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Tsu – nami. A junção de dois caracteres (kanjis) japoneses: 津 (tsu), que é “porto”, e 波 (nami), “onda”. A palavra que o mundo usa para designar as gigantescas ondas, provocadas normalmente por terremotos, carrega em sua origem o potencial destruidor desse fenômeno sobre as infraestruturas costeiras. Ela voltou às manchetes nesta semana, após um terremoto de 8,8 de magnitude na Rússia acionar sistemas de alerta sobre o risco de formação de tsunami no Pacífico.
Os protocolos para responder à possibilidade de ocorrência de um tsunami evoluíram significativamente na última década, principalmente no Japão, após o evento devastador que matou aproximadamente 20 mil pessoas (oficialmente, 19.729 mortos e 2.559 desaparecidos) em março de 2011. A forma como o país reviu a tragédia e aprimorou seus sistemas de alerta e prevenção é um exemplo de como devemos lidar com os desastres, sejam não ligados à mudança do clima, como terremotos e tsunamis deles decorrentes, ou eventos extremos exacerbados pelo aquecimento global provocado pelo ser humano – tempestades, ondas de calor, furacões e mesmo tsunamis originados por deslizamentos de terra etc.
Na quarta-feira (30), assim que aconteceu o terremoto na península russa de Kamchatka, a Agência Meteorológica do Japão (JMA) iniciou seu protocolo de resposta, que prevê disparar os primeiros alertas de tsunami em cerca de três minutos após o tremor, com o objetivo de maximizar o tempo disponível para uma eventual evacuação da população.
Esse é um princípio estabelecido pelo órgão do governo japonês após escrutinar os erros que levaram à tragédia de 2011. O relatório “Lições aprendidas do desastre do tsunami causado pelo Grande Terremoto do Leste do Japão de 2011 e melhorias no sistema de alertas da JMA” é um exemplo de como trabalhar para que uma catástrofe não se repita.
Um dos pontos principais destacados no relatório da JMA, que já tem mais de uma década, é não subestimar o risco, sobretudo nas primeiras comunicações. Em 2011, a magnitude do tremor foi inicialmente considerada abaixo da grandeza que de fato teve – estimou-se algo entre 7 e 8. Concluiu-se que havia sido um terremoto de magnitude 9,0. Como as alturas das ondas que podiam se formar foram calculadas a partir de uma magnitude subestimada, elas também foram subestimadas. As observações das ondas em formação começaram a dar sinais de que seriam maiores do que o esperado, mas as comunicações posteriores já não foram tão eficientes. Em certo ponto, as estações de observação também começaram a ser danificadas pelo tsunami que se aproximava da costa. O tempo de evacuação se tornou exíguo com a água deslocada ganhando altura e força em direção à terra.
Reconhecendo que ter subestimado a magnitude do tremor e, consequentemente do tsunami, e que muitas pessoas podem ser alcançadas somente pela primeira comunicação (por situações como queda de energia, do sinal de internet etc), a JMA decidiu alterar o estilo de seus alertas. Quando há a possibilidade que o tamanho do tremor possa estar subestimado, são usados somente termos qualitativos como “Enorme” e “Alta” (“Tremor de enorme magnitude”). E também passaram a ser adotados títulos de fácil entendimento como “Um tsunami tão grande quanto o visto no Grande Desastre do Leste do Japão de 2011 deve ocorrer!” Assim, as pessoas entendem a situação de emergência. Após cerca de 15 minutos do tremor, quando a JMA já tem dados mais precisos de magnitude e tamanho de ondas observadas, a comunicação traz a altura provável do tsunami na costa com base no maior valor estimado. A escala de alertas para as alturas também foi simplificada, de oito para cinco classes (acima de 10m, 10m, 5m, 3m e 1m).
Fazendo uma analogia com um alerta de temporal no Brasil, num primeiro alerta, comunicar se vem 1 milímetro, 10mm, 100mm ou 1000mm pode ter o mesmo efeito se a pessoa não souber o que é 1 milímetro. Ou se o vendaval que está começando vai soprar ventos de 30km/h, 60km/h ou 90km/h. A precisão numérica para o alerta é secundária. Basicamente, o que deve ser entendido é se é uma chuvinha ou um temporal; uma garoa ou um pé d’água; um vento que refresca ou que arranca telhado e derruba árvore.
Voltando ao exemplo japonês, outra medida foi uma ampla divulgação do novo sistema de alertas para tsunamis, incluindo disseminar conhecimento sobre os riscos dessas ondas gigantescas e a conscientização das pessoas de que “evacuar para terrenos mais altos e/ou para locais distantes da costa antes que um tsunami aconteça é a única maneira de garantir a sobrevivência diante dessas ondas”. As campanhas de educação envolvem distribuição de materiais e atividades em escolas, seminários e outros eventos. A ideia é que, além de entender o sistema de alertas, a população consiga também decidir por evacuar uma área mesmo que não tenha chegado um alerta oficial sobre o risco.
E em caso de evacuação, mesmo que você não conheça a região, saberá, provavelmente, a rota de fuga. É comum no Japão encontrar placas (legíveis no escuro!) sinalizando a altura do local em relação ao nível do mar e placas com os caminhos para refúgio. Essas sinalizações poderiam inspirar as sinalizações no Brasil para áreas de risco de enchentes, inundações e deslizamentos. E não apenas nas vias, mas também dentro de instalações como shoppings e aeroportos que podem acabar alagados, como vimos em 2024 no Rio Grande do Sul. Nas imagens abaixo, uma delas mostra o alerta dentro do aeroporto de Naha, em Okinawa.
A PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE NA ELABORAÇÃO DOS SISTEMAS DE ALERTA
A revisão dos erros que agravaram a tragédia de 2011 é também uma grande lição sobre escuta e participação. A JMA criou uma comissão investigativa composta por especialistas, representantes de organizações relacionadas à prevenção de desastres e pela imprensa, segundo o relatório da agência. A entidade também solicitou sugestões dos municípios e do público para apoiar a pesquisa sobre como melhorar o conteúdo, as expressões e o momento da emissão dos alertas de tsunami. As ideias foram incorporadas ao novo sistema de alerta de tsunami lançado dois anos após o Grande Desastre do Leste do Japão.
Em um planeta mais quente, em que os eventos extremos serão cada vez mais intensos e frequentes, aprender com as tragédias é chave para a construção de resiliência. E nessa desafiadora experiência de aprender com a dor, envolver a comunidade de forma ampla faz parte também do processo de cura das populações afetadas por uma grande catástrofe. Ter a certeza de que as autoridades estão empenhadas em impedir que os erros se repitam ajuda a construir a confiança imprescindível para a eficiência de qualquer sistema de alerta a desastres. Talvez ocorram dezenas de evacuações aparentemente desnecessárias, mas as pessoas precisam continuar a atender as ordens até que uma delas prove que a cautela salva vidas.