COP30 – DIA 5, SEMANA 2: Rascunhos fracos e pressão por mais ambição
- COP30
- 21 de novembro de 2025
(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
O Dia 12, ou dia 5 da segunda semana, iniciou com a divulgação dos textos aguardados desde quarta-feira e seguiu a portas fechadas nas negociações. Durante toda a sexta-feira houve muita especulação e pressão, mas pouco se soube o que se passava dentro das salas de negociações.
Dos documentos divulgados no início do dia, o que mais chamou a atenção dos nossos especialistas foi que não havia a indicação de um Mapa do Caminho para abandono dos combustíveis fósseis, como esperado. Avaliamos que é um rascunho fraco e que faz, digamos, ambição por subtração.
Em anúncio informal, logo no início do dia, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, mencionou as dificuldades de se chegar a consensos. “Precisamos preservar esse regime em um espírito de cooperação, ou todos irão perder”. O embaixador convocou as partes a buscar soluções coletivas. “Não se trata do que o país anfitrião quer ou não: a presidência precisa chegar a um acordo que seja bom para todos nós”, disse.
O texto da “Decisão do Mutirão” divulgado cria uma série de salas de espera para os assuntos mais importantes como a transição, financiamento e adaptação. Uma das salas de espera é a de um acelerador de implementação voluntário para a questão das Conteibuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). A outra é essa missão Belém para limitar o aquecimento a 1,5ºC. Apesar de ser o destino correto, e que pode ser sim relevante, neste momento é um relatório a ser apresentado até a COP31.
Na área de financiamento, dizer que a gente vai avançar urgentemente, mas sem ter ainda maior clareza sobre fontes e prazos, indica também falta de direção. Isso nos preocupa muito em relação também ao financiamento da adaptação, porque ainda que triplicar o financiamento da adaptação apareça no texto, ele está de uma forma tão vaga que vira um jogo de “deixa que eu deixo”, justamente o que a gente não pode aceitar. “Deveria ser muito mais claro, inclusive para a questão de prestação de contas”, comenta Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa.
Outra questão também problemática, segundo Natalie, é que ele não deixa muito claro quem é que tem responsabilidade por essa triplicação. Na área de comércio, vale dizer que o texto cria três diálogos sobre comércio e transição. Obviamente são bem-vindos, mas eles não vão compensar o silêncio absoluto sobre combustíveis fósseis.
Especificamente sobre transição justa, nosso especialista Caio Vieira destaca:
- Combustíveis fósseis fora do texto: a linguagem sobre o abandono dos fósseis não foi mencionada. Por outro lado, há diversas considerações sobre como é importante impulsionar e implementar mais rápido projetos de economia de energia limpa renovável de maneira justa e equitativa.
- Compromissos nas NDCs: as transições justas serão feitas mediante compromissos nacionais e alguns princípios que estávamos batalhando não entraram. Mas, como sabemos que o desenvolvimento dos países não é homogêneo, a ONU está decidindo criar um mecanismo para financiar, apoiar e cooperar em transição justa em nível global, o que deve ser definido em Bonn no próximo ano.
A pressão pelo Mapa do Caminho foi ampliada na manhã desta sexta. A Colômbia e alguns aliados fizeram um apelo pelo abandono dos fósseis. Eles se uniram para dizer que o rascunho da decisão final não é suficiente e não atende ao pedido de mais de 80 países na COP30. “O que a presidência propôs não é suficiente. Precisamos continuar caminhando e isso precisa estar refletido no texto, que não responde suficientemente à ciência”, esse foi o recado.
Sobre o primeiro balanço global (GST) do Acordo de Paris, segundo o texto, teremos um diálogo estruturado no próximo biênio, se encerrando em 2027 com um reporte final, quando já se espera a adoção do segundo balanço do Acordo de Paris. Segundo nossos especialistas, essas linhas temporais parecem estar bem casadas.
A menção à necessidade de transicionar para longe dos combustíveis fósseis, que existia no parágrafo 28 do primeiro GST, não entrou com uma linguagem específica, então o que temos é um escopo muito mais amplo. Aqui é um foco na provisão de finanças, a construção de capacidades, o desenvolvimento de tecnologias e a sua transferência, e ainda como melhorar a cooperação internacional para que, enfim, a implementação do Acordo de Paris possa ser acelerada. Esse diálogo vai ser definido pelos corpos subsidiários para, no final, desembocar em um alto nível ministerial de discussão em 2027. “O papel do IPCC foi reconhecido, mas muito por conta das pressões de Índia e Árabia Saudita, outros corpos relevantes de ciência podem contribuir mais com o segundo GST. Em suma, nós tivemos aqui um texto final um tanto quanto balanceado, mas com perdas de linguagem que importariam nas ocorrências futuras”, disse Caio.
Daniel Porcel, nosso especialista que acompanha as discussões dos indicadores de adaptação (GGA), cita que temos agora uma proposta da Presidência com linguagem de adoção dos indicadores na COP30 em Belém. Uma lista de 59 indicadores que foram reduzidos e modificados, com meios de implementação que falam sobre financiamento público internacional de países desenvolvidos para países em desenvolvimento. Temos também o estabelecimento de um novo processo, que é o processo de Belém até Addis, na Etiópia, que tem a função de fazer o alinhamento das políticas de adaptação e trazer salvaguardas para a implementação dos indicadores, que é uma demanda que vem dos países africanos.
