(O conteúdo que você vai ler a seguir é feito totalmente por humanos, e para humanos)
Para quem acredita que “já viu de tudo nessa vida”, o ano de 2025 sugere repensar o jargão. Em matéria de política climática (e de tudo o que gira em torno dela), confusões, contradições e contenção de danos no Legislativo têm dado o tom nos últimos anos, mas nada com a profundidade que tivemos neste ‘ano 3’ de mandato. Não foram só notícias ruins, muito embora essas tenham sido duras o suficiente para tomar nossa atenção e nos dar mais motivos para alertas do que para celebrações. Tanto dentro quanto fora do País.
Esse 2025 chacoalhou a gente de um extremo a outro: perdemos Francisco, o Papa mais pró-clima dos nossos tempos; e tivemos a volta do escancaradamente anticlima Trump, agora mais organizado e virulento do que em sua primeira passagem pela Casa Branca. O homem que tarifou uma ilha onde só moram pinguins é o mesmo que odeia a ideia de que energias renováveis podem ser menos impactantes e custosas.
Quando o assunto é dinheiro, tivemos o avanço diplomático de que é preciso triplicar o financiamento em Adaptação Climática, ao mesmo tempo em que também tivemos os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se comprometendo a destinar 5% do PIB de cada país-membro a gastos militares, diante das tensões com a Rússia. Um volume abissal de dinheiro (já que estamos falando em países desenvolvidos).
Dentro de casa, o Brasil também experimentou essa maré amarga-e-doce. Enquanto o Plano Clima avançou em seus planos setoriais para mitigação e adaptação (incluindo escuta ao público), o grand finale do processo construtivo foi prejudicado pela incidência feroz do segmento agropecuário. Uma reunião do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) é aguardada para a próxima semana, com altas expectativas de que uma saída para a indisposição do agro em assumir protagonismo real na redução de emissões seja encontrada. Afinal, as metas nacionais não serão alcançadas com marketing pesado em Conferências do Clima.
Na Amazônia brasileira, o desmatamento caiu pelo quarto ano seguido, contra muitos prognósticos. O Cerrado também experimentou a segunda queda consecutiva na taxa anual, depois de vir em alta entre 2020 e 2023. A partir de agora, qualquer redução no desmatamento será mais difícil e requer ainda mais esforço e sofisticação. Incentivos econômicos precisam ser seguros e atraentes o suficiente para demover da ideia de desmatar. É um desafio civilizacional. Já faltam menos de cinco anos para a linha de chegada do compromisso de desmatamento zero firmado pelo Brasil.
Os alertas de fogo também caíram, diferentemente daquele 2024 fora de controle no 2º semestre. Parte do sucesso na bem-vinda redução desses números se deve a medidas de coordenação que parecem ter sido essenciais para o resultado nos números. Brigadas regionais foram definidas com antecedência, o governo determinou em Medidas Provisórias (que depois viraram Lei) que os repasses do Fundo Nacional de Meio Ambiente (FNMA) a estados e municípios fossem desburocratizados, resoluções sobre manejo integrado do fogo (MIF) também emplacaram, entre outras ações.
E por falar em metas, 2025 se vai como o ano do maior ataque à institucionalidade da política ambiental e climática do Brasil: a implosão do Licenciamento Ambiental, pelas mãos de um Congresso dedicado a ignorar solenemente a política climática do país. A aprovação da nova Lei Geral é, sem dúvida, o momento mais crítico, não apenas para as metas climáticas nacionais – agora fragilizadas pela prevalência da ingerência política sobre a técnica – como também para a saúde pública do país, que sai de 2025 mais desprotegida e agora passa a ‘pagar pra ver’.
