Bioeconomia: Brasil ganha seu primeiro plano e leva desafio ao G20?

Foto: Marcelo Lelis/Ag Pará

Ao mesmo tempo em que o governo brasileiro busca superar as próprias divergências internas para criar um Plano de Bioeconomia que possa chamar de seu, o país propôs recentemente um desafio ainda maior: colocar na pauta do G20 a Iniciativa de Bioeconomia. A ideia é trazer, na declaração final da reunião de líderes do grupo, em novembro deste ano, uma reflexão sobre os princípios orientadores desse conceito. Em ambos os casos, o caminho não será fácil. 

Na pauta do governo, a bioeconomia tem aparecido no centro de várias iniciativas recentes, que buscam promover o uso sustentável dos chamados “recursos naturais” e impulsionar a inovação neste setor estratégico. No entanto, para que elas avancem como instrumentos efetivos para o equilíbrio econômico, climático e ambiental, um impasse ainda precisa ser superado: a falta de uma definição clara e unificada sobre este conceito. Esta carência vem dificultando a elaboração de estratégias que possam ser eficazes como política pública. Além disso, pode abrir brechas para que outras atividades se aproveitem, por exemplo, de incentivos fiscais que sejam destinados a essas práticas.

Em junho deste ano, o lançamento da Estratégia Nacional da Bioeconomia foi um passo importante no processo, já que trouxe uma interpretação bem delineada sobre o termo. Não está claro, no entanto, se isso será suficiente para resolver a disputa em torno do que realmente significa a bioeconomia dentro do próprio governo e entre os setores acadêmico e empresarial. 

Um olhar para a história deste conceito mostra que o impasse em defini-lo não é novo e nem uma exclusividade do Brasil. Ele começa a ser debatido nas décadas de 1960 e 1970 a partir da percepção de que o modelo econômico neoclássico, de crescimento ilimitado, apresentava sinais de insustentabilidade. É então que pesquisadores começam a propor uma nova abordagem, em que os processos produtivos estivessem inseridos em um sistema circular e limitado pela biosfera. A ideia era integrar a teoria biológica ao campo econômico. De lá para cá, essa concepção foi sendo aprimorada e integrada aos planos estratégicos de vários países, porém com adaptações relativas aos interesses e recursos de cada nação. 

Políticas de bioeconomia vêm sendo inseridas dentro de três vertentes (veja tabela abaixo). Em comum, as três visões tratam do uso de matéria-prima de base biológica para a produção de bens e serviços, mas cada uma dessas visões, a partir dos diferentes objetivos,  adota caminhos distintos.

VERTENTES DA BIOECONOMIA
  1. Biotecnologia: contempla inovações científicas e tecnológicas em escala comercial;
  2. Biorrecursos: concentra-se na promoção das cadeias de valor baseadas na biomassa;
  3. Bioecologia: busca abordar questões de saúde e sustentabilidade dos ecossistemas de forma mais ampla.

Um termo, muitos conceitos

No Brasil, o foco das discussões sobre bioeconomia tem priorizado ações diretamente relacionadas à região Amazônica, já que o país abriga a maior parte da floresta mais biodiversa do planeta. Mas isso está longe de ser um consenso. A definição do termo apresentada pela Embrapa, por exemplo, propõe que a bioeconomia seja considerada um “modelo de produção industrial baseado no uso de recursos biológicos, (que tenha como objetivo) oferecer soluções para a sustentabilidade dos sistemas de produção com vistas à substituição de recursos fósseis e não renováveis”.

Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) entende que a atuação da entidade e do setor industrial deve ser trabalhada como um recorte, dentro de um amplo conceito. A partir dessa perspectiva, esse recorte de Bioeconomia é definido como “resultado de uma revolução na inovação aplicada aos recursos biológicos e está diretamente relacionada à invenção, ao desenvolvimento, e ao uso de produtos e processos nas áreas da saúde humana, da produtividade agroindustrial, da biotecnologia e de vários segmentos industriais”.

De acordo com um relatório publicado em 2022 pelo Climate Policy Initiative (CPI/PUC–Rio), o Brasil vem dispondo de um amplo conjunto normativo também regulamentado nessas diferentes vertentes de bioeconomia. Um dos exemplos no nível subnacional é o estado do Pará, que de forma pioneira na Região Amazônica instituiu seu Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio/PA) em 2021, abrindo caminho para a discussão de um conceito amazônico para o tema e para o debate nas demais subnacionais da região.

Mais recentemente, a Estratégia Nacional de Bioeconomia, lançada no dia 5 de junho, trouxe um dos conceitos mais adaptados à realidade do país, considerando a bioeconomia um “modelo de desenvolvimento produtivo e econômico baseado em valores de justiça, ética e inclusão, capaz de gerar produtos, processos e serviços, de forma eficiente, com base no uso sustentável, na regeneração e na conservação da biodiversidade, norteado pelos conhecimentos científicos e tradicionais e pelas suas inovações e tecnologias, com vistas à agregação de valor, à geração de trabalho e renda, à sustentabilidade e ao equilíbrio climático.”

