uma avaliação de alguns assuntos que estávamos acompanhando dia a dia na COP da Amazônia. Acompanhe:
1. Financiamento da Adaptação na Decisão do Mutirão
Benjamim Abraham comenta que a Decisão do Mutirão se baseia na meta de financiamento climático estabelecida no ano passado, trazendo um novo e importante objetivo de triplicar o financiamento para adaptação destinado aos países em desenvolvimento. Com os países desenvolvidos assumindo a liderança e outros contribuindo voluntariamente, as Partes agora precisam ampliar drasticamente o financiamento para adaptação para pelo menos US$ 120 bilhões até 2035 — com o valor exato da meta a ser esclarecido assim que os dados de referência para 2025 forem confirmados. “Os países vulneráveis ao clima esperavam maior ambição, mas a decisão ainda pede de forma inequívoca que os países desenvolvidos aumentem imediatamente sua provisão de financiamento para adaptação, colocando-a em uma trajetória que permita alcançar — e, idealmente, superar — a meta. Isso é extremamente necessário, considerando os cortes recentes na assistência oficial ao desenvolvimento por muitos países doadores,” disse.
2. Objetivo Global de Adaptação (GGA)
Pela primeira vez, mediremos a ação climática não apenas em toneladas de carbono evitadas, mas em vidas protegidas e infraestrutura capaz de resistir ao que está por vir. Daniel Porcel lembra que estivemos muito perto de sair de Belém sem um acordo sobre o Objetivo Global de Adaptação, em razão de visões divergentes sobre os indicadores. Por isso, entendemos a decisão como importante e positiva, especialmente pela adoção dos indicadores aqui na COP30. “Sabemos que eles ainda não estão prontos para implementação imediata, mas agora temos um processo claro, com a Visão de Belém até Addis Abeba, que abre uma janela de dois anos para melhorar tecnicamente esses indicadores”, comentou. Além disso, a conexão com a meta de triplicar o financiamento deve ser vista com otimismo. A adaptação não pode esperar, especialmente porque o financiamento para os países em desenvolvimento está diminuindo, enquanto os impactos climáticos estão se acelerando.
3. Balanço Global (GST)
Caio Victor Vieira comenta que, pela primeira vez, o mundo se une em um processo estruturado para discutir, de forma cooperativa, como acelerar a implementação dos resultados do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris. Os diálogos anuais até 2027 e, depois, as reuniões ministeriais, criam uma trilha de trabalho que pode manter vivos os objetivos de Paris. Contudo, o texto traz um alerta: os consensos serão “não-prescritivos”. Em um cenário de forte resistência a decisões claras sobre a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, isso exige vigilância. “Para que esse novo processo seja mais do que um ritual burocrático, países e organizações da sociedade civil precisarão atuar de forma firme e contínua, reforçando a centralidade da transição energética e cobrando ações aceleradas para reduzir a produção e o uso de combustíveis fósseis. Ganhamos ao estabelecer o processo; agora começa o próximo ato, de garantir que ele produza resultados concretos”, frisou.
Frase
Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima
Na manhã desta quinta aconteceu o Painel “Aterrissando a GGA nos Territórios: Dos Objetivos Globais às Realidades Locais na América Latina e no Caribe”, uma iniciativa da Força-Tarefa de Adaptação como Prioridade — uma coalizão de 40 organizações de 13 países da América Latina e do Caribe, da qual a Talanoa faz parte. A sessão discutiu como traduzir o Objetivo Global de Adaptação (GGA) em ações territoriais concretas, com ênfase em dados comunitários, monitoramento cidadão e metodologias participativas
Tacacá da COP
Entre 42 mil vozes que passaram pela Zona Azul e mais de 294 mil na Zona Verde – segundo dados da Casa Civil – a COP30 virou encontro de mundos. Em Belém, cada rosto, idioma e cor lembraram: a força do clima está no plural que nos une.
Céu iluminado em Belém
Na noite de quinta-feira, o céu de Belém foi iluminado por centenas de porangas, lamparina tradicional utilizada por seringueiros na floresta amazônica, feita a partir de latas de óleo e funcionando com querosene. Chamado de “Porangaço dos Povos da Floresta”, o evento paralelo à COP30 reuniu lideranças extrativistas e apoiadores.
Eventos Talanoa na COP
| DATA | EVENTO | LOCAL | HORÁRIO | PARCEIROS ORGANIZADORES |
| 20/11/2025 | Landing the GGA on territories: from global goals to local realities in Latin America and the Caribbean | Regional Climate Pavilion | 11:15 – 12:15 | Palmares, Talanoa, Decodifica |
| 20/11/2025 | Painel Mudanças Climáticas | Casa Vozes do Oceano | 15:30 – 19:00 |