Ainda intriga pensar em como os órgãos licenciadores (especialmente nos estados) vão se reconfigurar com a nova lei, considerando uma máquina pública que, via de regra, nas últimas décadas tem se centrado na análise técnica de processos, com rotinas de vistoria deficitárias e dificuldades no monitoramento de condicionantes das licenças concedidas. Agora, a mera declaração de que se está apto à operação, como no caso da LAC (Licença por Adesão e Compromisso, que ganha protagonismo), é a deixa para que muitos governadores deixem de fazer concursos públicos e/ou redirecionem analistas para outros temas (Alô, Tribunais de Contas, Ministérios Públicos, Ouvidorias, Poder Judiciário!). Em 2026, um olhar atento para as realidades nos estados será importante para garantir força à política climática nacional, uma vez que neles se concentra a maior fatia das demandas de licenciamento do país. Como contraponto à nova Lei Geral, parte do funcionalismo estadual (e municipal) nos setores de licenciamento teria de ser reorientada, por exemplo, ampliando a frequência de vistorias nas atividades licenciadas pelo próprio empreendedor, além de endurecer o monitoramento de condicionantes de licenças em vigor, já que a nova lei resolveu atacar severamente os procedimentos técnicos em matéria de análise processual.
Veja que ainda nem falamos de COP30… Talvez porque ela não tenha conseguido sequer constranger os anseios de uma classe política obtusa. Nem antes, nem depois da conferência, viu-se qualquer preocupação da maioria do Congresso sobre as normas socioambientais do país. A questão climática foi evocada por conveniência, não por emergência, como no caso do Fundo Social do pré-Sal. O fundo ganhou critérios de política climática e fortaleceu proteção social, mas logo em seguida foi sangrado pelo Congresso, que decidiu que até R$ 30 bilhões dele podem ir para socorrer o setor agropecuário, a fim de cobrir prejuízos que decorram de “eventos climáticos adversos”… Que tal?!
Por outro lado – e felizmente – a presença do mundo em Belém parece ter influenciado a favor de avanços históricos em Governança Territorial, alguns dos quais oficializados ainda durante a conferência, que teve forte participação indígena: foram três demarcações de Terras Indígenas (2 no Mato Grosso e 1 no Pará) e declarações de posse em outras dez. Comunidades quilombolas também tiveram motivos para celebrar em 2025, assim como beneficiários da Reforma Agrária: o ano foi marcante em reconhecimentos de terras quilombolas, declarações de interesse público que viabilizam desapropriações de imóveis privados dentro dessas terras coletivas, além de projetos de assentamento criados. Todos passos importantes a uma governança territorial que dê sustentação às metas de descarbonização nacionais. No entanto, 2026 não deve ser fácil, e a PEC do Marco Temporal caminhando no final de 2025 é um indicador disso. A ver como os Poderes – em colisão como nunca antes na história da Nova República – vrão determinar o que será.
Em Finanças, Fundo Clima e Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) estão engrenando. O primeiro segue crescendo. Grande parte do mérito está na equipe econômica do governo, que em dobradinha com a pasta ambiental/climática, lançou pelo menos 4 leilões EcoInvest para captação de recursos privados em 2025 e tem feito os recursos disponíveis pelo fundo aumentar. Além disso, o Brasil finalmente inaugurou o TFFF, que já conta com investimentos de diferentes países. Seu caixa ainda precisa encher até a tampa e transbordar, para chamar a atenção do dinheiro privado que o fará decolar. É o lado esperançoso que 2025 nos deixa.
Em Energia, o Brasil definitivamente testou nossa sanidade: termelétricas a carvão ganharam sobrevida pelo menos até 2040. Enquanto isso, o Plano Decenal de Expansão (PDE) 2025-2034 foi aprovado, com fundamentações esquisitas. O documento chega a afirmar que “gás natural deve ter produção expandida porque contribui para a redução do efeito estufa”, quando em verdade se trata de um derivado fóssil carregado de metano, gás com potencial de aquecimento global superior ao CO2.
E não foi só o posicionamento “técnico” capaz de produzir aberrações. A presidente da Petrobras chegou a mandar um “Let’s drill, baby!”, evocando Trump numa fala pública. E, infelizmente, uma das grandes derrotas da sociedade brasileira se confirmou: foi liberada a licença de pesquisa para a prospecção de petróleo na Margem Equatorial. Não importaram os apelos da comunidade científica e de diferentes setores da sociedade. Não se torna um mundo menos quente aumentando emissões. E não se reduzem emissões furando novos poços de petróleo.
E como desgraça pouca é bobagem, ainda deu tempo de a British Petroleum (BP), descobrir, na costa brasileira, sua maior reserva de óleo nos últimos 25 anos.