Os substantivos empregados na construção desse conceito se interrelacionam de modo a evitar armadilhas que levem a bioeconomia a abraçar elementos como soja, pecuária, gás natural, petróleo e eucalipto, gêneros econômicos que, por seu poderio econômico e capacidade de lobby, poderiam forçar uma “bioeconomização” de suas atividades. Dessa forma, grandes categorias como energias não-renováveis, monoculturas e florestas de produção se afastam do conceito, quer pela ausência de preocupação efetiva com a conservação da biodiversidade, quer pela não-colaboração com o equilíbrio climático ou, ainda, pela ausência de conhecimentos tradicionais associados ao processo produtivo e à agregação de valor.

Esta Estratégia, no entanto, é apenas um documento inicial que antecede a criação de um Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, programado para ser divulgado em até dois meses trazendo dados sobre recursos, ações, responsabilidades, metas e indicadores para o setor. É então que a tradução deste conceito em normas e diretrizes será testada por interesses de diferentes setores, como o agronegócio.

O Estado brasileiro tem, no momento, duas decisivas lições de casa: a primeira delas é alinhar o conceito definido no planejamento da Estratégia Nacional de Bioeconomia com (a) as políticas públicas macro que estão em fase inicial de implantação, como o Plano de Transformação Ecológica (PTE), o Plano Nova Indústria Brasil (NIB) e o Plano Nacional de Transição Energética (Plante), além de (b) políticas setoriais já em implementação, a exemplo do Plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC+) e os próprios Planos de Ação para Prevenção e Combate ao Desmatamento (PPCDs) em todos os biomas, dentre os quais o PPCDAm é o expoente.

A segunda tarefa é destinar meios e recursos suficientes para garantir que a Bioeconomia seja um instrumento efetivo de redução de desigualdades, trazendo oportunidades a segmentos sociais desprovidos de lastro e evitando que o conceito seja “sequestrado” por grandes grupos econômicos. Vale lembrar que o Brasil já passou por isso: o conceito de Manejo Florestal – que em 2006 levou o Brasil a ter a importante Lei de Gestão de Florestas Públicas – outrora tida como um instrumento de desenvolvimento local com função de “destinação de florestas públicas às comunidades locais” (art. 4º), é hoje dominado por grandes grupos econômicos no âmbito das concessões florestais, já que comunidades tradicionais e associações de famílias que vivem na e da floresta não conseguem atingir os requisitos mínimos ligados à viabilidade financeira de editais públicos, devido à ausência de capital financeiro, à baixa capacidade organizativa, entre outros entraves.

Um desafio também multilateral

Se o desafio interno já é grande, o internacional é ainda maior. Para estabelecer diretrizes que podem influenciar mecanismos de financiamento multilaterais de apoio à proteção do meio ambiente e à sustentabilidade, as 20 maiores economias do mundo também terão que chegar a consensos sobre prioridades e eixos de atuação. Em termos conceituais, as políticas dos países diferem bastante. Nos Estados Unidos e em outras nações industrializadas do Norte Global, por exemplo, o conceito é centrado nas perspectivas biotecnológicas e de biorrecursos, com políticas que incluem incentivo à substituição de matéria-prima fóssil por recursos biológicos, como a biomassa. Contudo, estudos vêm indicando que essa não é necessariamente uma prática sustentável, já que pode resultar na superexploração e destruição de florestas. É o que defendem países com alto índice de diversidade biológica, como Brasil, Costa Rica e Malásia, onde o foco é nas estratégias de bioecologia, com propostas para o desenvolvimento sustentável que considerem a manutenção da biodiversidade. Esse é um dos desafios a serem superados, como destaca, por exemplo, o relatório Innovation  Ecosystems in the Bioeconomy, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado em 2019. Portanto, no contexto internacional, cabe ao Brasil defender um conceito de bioeconomia em que a promoção da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais associados pesem mais do que a lógica de produção exploratória dos recursos da biodiversidade, das comunidades tradicionais e dos povos indígenas.

A disputa pelo conceito de bioeconomia surge a partir da identificação de um problema amplo e global, sem que haja uma resposta única para solucioná-lo. Talvez o maior desafio para que o tema se traduza em políticas públicas eficazes seja a compreensão de que sua conceituação não precisa ser homogênea nem limitante, mas sim trazer uma essência capaz de estabelecer diretrizes claras para direcionar respostas urgentes ao problema central – resgatar o equilíbrio ambiental e climático do planeta – sem deixar margens para seu uso indevido. Para tal, a bioeconomia precisa estar em constante construção e englobar os diferentes atores envolvidos no processo, evitando ser um vetor de exacerbação das desigualdades. Com vontade política e um razoável capital de coordenação dentro do Estado, ela pode ser também um agente promotor de equidade social.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

Assine nossa newsletter

Compartilhe esse conteúdo

Apoio

Realização

Apoio