E, ainda, temos o Baku Adaptation Roadmap no texto, por outro lado, também cumprindo essa função de coordenação entre as agendas de adaptação. Porém, ainda não temos o texto da nova meta de financiamento nessa proposta da Presidência. Ele foi movido para a Decisão do Mutirão.
Mas foram feitos claros avanços na proposta do GGA. As partes estão hoje trabalhando a portas fechadas, o que eles chamam de Shuttle Diplomacy. Vamos ver como esses embates podem ser resolvidos e como os países que estavam em posições conflitivas vão reagir a essa proposta presidencial.
Até 20h desta sexta-feira ainda não se sabia se a COP30 encerraria no dia previsto, se a Decisão do Mutirão abrangeria todos os pontos relevantes destacados. Enfim, o jogo só termina quando acaba e esta COP pode trazer surpresas até o final.
Os textos que saíram no início desta sexta-feira estão abaixo:
- Decisão do Mutirão:
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/Mutir%C3%A3o_cop30.pdf - GGA (indicadores de adaptação):
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/gga_cop30_5.pdf - UAE JTWP (transição justa):
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/UAE_JTWP_cop30_1.pdf - MWP (mitigação e implementação):
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/MWP_cop30.pdf - GST (Balanço Global)
- Art. 9.5 (comunicação sobre financiamento):
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/Art.9.5_cop30_0.pdf - Art. 2.1 (financiamento):
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/SeSD_COP30_1.pdf - Medidas de resposta:
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/RM_cmp20.pdf - Comitê Permanente de Finanças:
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/SCF_cop30_1.pdf - GCF (Fundo Verde do Clima):
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/GCF_cop30_0.pdf - GEF (Fundo Global para o Meio Ambiente):
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/GEF_cop30_0.pdf - Fundo de Perdas e Danos:
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/FRLD_cop30_3.pdf - Fundo de Adaptação:
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/AF_dt_cop30_0.pdf - Programa de Implementação Tecnológica:
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/TIP_2.pdf - Art. 13 (transparência e construção de capacidades):
https://unfccc.int/sites/default/files/resource/ETF_cma7_1.pdf
Balanço da Agenda de Ação
No final da manhã desta sexta, Bruna Cerqueira, diretora da Agenda de Ação da COP30, fez um balanço sobre as atividades. Ela anunciou as “Comunidades de ação”, que serão uma forma de incluir organizações da sociedade na Agenda de Ação nesse próximo ano da Presidência. “A agenda de Ação é um espaço para a sociedade pedir aos negociadores o que queremos, mas também mostrar que podemos avançar de forma paralela às negociações”, disse.
França critica duramente os textos
A ministra francesa da Ecologia, Monique Barbut, criticou duramente o rascunho da decisão final da COP30, classificando-o como inaceitável e alertando para a possibilidade de a conferência terminar sem acordo. Ela destacou a ausência de termos centrais como “desmatamento” e lamentou que o texto não trate de mitigação, combustíveis fósseis ou maior ambição das NDCs, enquanto dá peso excessivo ao tema financeiro.
A ministra também mencionou a resistência de países produtores de petróleo — como Arábia Saudita e Rússia — e de grandes consumidores, como a Índia, em incluir o fim dos combustíveis fósseis no documento. Segundo ela, até pequenas ilhas têm recuado diante da busca por financiamento para adaptação. Na quinta-feira à noite, a França e outros 30 países enviaram uma carta à presidência da COP30 criticando a exclusão de referências a combustíveis fósseis e desmatamento.
Na manhã desta quinta aconteceu o Painel “Aterrissando a GGA nos Territórios: Dos Objetivos Globais às Realidades Locais na América Latina e no Caribe”, uma iniciativa da Força-Tarefa de Adaptação como Prioridade — uma coalizão de 40 organizações de 13 países da América Latina e do Caribe, da qual a Talanoa faz parte. A sessão discutiu como traduzir o Objetivo Global de Adaptação (GGA) em ações territoriais concretas, com ênfase em dados comunitários, monitoramento cidadão e metodologias participativas
Tacacá do dia
Na parede de Belém, a cobra desperta — tronco, tinta e território se entrelaçam.
É a Amazônia sussurrando ao mundo, em plena COP30, que cada traço é também um pedido de cuidado.
Grafite no muro do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Frase
Simon Stiell, secretário executivo das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, durante sessão de fechamento para a Agenda de Ação.
Céu iluminado em Belém
Na noite de quinta-feira, o céu de Belém foi iluminado por centenas de porangas, lamparina tradicional utilizada por seringueiros na floresta amazônica, feita a partir de latas de óleo e funcionando com querosene. Chamado de “Porangaço dos Povos da Floresta”, o evento paralelo à COP30 reuniu lideranças extrativistas e apoiadores.
Eventos Talanoa na COP
| DATA | EVENTO | LOCAL | HORÁRIO | PARCEIROS ORGANIZADORES |
| 20/11/2025 | Landing the GGA on territories: from global goals to local realities in Latin America and the Caribbean | Regional Climate Pavilion | 11:15 – 12:15 | Palmares, Talanoa, Decodifica |
| 20/11/2025 | Painel Mudanças Climáticas | Casa Vozes do Oceano | 15:30 – 19:00 |