COP30 – Dia 2: Negociações ganham ritmo em Belém
- COP30
- 11 de novembro de 2025
(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
O segundo dia da COP30 marca o início efetivo das negociações em Belém. A partir de agora, as Partes começam a discutir tanto a implementação de decisões anteriores quanto os avanços técnicos necessários para novos compromissos.
A agenda adotada começa a se desenrolar, enquanto a Presidência da COP30 segue consultando as Partes sobre como encaminhar os quatro temas propostos. Os encaminhamentos para cada item do pacote abaixo serão anunciados em plenária na quarta-feira (12):
- Artigo 9.1 – Financiamento de países desenvolvidos para países em desenvolvimento.
- UTM (Medidas Unilaterais de Comércio) – Tema com amplo apoio entre países em desenvolvimento; entretanto, blocos como AILAC e Grupo SUR preferem tratar o assunto sob o item “medidas de resposta”.
- Síntese das NDCs – Discussão sobre a lacuna entre a meta de 1,5°C e os compromissos nacionais; destaque para as posições de AOSIS, Noruega, Reino Unido, União Europeia e Austrália.
- BTR (Relatórios Bienais de Transparência) – Avanços esperados nas regras de transparência climática.
Nesta terça-feira, diversas salas de negociação foram abertas. As consultas informais incluíram temas-chave como Fundo de Adaptação, Objetivo Global de Adaptação (GGA), Planos Nacionais de Adaptação (NAPs), Balanço Global (GST) e Financiamento Climático.
Objetivo Global de Adaptação
No GGA, as negociações passaram por todos os itens do texto da decisão, mas o ponto de maior divergência continua sendo os indicadores. Há rumores de que alguns grupos consideram adiar para 2026 a definição dos indicadores do GGA — tema essencial para medir o progresso global em resiliência. O grupo de contato sobre o assunto se reuniu pela primeira vez nesta terça-feira.
Alguns países destacaram a importância de manter os indicadores voluntários, enquanto outros, como AOSIS, alertaram que eles não devem se tornar uma condição para acessar financiamento.
Os países menos desenvolvidos (LDCs) também enfatizaram a necessidade de garantir recursos concretos para implementar a adaptação, apresentando a proposta do “trippling” – isto é, triplicar o financiamento para adaptação. A meta é de US$ 120 bilhões até 2030, ideia que recebeu apoio inicialmente do grupo SUR e foi ganhando forças, sendo apoiada por quase todos os grupos do G77.
A expectativa é de que as Partes cheguem a um consenso nestas duas semanas e evitem empurrar para o futuro a lista de cerca de 100 indicadores que será fundamental para avaliar o avanço da adaptação climática no mundo.
>> Quer saber mais sobre esses indicadores? Acesse nosso Tá Lá no Gráfico sobre o tema: 100 indicadores para o GGA. E agora?
Planos Nacionais de Adaptação (NAPs)
Nos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs), é consenso que adaptação é uma prioridade e que tem tido avanço na formulação dos planos, mas a implementação ainda encontra barreiras por falta de financiamento e suporte técnico. Há uma preocupação crescente de que os planos fiquem apenas no papel.
O ponto central segue sendo o mesmo: quem financia e como garantir o apoio técnico necessário aos países mais vulneráveis — especialmente os Países Menos Desenvolvidos (LDCs) e os Pequenos Estados Insulares (AOSIS).
Fundo de Adaptação
Neste segundo dia os debates se concentraram em três pontos principais:
- a transferência legal do Fundo do Protocolo de Kyoto para o Acordo de Paris;
- o ajuste da terminologia do Conselho para refletir o novo acordo; e
- o início da próxima revisão do Fundo.
Todas as Partes concordam em avançar com a transição, essencial para que o Fundo possa receber recursos do Artigo 6 e acessar novas fontes de financiamento, algo urgente diante da escassez de recursos nos últimos anos. O principal impasse está na terminologia: países desenvolvidos querem abandonar as referências aos Anexos da UNFCCC, adotando “países desenvolvidos e em desenvolvimento”, enquanto LMDCs e o Grupo Árabe resistem à mudança. Esse bloqueio pode atrasar a transferência legal e o acesso às receitas do Artigo 6. As divisões permanecem as mesmas vistas em Bonn, e o desafio é avançar nas próximas semanas, já que o financiamento para adaptação não pode esperar.
Adaptação na América Latina
A Talanoa se reuniu com a Força-Tarefa Adaptação como Prioridade, grupo formado por cerca de 40 organizações de 13 países da América Latina e do Caribe que articulam a favor desta agenda. O trabalho da equipe vem sendo desenvolvido desde o Workshop sobre Adaptação Climática promovido pela Talanoa, em outubro de 2024, e segue se fortalecendo. A Força-Tarefa busca nesta COP aprovar um pacote de indicadores de qualidade, com meios de implementação (MOI) e considerando vulnerabilidades transversais. Para isso, trabalha para que esses indicadores venham acompanhados de sinais políticos que garantam que as decisões poderão ser implementadas, com financiamento público e altamente concessionais para os países em desenvolvimento.
De olho na COP32
Mal começou a COP30 e já há discussões sobre quem vai sediar a COP32. Há rumores de que o Grupo Africano de Negociadores teria obtido acordo interno em escolher a Etiópia como anfitriã da COP em 2027 naquela região. Enquanto isso, seguimos sem acordo entre Austrália e Turquia sobre quem vai sediar a COP 31, em 2026. A Presidência brasileira ofereceu suporte para mediações.