Ah! E Lula termina o ano determinando que, dentro de 60 dias, seus ministérios sejam capazes de propor uma trajetória consistente de redução da dependência de fósseis. É mole esse roteiro?!
Puxem o fôlego, por ora. Em 2026, tem mais.
O time da Política por Inteiro deseja a todas as pessoas um ótimo final de ano e um 2026 que aproxime justiça climática e sociedade!
TÁ LÁ NO GRÁFICO
Começamos 2025 com a constatação de que havíamos vivido em 2024 o ano mais quente já registrado na história, aproximando-nos perigosamente de um aquecimento global acima do limite de 1,5°C em relação à era pré-industrial. E 2025 deve ser o segundo ano mais quente. Os impactos da mudança do clima seguiram se confirmando ao longo do ano nos diferentes setores e aspectos de nossas vidas, incluindo da folia carnavalesca sob calor quase insuportável a seca, tornados e ciclones.
E os sabotadores da jornada para uma sociedade mais protegida das intempéries, menos desigual e mais justa não descansaram. Seguiram agindo para devastar florestas e leis e avançar em novas frentes para se agarrar ao mundo que fica para trás.
Mas no ano da COP no Brasil, na Amazônia, ficou evidente a urgência de se traçar e trilhar os caminhos para combater o que causa o aumento da temperatura do planeta e para nos adaptar a esse novo ambiente mais quente e mais instável. As soluções para mitigar as emissões de gases de efeito estufa e aumentar a resiliência de comunidades, ecossistemas e economias existem. E se entrelaçam.
O último Tá Lá no Gráfico de 2025 relembra alguns gráficos de destaque entre as 45 narrativas visuais publicadas pela Política por Inteiro ao longo deste ano.

FRASE DA SEMANA
ABC DO CLIMA
Ciclone Extratropical: Um ciclone extratropical é um fenômeno formado pela baixa pressão atmosférica que ocorre quando uma massa de ar frio encontra uma massa de ar quente. É chamado de extratropical porque se forma nas áreas temperadas – fora dos trópicos – de ambos os hemisférios, principalmente no oceano.
No Brasil, ocorre principalmente nas regiões Sul e Sudeste, causando chuvas fortes, ventos intensos e quedas drásticas. Embora ciclones desse tipo não sejam incomuns, as mudanças climáticas têm contribuído para torná-los mais frequentes, intensos e mais difíceis de prever, ampliando a exposição a riscos e evidenciando a vulnerabilidade das cidades, especialmente de áreas costeiras, mas não só, como ficou provado pelos prejuízos na cidade de São Paulo nesta semana.
MONITOR DE ATOS PÚBLICOS
Nosso Monitor de Atos Públicos captou 15 atos relevantes para a política climática. O tema mais frequente foi Terras e Territórios, com 4 atos. A classe da semana foi Regulação, com 10 normas captadas, incluindo diretrizes do Comitê Técnico Consultivo Permanente do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) e mais uma etapa de Regulamentação do Programa Periferia Viva.
Licenciamento Ambiental
Após derrubar os vetos da Mensagem do Executivo e analisar os termos da Medida Provisória (ambos de agosto), o Legislativo republicou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, com texto atualizado. As inconstitucionalidades flagrantes, como a inobservância do art. 170, VI, deverão ser objeto de análise do Supremo Tribunal Federal (STF).Fundo Clima
Mais R$ 4 bilhões para o Fundo Clima – especificamente para a Linha EcoInvest – dessa vez oriundos do Fundo da Marinha Mercante (FMM) e do Fundo Nacional da Aviação Civil (FNAC), para “programas de financiamento reembolsável vinculados a ações de mitigação e adaptação à mudança do clima”.
Mapa do Caminho
Em despacho, a Presidência da República determinou aos Ministérios de Minas e Energia (MME), da Fazenda (MF), do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e à Casa Civil que elaborem, dentro de 60 dias, uma proposta de resolução a ser submetida ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), com a finalidade de estabelecer diretrizes para elaboração do mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada, com vistas à redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis no país, e de propor mecanismos de financiamento adequados à implementação da política de transição energética, inclusive a criação do Fundo para a Transição Energética, cujo financiamento será custeado por parcela das receitas governamentais decorrentes da exploração de petróleo e gás natural. Leia a análise da norma no Blog da Política por Inteiro.
