PlanGeo: um novo ciclo mapeamento geológico e a agenda da transição

O Ministério de Minas e Energia (MME) publicou nesta quinta-feira (14) portaria criando o Plano Decenal de Mapeamento Geológico Básico (PlanGeo), para estabelecer procedimentos e orientações para o levantamento de recursos minerais no território brasileiro.

Avançar no mapeamento geológico do país em busca de reservas de minerais críticos – ou estratégicos – fundamentais na transição energética está no radar do governo e já no Orçamento da União, com R$ 54,3 milhões neste ano, como mostramos no documento Minerais estratégicos e a transição energética, publicado na semana passada. O PlanGeo se insere nesse contexto, abrindo mais um ciclo de execução do mapeamento do país pelo Serviço Geológico do Brasil. Observando-se o recorte temporal dos três ciclos de mapeamento até aqui – 1969-1993, 1994-2002, 2003-atual, é notório que neste novo ciclo o componente climático não poderá ser deixado de lado.

Fonte: Painel do Plano Anual de Trabalho 2024 (PAT 2024), Programa Mineração Segura e Sustentável / Ação Mapeamento Geológico do Brasil (Serviço Geológico Brasileiro)

A norma desta quinta-feira, chama de “diretrizes de governança” orientações como previsibilidade, transparência, geração de conhecimento e “participação social na tomada de decisão pública”. No entanto, a medida é silente sobre quaisquer aspectos ambientais e climáticos. A essa altura do campeonato, espera-se minimamente que normas relacionadas à mineração tenham o cuidado de considerar a governança territorial, o risco de sobreposição com áreas protegidas, os impactos conexos ao clima, bem como o caráter estratégico do levantamento mineral para a transformação ecológica do país.

A assinatura da portaria ocorreu em cerimônia com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, na quarta-feira (13), no Complexo Mineroindustrial da Eurochem, em Serra do Salitre, no Triângulo Mineiro. No evento, uma inauguração de uma planta de fertilizantes, foi elencada a segurança alimentar como prioridade para o PlanGeo. Além do plano, foi divulgada a instalação do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), cuja primeira reunião deverá ocorrer em abril. Na realidade, a estruturação de tal grupo já havia sido anunciada há um ano, em abril de 2023.

O MME levará ao CNPM o Programa Mineração para Segurança Alimentar, para que se priorize o mapeamento geológico do potássio, fosfato, remineralizadores e fertilizantes naturais, fundamentais para garantir a segurança alimentar (por estarem ligados à agricultura), informou nota do ministério. A previsão é de que sejam investidos R$ 105 milhões até 2025. Ou seja, o mesmo orçamento previsto em 2024 deve ser destinado no ano que vem ao PlanGeo. Assim como a ligação com a questão agrícola foi posta no lançamento do plano, o MME deveria conectá-lo à questão climática – duas pautas interligadas também nesse aspecto.

Ainda que a transição energética e seus insumos minerais necessários não tenham sido enfatizados na portaria do PlanGeo, a abertura de um novo ciclo de execução do mapeamento geológico do país é salutar para se mensurar os esforços necessários para a transição energética. Entre diretrizes de governança e aderência setorial para o planejamento e a execução do mapeamento geológico básico e de levantamento de recursos minerais foram elencadas: “transparência dos critérios, das ações e dos resultados”; “participação social na tomada de decisão pública” e “aderência às estratégias dos planos setoriais de abrangência nacional”, entre outros.

A forma como essas diretrizes serão seguidas dirão o quanto as agendas climática e socioambiental serão incluídas na execução do PlanGeo. Como ele se conectará ao Plano de Transformação Ecológica (cuja governança segue sem publicação)? E ao programa Nova Indústria Brasil? A atualização da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) em curso englobará como a questão minerária no país, incluindo as ações de mitigação e adaptação e as salvaguardas socioambientais? Por enquanto, o impacto da publicação do PlanoGeo para a agenda climático é neutro, mas as respostas a essas questões podem determinar impacto positivo, com aceleração da transição justa – ou consequências negativas.

Importante lembrar que o MME é um dos 18 integrantes do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), recriado por Decreto em junho de 2023.

A versão preliminar do PlanGeo será colocada em consulta pública em abril, segundo cronograma publicado na portaria. A versão consolidada sairá até julho.A Política por Inteiro acompanhará atenta os próximos atos relacionados ao PlanGeo.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

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