Plano Nacional de Adaptação do Brasil
O governo apresentará à UNFCCC o Plano Nacional de Adaptação, com 12 metas até 2035 para fortalecer a resiliência do país. Entre elas, reduzir para 7,5% o número de municípios com insegurança hídrica e proteger 4 milhões de pessoas em áreas de risco de desastres. O plano prevê que todas as obras federais considerem riscos climáticos, que 35% dos municípios elaborem planos locais de adaptação e a ampliação de 180 mil hectares de cobertura vegetal urbana. Segundo Marta Salomon, especialista sênior da Talanoa, as metas “mostram o alinhamento das políticas públicas à busca de resiliência climática”. A submissão do Plano foi adiada durante a COP30, por falta de consenso sobre metas de desmatamento legal. Veja mais no nosso blog.
Governança Multinível
No painel internacional que discutiu a governança multinível, neste Dia 2, a CEO da COP30, Ana Toni, destacou os desafios de desenvolver mecanismos econômicos para transferir o financiamento climático para as localidades. “O envolvimento dos subnacionais no relatório de 1,3 trilhão será fundamental para conduzir ações concretas”, comentou. Ana Toni também comentou que os governos locais têm papel importante na comunicação da política climática às populações. “Não tem melhor tradutor que governadores, governadoras, prefeitos e prefeitas para traduzir para o dia a dia das pessoas o que a gente tá fazendo aqui”, disse. Helder Barbalho, governador do Pará, corroborou na fala a CEO. “Se não envolvermos os atores subnacionais será impossível alcançar a implementação das NDCs”, declarou. Participaram ainda no painel a Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e o Secretário Nacional de Mudança do Clima, Aloísio Melo.
Já são 111 NDCs submetidas
Uma boa notícia nesta terça-feira correu pelos corredores na COP30. Já são 45 novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) submetidas entre os dias 1 e 11 de novembro. A soma inclui os 27 países da União Europeia e 15 que compõem o G20. As NDCs são fundamentais porque representam os compromissos concretos de cada país para reduzir emissões e se adaptar às mudanças climáticas.
A submissão dos países do G20 são essenciais, pois respondem por cerca de 80% das emissões globais de gases de efeito estufa e 85% do PIB mundial.
As NDCs do G20
| QUEM JÁ APRESENTOU | QUEM AINDA FALTA |
| Alemanha Austrália Brasil Canadá China Estados Unidos França Indonésia Itália Japão Reino Unido Rússia Turquia União Europeia |
Arábia Saudita Argentina Coreia do Sul Índia México |
Protesto
O dia terminou com manifestantes tentando entrar na Zona Azul – área de acesso restritos aos credenciados – da COP30. A equipe de segurança conteve o grupo, que reivindicava maior participação nas decisões da Conferência.
Fato
O grupo africano está articulando para estender por mais dois anos o processo político para alinhar os indicadores do GGA aos compromissos de adaptação.
Eles também pediram um documento técnico para orientar a integração entre metas, indicadores e informações de adaptação — uma tentativa de dar mais consistência ao processo.
Frase
“Como americano eu respeito e admiro o que a China está fazendo com relação a manufaturas e cadeia de suprimentos. Acho que os EUA têm que acordar logo porque o nosso legado está sendo passado para trás. Isso não tem nada a ver com poder elétrico e, sim, poder econômico.”
Gavin Newsom, governador da Califórnia
Tacacá do dia
Pelo 2° dia consecutivo, a tradicional e majestosa Chuva da Tarde de Belém deu o ar da graça. Sim, com iniciais maiúsculas, porque ela é uma entidade, além de parte da identidade de Belém. O “Toró” ou “Pau D’Água”, como é popularmente chamada, é um dos símbolos mais evidentes da potência e da vitalidade amazônicas na capital da COP30. Não importa se você está na Zona Azul, na Zona Verde ou em qualquer parte da cidade, é bonito de ver, de ouvir, de sentir.
Nesta terça-feira, em coletiva de imprensa organizada pela CAN América Latina, o especialista em políticas climáticas da Talanoa, Daniel Porcel, comentou sobre a relevância da Agenda de Adaptação nesta COP e o desejo da América Latina em aprovar a lista de indicadores de adaptação (GGA) em Belém, sem adiar a discussão. Daniel lembrou que adaptação e mitigação trabalham juntas e que o Brasil é parte da América Latina.
Eventos Talanoa na COP
| DATA | EVENTO | LOCAL | HORÁRIO | PARCEIROS ORGANIZADORES |
| 12/11/2025 | Phase-Out Fossil Fuels Day | Panda Hub | 11:30 – 12:30 | WWF, E3G, ETC, Embaixada da França no Brasil |
| 13/11/2025 | The Road From Belem: How COP30 will drive a “New Era of Implementation” on Resilience and Adaptation | Side Event Room 5 | 11:30 – 13:00 | ICS, CONCITO, E3G, I4CE |
| 15/11/2025 | Evento ministerial de alto-nível – Energy Transition Council | Side Event Room 2 | 14:30 – 16:00 | E3G, ETC, Presidência COP30 |