SBCE
Parte da colcha de regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) vai se formando. Foi publicado nesta semana o decreto 12.768, que regulamenta o Comitê Técnico Consultivo Permanente (CTCP), um dos braços responsáveis pela implementação e pelo funcionamento do Sistema. Não pudemos deixar de notar que trata-se de (mais um) caso de excessiva demora para “dispor sobre” uma instância. Nesse caso, ela havia sido criada em 11 de dezembro de 2024, há exatamente um ano.
EcoInvest
Lançado nesta semana o 4º Leilão EcoInvest Brasil em 2025, desta vez voltado para a Bioeconomia, para o Turismo Sustentável e para infraestruturas associadas a esses temas, todos com foco na Amazônia. O Turismo Sustentável é tratado como um coringa, que merece investimentos tanto em atividade complementar ligada a outras atividades econômicas, como a quaisquer geografias brasileiras.
BRASIL
Marco Temporal volta à Câmara em forma de PEC
Ao longo deste ano, abordamos em diversos boletins o impasse político entre os Poderes Judiciário e Legislativo em relação ao Marco Temporal, por entender que representa um retrocesso para os direitos dos povos indígenas, mas também para a política climática nacional. Estudos científicos relevantes comprovam como territórios indígenas demarcados não só servem como fronteira ao desmatamento, mas também cumprem uma função essencial para a estabilidade do regime de chuvas, garantindo que os rios voadores amazônicos “irriguem” 80% da agropecuária brasileira.
Embora o Supremo Tribunal Federal (STF) já houvesse declarado a inconstitucionalidade da tese do marco temporal, o Congresso Nacional derrubou os vetos do Presidente Lula e aprovou a Lei 14.701 no fim de 2023. A Lei, atualmente em vigor, aplica a tese do marco temporal e veda o direito à demarcação de novas terras indígenas para comunidades que não ocupassem tais terras em 1988, data da Constituição vigente brasileira. Em 2024, o STF instaurou uma Câmara de Conciliação para mediar visões opostas na sociedade quanto à constitucionalidade da Lei, encerrando seus trabalhos em julho deste ano, sem consenso sobre a matéria.
E chegamos em dezembro de 2025. Na semana passada, Gilmar Mendes, relator do caso, decidiu dar início ao julgamento da matéria no plenário do STF. E na terça-feira (9), o Senado decidiu colocar em regime de votação e aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 48/2023, com 52 votos a favor e 15 contra. A PEC segue agora para a Câmara dos Deputados, ao passo que o STF analisa concomitantemente a constitucionalidade específica da Lei vigente (e não da PEC).
MUNDO
Segundo ano mais quente da história
O serviço climático europeu Copernicus divulgou que 2025 deve terminar como o segundo ano mais quente já registrado, empatando com 2023 e ficando atrás apenas de 2024. Entre janeiro e novembro, a temperatura média global ficou 1,48°C acima dos níveis pré-industriais, e novembro registrou anomalia ainda maior, de 1,54°C, sendo o terceiro novembro mais quente da história.
Relatórios recentes do Copernicus e da Organização Meteorológica Mundial indicam que a média de 2023 a 2025 deve ultrapassar pela primeira vez o limite de 1,5 °C, referência do Acordo de Paris.
As evidências reforçam alertas já feitos pelo Secretário-geral da ONU, António Guterres: sem cortes profundos e imediatos nas emissões, manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C será impossível nos próximos anos.
DESASTRES
Nota de esclarecimento: Nosso Monitor de Desastres tem apresentado instabilidades nas últimas semanas e teve de ser submetido a reparos. Retornaremos com ele o mais rápido que pudermos.
TALANOA NA MÍDIA
| Repórter Brasil | “Aprovar o plano (Clima) é essencial para garantir uma política climática funcional”, disse Marta Salomon, especialista sênior da Talanoa, ao Repórter Brasil. |
| Folha de S.Paulo | A questão da exploração de petróleo e o Mapa do Caminho para longe dos fósseis foi o tema que Natalie Unterstell, presidente da Talanoa, comentou em reportagem. |
Bom fim de semana,
Equipe POLÍTICA POR INTEIRO